“Arte urbana, miradouros, rotundas, jardins empedrados…”, por Carlos Alves

Foto: R. Escada

A divergência entre a maneira de encarar a arte de um artista e a de um homem do povo sempre foi um fenómeno comum no que a pontos de vista diz respeito. Esta ideia não sendo nova merece contributos, habitualmente opostos, que nos transportem para a didática dos problemas. As épocas que vivemos, quer sejam de estabilidade ou instabilidade, refletem bem as inquietações sociais que muitas vezes se repercutem na diminuição ou aumento das distâncias na interpretação das ideias. A arte não pode ser incompreensível nem pode estar afastada da participação popular. Não vejo razões para que assim seja.

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Partindo de rumos opostos e de entrecruzamentos de tendências e contradições, a arte não pode terminar naquilo a que chamamos a crítica filosófica contra a subjetividade e a consequência para a compreensão do humanismo. Estas filosofias da subjetividade apoiavam-se na ideia quase axiomática do progresso. Esse tempo, essas encarnações das compreensões modificaram-se. E bem! Hoje já temos povo com lógica própria, com alma, com impulsos, com paixões. Um povo que não oculta o seu pensamento. É preciso viver e sentir o ambiente, acompanhar a sua existência, interpretar as suas revoltas recônditas. É preciso participar, permanecer dentro de nós, para podermos falar de arte sem corar de vergonha. Devemos conhecer o mundo para nos podermos incluir nele. Devemos tocar nessa densa e incógnita figura envolta em mantos misteriosos, combinando estilos mágicos, muito nossos! Povo do fado, da saudade. Povo que preza a limpidez de consciência.

Tanto mal que têm feito por esses recantos sublimes e grandiosos que apenas esperam não chorar as lágrimas dos silêncios preenchidos. Todos os lugares merecem a nossa admiração, eles harmonizam o nosso estado de alma, fecundam o nosso espírito prático e humano, tornam-nos conquistadores da moral da existência. A culpa é nossa porque não temos imaginação? Não creio que assim seja. O que é terrivelmente difícil é analisar e perceber quem é o homem do leme. O intelectual? O artista? O impostor? Não nos podemos esquecer que o direito ao erro só pode ser reconhecido se for acompanhado pelo respeito da objeção baseada e da boa-fé na discussão.

Aos poucos, como quem bate levemente, a ilusão perversa dos políticos, de que são chamados a governar o mundo e não a esclarecê-lo, a dominar, até mesmo a impor um tipo de sociedade, vai-se esfumando. Do lado povo a resposta aos argumentos dos seus decisores é a resposta com outros argumentos, em vez de silêncio forçado. Não podemos inverter o sentido da cidadania e entrarmos na leviandade do hipercriticismo contumaz e destrutivo. Sempre atentos, admirando a arte, mas salvaguardando os lugares para os competentes. Quem sofre é o País. Somos nós que ficamos amargurados, dececionados.

Dói que maltratem o nosso recanto, que o ataquem, que o exponham à boa vontade dos curiosos.

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Deixemo-nos de ser D. Quixotes.

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