“António Valdemar, Uma Enciclopédia Itinerante”, por Adelino Correia-Pires

O jornalista António Valdemar teve uma rubrica na RTP onde partilhava histórias sobre a História, uma vez por semana. Foto: Arquivo RTP

Quando soube da notícia*, que me desculpem os outros, avultou o Amigo. Estou a vê-lo entrar pela porta da livraria e a saudar-me com afecto, do alto da sua imponente figura: “meu querido amigo!”

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António Valdemar, entra, senta-se no sofá do alfarrabista e fala como respira. Como se fosse ele o cicerone de toda a história do passado século em Portugal. Conhece os acontecimentos e os protagonistas. Quem foi e quem poderia ter sido. O que aconteceu e o que esteve para acontecer. Com paixão, com detalhe, com pormenor.

Como sobre ele escreveu Mário Soares, de quem foi aluno, velho amigo e confidente, “…António Valdemar é um erudito, um homem de vastíssima cultura, conhecedor como poucos da história contemporânea portuguesa e das suas principais personalidades literárias, políticas, científicas, artísticas e universitárias…”

Poderia falar-vos da sua notável biografia. Que possui a carteira profissional número 1, emitida pela Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas. Que é sócio de várias Academias, tendo sido Presidente da Academia Nacional de Belas Artes. 
Poderia falar-vos do seu amor pela República, pelos Açores, pelos Jornais, pelas Artes ou pela Cultura. 
Poderia falar-vos também da sua vasta bibliografia, de Almada Negreiros com quem conviveu e escreveu, de Vitorino Nemésio de quem foi amigo e biógrafo ou de Aquilino e das histórias que não vêm nos livros. 
Poderia até contar-vos coisas que sei que um dia vos serão contadas por ele, quando resolver publicar as suas memórias, algo que figurará como um verdadeiro património da nossa história contemporânea.

Poderia falar-vos de tudo isso, mas falo-vos “apenas” do privilégio de o ter sentado aqui, no sofá do alfarrabista, sempre que lhe apetece, desfiando histórias, avivando memórias. Tantas, que nenhuma enciclopédia algum dia poderia albergar.

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E falo-vos de alguém que, quando hoje lhe telefonei a felicitá-lo, me confidenciou: “sabe, Adelino, emocionei-me. São os 82 anos e uma vida a homenagear os outros. Desta vez tocou-me a mim…”

Justo, mais que justo, meu Amigo.

*(António Valdemar foi ontem distinguido com o título de Sócio-Honorário da Associação Portuguesa de Escritores. Foram também galardoados Álvaro Siza Viera, Eduardo Lourenço, José-Augusto França, Carlos do Carmo e Rui Mendes.)

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