“As abelhas”, por Berta Silva Lopes

Foto: James Pritchett, Unsplash

Chove em Lisboa. No estendal a roupa continua dependurada, todos os dias quase enxuta e afinal ainda não, está frio e vento, a primavera parece amuada. Na aldeia está igual, liguei para perguntar, chove quando calha.

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As abelhas já dançam contentes, diz o meu pai. O meu pai é apicultor e sabe tudo sobre abelhas. Há muitos anos que o oiço explicar o quanto elas são importantes para o equilíbrio do nosso planeta e para a sobrevivência da humanidade, o quanto devíamos estimá-las e, ao invés, irresponsavelmente, só as desprezamos.

O mel é apenas uma das muitas coisas boas que devemos às abelhas, mas a mais relevante de todas é provavelmente a polinização. E, vale a pena lembrar, as abelhas melíferas são as rainhas de todos os polinizadores.

Poucas tarefas há mais essenciais que essa. Pequenas no tamanho, mas de uma importância gigante para toda a vida na Terra, as abelhas merecem a nossa proteção. É difícil imaginar o mundo sem elas.

Para o biólogo E. O. Wilson, um dos mais proeminentes biólogos da atualidade, são os pequenos bichos que governam o mundo. No seu livro Cartas a Um Jovem Cientista, Wilson inspira nos leitores a paixão pelas maravilhas da ciência e o respeito pelo lugar surpreendentemente modesto que o ser humano ocupa no ecossistema do planeta. Leitura mais do que aconselhada.

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O mundo anda a portar-se mal com os únicos insetos capazes de produzir um alimento que é consumido pelo homem, é bom recordar – e ainda por cima tão delicioso. Posto isto, e feitas as contas, talvez as ferroadas nos sejam merecidas.

As ameaças às abelhas são muitas e provêm de vários lados, vou lendo por aí. Ainda bem que o meu pai não tem facebook nem é freguês da internet, as notícias não são animadoras – e a ele já lhe bastou o revés do grande incêndio de 2017: dezenas de colmeias moribundas, outras tantas dizimadas. Foi difícil recomeçar.

A última cresta foi, também por isso, memorável. Ao esforço do apicultor as abelhas do meu pai corresponderam com mel da cor do ouro. Este ano vamos ver. Os campos já se cobriram de flores silvestres, urze, rosmaninho, e a chuva, abençoada, foi bem-vinda. Sem chuva não há néctar.

Muitas pessoas costumam dizer-me que o mel das abelhas do meu pai tem um sabor especial, e eu acredito – primeiro porque tenho muito orgulho na dedicação do meu pai às suas colmeias e depois porque não sou grande apreciadora de méis, e nem costumo provar outros para comparar.

Não gosto de pôr mel no leite, nem no chá, nem no pão, e muito menos de o comer à colherada. Só gosto de o espalhar sobre as famosas filhoses beirãs, tendidas no joelho, à lareira, nas noites de invernia. Tentação mais doce não há. E quanto mais não seja, só por isso, vivam as abelhas.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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