“As cheias do Tejo em Abrantes”, José Martinho Gaspar

Cheias em Rossio em 1979 deixaram 6 mil pessoas desalojadas. Foto: DR

Até às últimas décadas do século XX, em períodos de precipitação elevada, a formação de cheias no rio Tejo nos municípios ribeirinhos, entre os quais o concelho de Abrantes, atingiam especialmente o Rossio ao Sul do Tejo e Rio de Moinhos, mas também Alvega. Neste mês de fevereiro, assinala-se o 40º aniversário das cheias do Tejo que afectaram milhares de pessoas em 1979, com a água a atingir, no Rossio, valores próximos dos 16 metros, apontando as fontes para aproximadamente 6.000 desalojados no concelho de Abrantes.

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Na região, a avaliação da dimensão das cheias, que conhecemos desde meados do século XIX, recorre preferencialmente à escala de Ródão. Belard da Fonseca, no início do século XX, afirmava que “O Hidrómetro de Vila Velha de Ródão é, sem dúvida, o mais estável, o mais seguro e o mais preciso da secção. Com os seus fortes escalões de alvenaria, com escalas embutidas, pode-se ter segurança nas suas leituras desde 1852.”

Se seguirmos algumas referências da História Local, em parceria com a obra Rio Tejo: As Grandes Cheias 1800-2007, de João Mimoso Loureiro, ficamos com uma visão bastante completa do quanto transbordaram as águas do seu leito, desde meados do século XIX.

Entre 18 e 20 de fevereiro de 1855, ocorreu uma grande cheia, que inundou completamente o Rossio ao Sul do Tejo, onde cerca de 30 edifícios ficaram em ruínas. Na escala de Ródão a água atingiu 22,5 metros e em Abrantes 16 metros, calculando-se acima de mil alqueires as perdas de azeite que o rio levou.

No ano seguinte e em 1860, ocorreram cheias de dimensões idênticas. Já em dezembro de 1870, a cheia do Tejo provocou alguns danos no aterro da avenida da ponte rodoviária de Abrantes, que havia sido inaugurada exatamente nesse ano.

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Por esta altura, raro era o ano em que as águas, no Rossio, não subiam aos 10/12 metros. Todavia, a maior cheia de que há registo verificou-se a 6 e 7 de dezembro de 1876, em que a água, na escala do Ródão, atingiu 25,4 metros e em Abrantes 16,27 metros, submergindo muitas casas e matando bastantes animais.

A Câmara Municipal nomeou uma comissão para avaliar os prejuízos e, posteriormente, constituiu uma comissão de beneficência com o fim de angariar donativos para socorro às vítimas. Já próximo do final do século, a 25 e 26 de fevereiro de 1895, com as águas a atingirem 19,7 metros na escala de Ródão, em Abrantes alcançaram 13,12 metros, obrigando alguns habitantes a obterem abrigo no Convento de Nossa Senhora da Graça. No Rossio, a água esteve muito próxima da igreja e da estação ferroviária.

No final de 1940 e começo de 1941, a região foi assolada por temporais violentos, que provocaram o corte de comunicações entre Abrantes e o Alto Alentejo. As cheias atingiram particularmente o Rossio ao Sul do Tejo e Rio de Moinhos.

No início de março de 1978, ocorreu uma cheia considerável no Tejo, a qual causou avultados prejuízos, principalmente nas freguesias de Rio de Moinhos, Rossio ao Sul do Tejo, S. Miguel do Rio Torto, Alvega e Pego.

Foi, porém, em fevereiro de 1979 que se verificou a maior cheia do Tejo do século XX, com a água a atingir, no Rossio, valores próximos dos 16 metros, apontando as fontes para aproximadamente 6.000 desalojados no concelho de Abrantes.

Dada a dimensão desta cheia, o concelho recebeu os ministros da Administração Interna e Indústria e Tecnologia e no mês seguinte o último destes membros do governo voltou a Abrantes, na companhia do Ministro das Obras Pública e do Presidente da República, Ramalho Eanes.

Foto: DR

O número 12 da revista Zahara, que veio a público em 2008 deu à estampa um trabalho da autoria de Maria Cristina Saraiva Madeira, resumo da sua dissertação de Mestrado apresentada em 2001 na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, intitulado “Condições geomorfológicas, climáticas e antrópicas das inundações do rio Tejo em Abrantes”.

Trata-se de um estudo que se enquadra no âmbito da Geografia Física e que, na perspetiva deste domínio científico, explica as inundações do Tejo na região de Abrantes (elaborado antes da construção do açude insuflável) e, ao mesmo tempo, dá-nos interessantes informações de cariz histórico respeitantes a esta temática.

A autora, depois de uma análise exaustiva de múltiplos fatores que condicionaram o caudal do Tejo e as inundações que ocorreram ao longo do século XX (geomorfológicos, climáticos e antrópicos), chega a um alargado conjunto de conclusões. Reproduzimos, de seguida, algumas de entre essas ilações, que não substituem a leitura do trabalho:

– grande parte da bacia hidrográfica do Tejo a montante de Abrantes tem como substrato rochoso os terrenos do Maciço Antigo, o que favorece o escoamento e, por consequência, as inundações;

– a inundação de povoações como Rossio ao Sul do Tejo, Arrifana, Cabrito, na margem esquerda, Alferrarede, Rio de Moinhos, na margem direita, está relacionada com o fraco declive (0 a 8%) que provoca uma diminuição da velocidade do escoamento e com a morfologia do vale do rio Tejo, uma vez que se verifica um “alargamento” do vale na área próxima de Abrantes, o que facilita o espraiamento das águas;

– o Tejo apresenta-se particularmente assoreado em Abrantes, havendo troços onde a diferença entre o leito e as margens é mínima e outros onde se formam múltiplas ilhotas de areia, os “mouchões”;

– os cordões arbustivos das margens do Tejo e seus principais afluentes, regionalmente designados por “marachas” constituem uma engenhosa forma que os agricultores encontraram para proteger e consolidar os seus terrenos e as margens dos rios, os quais evitaram ou minoraram o processo natural de assoreamento; no troço do Tejo em Abrantes, bem como em alguns afluentes, as “marachas” degradaram-se ou foram destruídas, facilitando assim o entulhamento dos cursos de água;

– a ocupação e o uso indevido dos leitos de inundação (do rio Tejo e de alguns afluentes) evidencia a ausência de uma utilização racional do território e a ocupação em áreas de risco de inundação; a crescente urbanização dos vales inundáveis na área de Abrantes, que sempre constituíram uma grande atração para o desenvolvimento da habitacional, têm contribuído para a impermeabilização crescente do solo, o que altera as condições de escoamento e, durante a ocorrência de inundações, poderá levar a água a atingir níveis muito elevados.

Foto: DR

É certo que as cheias acarretavam consigo prejuízos avultados, porém, nos dias que correm, trocávamos de bom grado os problemas que assolam o Tejo por estes transtornos sazonais.

*Crónica publicada em fevereiro de 2018, republicada em 2019

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