Alvega | A velha e rural Aritium que continua a semear incertezas nos historiadores

A planície de Alvega ao fundo, vista de Ortiga no outro lado do Tejo. créditos: mediotejo.net

Ao longo de décadas de investigação histórico-arqueológica sobre o período em que Portugal foi dominado pelos romanos, os historiadores continuam a questionar ou duvidam do que outros escreveram ou até dos seus próprios entendimentos. Certo é que, na confluência da ribeira da Lampreia com o rio Tejo, em Alvega, encontrou-se no século XVII uma placa de bronze que tinha gravado um juramento de fidelidade dos Aritienses ao imperador Calígula, feito em 37 d.C., no oppidum de Aritium Vetus. Acredita-se que algures na freguesia de Alvega existiu uma cidade romana, chamada Aritium Vetus. A sua exata localização levanta, até hoje, incertezas. O nosso jornal foi conversar com o historiador Candeias Silva e tentar perceber a origem do topónimo.

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Na outra margem do Tejo, defronte da planície de Alvega, em Abrantes, os testemunhos da presença humana desde o Paleolítico, eram conhecidos desde há muito. Joaquim Candeias Silva e Álvaro Batista dão conta disso mesmo na Carta Arqueológica de Abrantes.

“Eram as indústrias quartzíticas dos terraços fluviais da Ortiga; era a anta da Foz do Rio Frio; era o povoado lusitano-romano do Vale do Junco, com seu importante balneário, sua necrópole, sua zona oficinal ligada à metalurgia do ferro, e muitos outros materiais arqueológicos”.

De Alvega diz-se que fora outrora uma cidade da Lusitânia, por cuja passava a via militar romana que ia de Lisboa para Mérida. “Provavelmente um oppidum pré-romano e uma cidade romana – Aritium Vetus – com eventuais prolongamentos nas duas margens taganas” pode ler-se no documento.

Relativamente ao Paleolítico, o levantamento histórico do outro lado do rio, de todo o concelho de Mação, nos anos 1970 foi um “trabalho da arqueóloga Maria Amélia Horta Pereira” refere ao mediotejo.net o historiador Joaquim Candeias Silva, um dos responsáveis pela Carta Arqueológica de Abrantes, dando conta de um levantamento documental de Alvega que iniciou por volta de 1986, uma vez que sobre a possível localização de Aritium Vetos “as provas concretas escasseavam, porque eram mais as notícias dos achados-perdidos do que dos testemunhos inequívocos, à vista, e logo acima de qualquer suspeita” justifica a Carta.

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Em finais de janeiro de 2001, por ocasião das Obras de Reabilitação da Rede de Rega de Alvega, da responsabilidade da Associação de Regantes dos Campos de Alvega, avançou-se para as sondagens arqueológicas.

“Dessa vigilância resultou a necessidade de intervencionar uma pequena área onde a vala feita pelas máquinas revelou vestígios datáveis do período romano” explica Candeias Silva. A Carta Arqueológica de Abrantes refere várias estações romanas inventariadas até e após 1995.

Alvega, concelho de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Alvega terá sido então ocupada pelos romanos, tendo chegado até aos dias de hoje alguns arruamentos, sepulturas, alicerces de casas, galerias subterrâneas, troços de calçada militar e restos de um possível aqueduto, mas nada de grandioso que eliminasse as dúvidas sobre a localização da cidade romana.

Aritium, Arique, Eurice, Aricio um topónimo pré-romano mas será Alvega nome árabe? “Há quem afirme ser tal palavra descendente de veiga, ou lezíria, planície cultivada e fértil, mas outras opiniões se podem deduzir sem criar o risco de contrassenso” escreveu Manuel Lourenço Vitória na obra ‘O Homem de Arício’.

“Encontra-se muitas terminações ‘ega’ em nomes de povoações, com o significado de ‘ego’ verbo intransitivo latino, na aceção de ‘ficar situado’. E como ‘arveum’ significa margem, litoral, costa, traduzindo à letra Alvega pode querer significar situada à beira do rio. Podemos, outrossim, procurar na atividade agrícola e fluvial a solução do enigma e mais ainda na ideia de água do que nos instrumentos agrícolas” uma vez que água é igual a ega.

“Assim é possível que Alvega assinale um vau. Ora acontece que o sítio em que se passa um rio, chama-se em árabe al-megta, donde o português, almegue. E não sendo impossível passar de almegue a Alvega, dentro das leis da linguagem” explica o autor do estudo.

O historiador Joaquim Candeias Silva. Créditos: mediotejo.net

O topónimo pode ainda provir de origem agrícola, podendo admitir-se várias influências analógicas, ou até cruzamentos de palavras como belga, aiveca, etc, ou finalmente filiar-se na atividade fluvial, nomeadamente na indústria de barcos que porventura existisse no tempo dos romanos.

“Alveus significa barco e a terminação ega, pode derivar de ago que quer dizer conduzir, arrastar, afundar, ocupar-se, preparar, e alveia que é um tipo especial de barco parece uma forma dirigente de Alvega” escreve também Manuel Vitória.

Ora, além dos romanos e dos árabes a história de Alvega está envolta ainda em lendas. Conta-se, por exemplo, que a Buraca da Moura (fenda profunda que existe junto à EN 118) era o local onde estava escondida uma bela Moura, que saía de noite para cantar os seus tristes lamentos. Também se relata que nesse local foi extraído ouro pelos romanos e pelos árabes e que esse túnel servia para transportar água para fazer mover moinhos de rega, de uma aldeia essencialmente rural.

Segundo a notícia dada pelo dicionário geográfico em 1747 que lhe confere foros de freguesia, era “São Pedro (orago da igreja) a única freguesia de Alvega com ao todo 168 fogos” referindo também que ali perto existe outro lugar, Santo António que possui capela e que antigamente fora paróquia e ainda outra capela, Senhora da Piedade, em Casa Branca.

Alvega é uma freguesia de cariz rural, onde é possível contemplar belas casas senhoriais, templos, como a Igreja Matriz de S. Pedro edificada no século XVIII, constituída apenas por uma nave. Esta Igreja alberga no seu interior uma tela do mesmo século da sua edificação com a representação da Nossa Senhora da Glória, uma estante missal em talha que possui um brasão da Ordem de S. Domingos; ou capelas como a da Sr.ª da Guia, fundada em 1626, numa propriedade particular. É um templo de forma circular com cobertura copulada. A porta exterior é encimada pelo brasão da família.

Igreja de São Pedro em Alvega. Créditos: CMA

Efetivamente é um lugar com história! “Por Alvega passaram caçadores-recolectores do Paleolítico; ali se instalaram pessoas há milénios, antes e depois de haver escrita; por estes sítios poderá ter existido a Arition de Ptolomeu ou o Oppidum Aritiensis ainda antes de os romanos chegarem, acrescentando-lhe estes o qualificativo Vetus (velho), não só por respeito pela anterioridade como para o não confundirem com outro Aritium, que entretanto fundaram e designaram de Praetorium. Algures se terá feito um famoso juramento de fidelidade a um imperador romano (Calígula), como se não conhece outro igual em todo o mundo”, confirma a Carta Arqueológica de Abrantes.

Por Alvega passaria uma via imperial, pondo em ligação Mérida e Lisboa, ou seja, a antiga capital da Lusitânia com a atual capital lusíada. Ali houve lugar “a uma grande vitória do homem sobre a natureza, mudando lentamente o curso de um grande rio como o Tejo”. E por vários sítios da planície se encontraram vestígios cerâmicos dos tempos da domínio romano, desde a ribeira da Represa à do Fernando, com continuidade na chamada Lezíria e na outra margem do Tejo, designadamente no Vale de Junco, por onde se prolongaria a povoação ou se localizaria uma villa de certa importância.

É certo que “não são muitas nem grandiosas as estações, e os espólios continuam a saber a pouco, mas bastará a identificação que a comunidade científica e arqueológica tem vindo a admitir entre Aritium Vetus e Alvega para que a importância desta se releve” explica Candeias Silva. E se Aritium tinha a qualidade de civitas “seria enorme a sua área de jurisdição como cabeça de município”, garante.

Foto da Carta Arqueológica de Abrantes. Pormenor de uma sepultura.

Mas, afinal onde se localizaria Aritium Vetus? Uma cidade havia de deixar alguns vestígios duradouros, como em Conímbriga ou Santarém ou Tomar. O nome de Aritium Vetus não implica necessariamente a existência de uma povoação Aritium Novum. Talvez o outro povoado que justificou a atribuição do nome Vetus à cidade de Alvega tenha sido Aritium Praetorium, mencionado no Itinerário de Antonino.

“Aritium Vetos começou por ser localizada para os lados de Benavente, quando Jorge Cardoso descobre a placa concluiu-se que deveria ser mais a norte” no território que é hoje o concelho de Abrantes, explica Candeias Silva, acrescentando que segundo os estudos de Jorge de Alarcão “será na zona do Casal da Várzea”.

Reza a tradição “que se centraria nas proximidades da Casa Branca, abrangendo a atual Quinta de S. João e o Casal da Várzea, mas com prolongamentos vários. O mais importante indício documental da sua localização aqui é, sem dúvida, uma placa de bronze encontrada por meados do século XVII, ali a dois passos, na ribeira da Lampreia, perto da sua confluência com o Tejo. Estava datada de 37 d. C. e continha um interessantíssimo juramento dos Aricienses ao imperador romano Calígula” da qual se propôs a identificação da cidade velha de Arício com a atual Alvega, dá também conta a Carta Arqueológica de Abrantes.

Foto da Carta Arqueológica de Abrantes. Pormenor de uma habitação.

Ou seja, “em 1659 foi encontrada nas areias da ribeira da Lampreia, na freguesia de Alvega, uma placa quadrada retangular de bronze contendo um texto de que até ao momento não se conhecem paralelo em toda a Europa ocidental” assegura Joaquim Candeias Silva.

Lamentavelmente a placa sumiu-se decerto com o terramoto de 1755, mas dela ficaram duas cópias, uma tomada por Jorge Cardoso (pároco de Abrantes e historiador português 1606-1669) – que a teve em seu poder – e outra dada por um viajante francês que a leu em casa de Cardoso e acabou por levar a placa para Lisboa.

“Apresentava campo epigráfico moldurado, dois palmos e meio de comprimento e mais de um palmo de altura, com um orifício em cada canto – sinal de ter estado pregada nalgum sítio público. O texto, bastante extenso, em latim clássico, oferecia algumas letras já gastas em parte, mas inteligíveis no seu conjunto” lê-se no ‘Catálogo da Epigrafia Romana de Abrantes’ da autoria de José D’Encarnação e de Joaquim Candeias Silva.

Tradução da placa romana encontrada junto à Lampreia, em Alvega, no ano de 1659.

E, seguindo Hübner, é esta a tradução do latim para o português:
“Sendo Caio Umídio Quadrato legado Pro-pretor do Imperador Caio César Germânico (Calígula), foi prestado o seguinte juramento dos Aricienses: Juro em minha consciência que eu serei inimigo daqueles que eu souber que o são de Caio César Germânico: e, se porventura alguma pessoa o põe ou puser em perigo a ele ou ao seu bem-estar, não desistirei de a perseguir, na terra e no mar, em guerra de morte, até que cumpra integralmente o castigo; nem estimarei mais os meus filhos do que à vida dele; e considerarei inimigos meus os que o hostilizarem. Se conscientemente, eu falto ou faltar ao juramento, então Júpiter Óptimo Máximo e o divino Augusto e todo os deuses imortais me privem da pátria, da segurança pessoal e de toda a boa sorte, a mim e a meus filhos. Feito no dia 11 de maio, na cidade velha de Arício sendo cônsules Gneo Acerrónio Próculo e Caio Petrónio Pôncio Nigrino”.

Segundo Candeias Silva “trata-se efetivamente de um documento com um valor histórico e hierológico excecional, por ser único no género no território hoje português e apenas com paralelo aproximado em algumas cidades gregas. A primeira inscrição que se conhece na Península Ibérica com a obrigação de adorar o Júpiter Óptimo Máximo é esta. É daqui que vem o Aritium Vetos, quando o Calígula governava. Vetus porque era pré-romana e porque havia de facto outro Aritium, o Praetorium” afirma.

Acampamento militar romano ou mesmo um acampamento ocupado por legião, que Costa Veiga supôs que deveria situar-se no lugar de Água Branca em Bemposta, igualmente no concelho de Abrantes.

Mapa com os três caminhos para Mérida da obra ‘As vias romanas de Olisipo a Augusta Emerita’ de Jorge de Alarcão

Nessa altura Aritium mantinha o estatuto de oppidum, governado por dois magistri, Vegeto, filho de Táltico, e Víbio; mas, provavelmente e por via desse juramento, estaria em vias de ser ou, como admitiu o professor Alarcão, “era já então”, capital de civitas. Segundo o mesmo autor, após a municipalização o termo oppidum deve ter caído em desuso, passando a ser substituído pelos de municipium ou civitas.

Naturalmente que é de presumir que a cidade deveria ter atraído para si e para a área circundante bastante gente. Viriam letrados, urbanistas, empreiteiros, agrimensores, mão de obra especializada e, obviamente, muitos escravos. Porém, da sua evolução, extensão, perímetro, características internas (arruamentos, edifícios públicos ou privados, atividades predominantes, ligações ao sistema viário, zona de banhos públicos, do fórum, de tabernae ou insula) nada foi encontrado nas escavações descritas na Carta Arqueológica de Abrantes.

Situações que os historiadores estranham quando comparam com os encómios e os cômputos populacionais, relativos aos tempos do domínio romano, fornecidos por Jorge Cardoso e pelo pároco de 1758, os quais são consideram “manifestamente exagerados”. Quatro e cinco mil vizinhos representariam uma população intra-muros de cerca de 15 a 20 mil almas. “Não nos parece que Alvega-Aritium Vetus fosse oppidum ou civitas para tanta gente”, dizem Joaquim Candeias Silva e Álvaro Batista.

Capela da Nossa Senhora da Guia, Alvega. Créditos: CMA

No entanto, e apesar das dúvidas persistirem, a tradição favorável a Alvega/Casa Branca é forte, a sua posição geoestratégica é boa e acima de tudo ficou o importante testemunho e eventual “certidão” conferida pela placa do “Juramento de Fidelidade”.

Quanto a Tubucci, atribuída à cidade de Abrantes, Alarcão diz que tal identificação “não tem fundamento” no estudo ‘As vias romanas de Olisipo a Augusta Emerita’. Afirmação que envolve também a questão de Aritium Vetos.

“Um texto antigo romano do século III d.C. diz que eram três as vias para chegar de Lisboa a Mérida, capital da Lusitânia. E nenhuma delas passa a Tubucci, Abrantes. Há obras em que Alarcão a localiza no Casal de Carvalhal, já a localizou na margem sul de Constância… não fazia sentido ir a norte para Mérida. Localiza Tubucci na zona de Coruche. Abrantes como era uma vila importante pensou-se, desde o século XVI, que teria de ter uma cidade romana. Abrantes pela sua extraordinária localização deveria ser um ponto importante, já o era no principio da monarquia. Se Tubucci não for Abrantes então poderá ser Aritium Vetos e ir até Alvega, onde terminava o limite e começava outro território”, equaciona Candeias Silva.

O ‘Marcão’ romano em Monte Galego, Alvega. Créditos: mediotejo.net

Em Alvega, existem ainda umas “Alagoas”, que noutro tempo serviram de piscinas e pesqueiras. Há documentação a garantir que nos princípios do século XVI para ali iam pescar certos abrantinos e se iam desenfadar fidalgos, prelados e até os príncipes, filhos do rei D. Manuel.

Ainda romano, no Monte Galego e Casal Ventoso podemos encontrar o conhecido “marcão” à beira do caminho, a que o escritor Mário Saa se referiu em 1959, mas sem qualquer inscrição e até caiado de branco.

Ao longo das vias, os romanos deixavam marcas para indicar as distâncias em milhas desde o ponto de partida até ao tal lugar. Nesses marcos miliários, estava inscrito além do numerário das milhas, o nome do imperador, dos magistrados locais sob cuja administração foi feita a estrada e o nome da região.

De acordo com Jorge de Alarcão “a raridade dos miliários com indicação das milhas, as incertezas quanto às suas posições originárias exatas e as divergências dos diversos manuscritos do Itinerário de Antonino quanto às distâncias entre certas estações viárias dificultam a reconstituição dos percursos e a identificação dos lugares por onde as vias corriam”. O de Monte Galego continua lá.

Pegões de Alvega, concelho de Abrantes.

Quanto aos Pegões, estão situados junto à estação elevatória do sistema de rega, no Casal da Várzea, para alguns historiadores, com ligações à ponte da Lampreia, com nome referente à época romana, no entanto, a data da sua construção remonta à época de ocupação Filipina (1580-1640).

Ora no velho leito do Tejo, porque o rio foi desviado por mãos humanas dando-lhe outro trajeto, “a começar da margem esquerda, junto à atual estação elevatória da Hidráulica Agrícola e ao fundo do monte onde existiu o castro lusitano, veem-se quatro pegões quase intactos, 15 derruídos e contando-se à distância do primeiro até à cepa do último observável, já na falada lezíria, pode contar-se por cerca de 42 o número total. Tais pilares têm a forma de pirâmides pentagonais com vértice e inclinação para montante e são denominados paredões na linguagem popular” refere Manuel Vitória.

Jorge Cardoso afirmava que “serviam de suporte a um cano ou calha que, da ribeira de Eiras, na margem direita do Tejo, trazia água para abastecer a cidade de Aritium”. Por seu lado, Manuel Vitória defendia que os romanos tapavam o Tejo. “Os romanos estacavam ali o Tejo para irrigarem, os nateiros à borda do rio e a falada lezíria que, deste modo, não precisava de água de outra origem”.

Já Francisco de Holanda se referia a uma ponte sobre o Tejo, a montante de Abrantes. Escrevendo em 1571, disse este autor: “Fizeram [os romanos] outra ponte magnífica, acima d’Abrantes, onde estão os pegões e montes de pedra, e esta quisera reedificar o Infante Dom Fernando, que Deus tem, segundo disse a meu pai António d’Olanda, também que Deus tem”.

A ponte a que alude Francisco de Holanda foi durante muito tempo identificada com os pegões do Rossio a Sul do Tejo; estes, porém, correspondem ao cais de uma ponte de barcas do século XIX, garante o historiador Jorge de Alarcão.

“Devemos observar que o facto do rio atualmente descrever uma curva, como a fugir do referido dique, se deve, única e exclusivamente, à razão de tal existência, pois que represando ali o Tejo, se elevava o nível ocasionando escoamento pelo lado da margem direita que era mais baixo. Em anos continuados acabou o rio por cortar terreno e passar-se para aquele lado, embora se veja nitidamente que o caminho do rio está mudado. Acontece que e, altura de cheia o rio, correndo direito, procura a antiga cama tornando-se direito e mais formoso. Obras recentes têm procurado empurrar definitivamente o rio para o novo leito e, no sítio a que se chama Tejo velho, mesmo até junto aos pilares históricos, são permanentes as obras de restauro de diques vives (marachas), ou inclusivamente diques de alvenaria sobre estacas (enroucamento) que todo o Tejo, maneiras assoberbado, arranca como se transportasse miriades de alviões para seguir o seu caminha natural”, escreveu ainda Manuel Vitória em ‘O Homem de Arício’, o contributo para o estudo de uma região em 1952.

A curva do rio Tejo entre Ortiga e Alvega, junto ao Monte da Várzea. Créditos: mediotejo.net

Durante a nossa conversa, Candeias Silva lembrou-nos que também o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, está ligado à história de Alvega. Muito por causa de Francisco José Caldeira Soares Galhardo de Mendanha, morgado de Arício, residente em Alvega, que foi o primeiro a pôr libelo contra o Marquês “com o pretexto de que este o coagira a comprar-lhe uma quinta em Vila Velha de Rodão por um preço exorbitante” recorda Manuel Lourenço Vitória na sua obra.

Por outro lado, “afirma o Marquês ao contarem-lhe os primórdios da questão levantada, que o argumento era ridículo e cheio de má fé que aquele individuo era um pusilânime de que se serviam os seus inimigos para o molestarem e, ele próprio, se estava vingando da deportação que sofrera por haver violado a honra das próprias filhas” acrescenta. Tratou-se de “um processo enormíssimo” vinca Candeias Silva.

O Solar de Alvega, do Conde Mendanhas. hoje um alojamento de turismo. Créditos: CMA

O Solar de Alvega e a capela foram construídos no século XVIII pelo Conde Caldeira de Mendanha, amigo e rival do Marquês de Pombal. Trata-se então do palácio senhorial mandado construir no século XVII pelo Conde Caldeira de Mendanha para servir de solar à família. Os Mendanha eram bastante influentes na zona de Abrantes, e o Conde Caldeira teria sido mesmo amigo e rival do Marquês de Pombal. Da construção antiga encontra-se ainda intacto o portão de granito em estilo barroco onde se integra um escudo com as armas dos Mendanhas, Caldeiras, Almeidas e, possivelmente, dos Lobatos. Hoje em dia foi reaproveitada para Turismo de habitação.

Em Alvega há também a bela Quinta de Pombal encravada no antigo morgadio que confina a Norte com o rio Tejo e a Sul com a Estrada Nacional 118, e é murada em toda a volta exceto do lado do rio e da foz da ribeira do Fernando.

Um caso com acusações gravíssimas – abuso de poder e roubo, corrupção e fraudes – que viria a ter largas consequências desde ali até à revisão do processo dos Távoras.

Recorde-se que a 26 de setembro de 1779, a rainha D. Maria I ordenava que fossem apurados os excessos e abusos de poder atribuídos a Pombal. Foi então criada uma junta de desembargadores para adestrar o processo.

No seu decurso, o Marquês de Pombal, com 80 anos, foi submetido a um longo interrogatório, que se prolongou por quatro meses. Segundo consta, o Marquês sofreu bastante, tanto pela sua idade avançada como pela doença hepática que o atingia. Séculos depois, a Quinta de Pombal, embora encerrada ao público, permanece na posse da família Melo.

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