Alvega | A grande onda de calor que veio afrontar o negócio do rebolão

Quem costuma passar em Alvega, seguindo a Estrada Nacional 118, não estranhará a presença de alguns vendedores à beira da estrada. Prática que era comum entre os produtores, numa freguesia essencialmente dedicada à agricultura. Ali, nas courelas que vão dar ao Tejo, há quem ainda resista às adversidades, continuando a sua venda própria. É o caso de Armandina e Armando, que todos os verões ali costumam vender afamadas melancias, pêssegos e outros produtos hortícolas. Mas este ano, o calor atípico que registou em Alvega os valores mais altos do país, até agora, chegando a atingir os 46 graus, veio estragar as culturas e prejudicar a produção.

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Entre as 9h00 e as 21h00 é possível encontrar por ali Armandina, resguardada na sua barraquinha, ali pertinho da estação meteorológica dos “Ventos”, pronta a atender os clientes que param os carros à beira da estrada.

De chapéu de palha na cabeça, levanta-se com dificuldade e trata das aferições na balança antiga, processo que ajuda a definir o preço por quilo. Esperámos que atendesse o cliente, e logo pusemos conversa sobre a sua banca. O marido, de trator estacionado ali ao lado, estava sentado mais atrás, de boina típica na cabeça.

Conta-nos Armandina que está ligada desde a infância, já do tempo dos avós, à terra e ali aprendeu tudo o que sabe. O mesmo acontece com o marido, que além de ter herdado terras do pai, herdou da sua patroa, que deixou terras e bens aos seus criados aquando do seu falecimento.

Ali, à beira da estrada, já venderam os pais de Armandina, que compraram aquele terreno, “não havia barracas nem nada, eram só em cima de uma caixinha de madeira”. Agora vende o casal de 76 anos, residente na aldeia ali ao lado, Monte-Galego, e ali passa maior parte dos dias, exceto quando tem de dedicar-se à rega nas courelas e à colheita da fruta.

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Recorda que antes havia quem estivesse o ano todo a vender, mas o casal só passa ali “três meses” e o que mais se vende são melancias e pêssegos. Houve ainda uma altura que ponderaram vender azeite, mas chegou-lhes o prejuízo da única vez que ali o tiveram para venda e que o roubaram, algo que parece ser costume até com as melancias.

“Ainda ontem duas mulheres me roubaram duas melancias. E ainda há pouco tempo parou outro homem, viu que tinha feijão verde, pêssegos, batatas, e disse logo que queria de tudo. E eu a pensar, ainda hoje não vendi nada, e ele a querer tudo… Foi tudo. Ao fim, começou a carregar tudo, quando vamos para fazer contas, vai ao carro, dá à chave… e nem o porta-bagagem fechou”, lamentou. Ainda assim, garante que o facto de não haver ninguém como antes não mete medo. O que mete medo “é aparecer gente”.

A isso se junta o peso da idade, e os problemas de saúde que advêm do duro trabalho no campo, nomeadamente o carregar e descarregar as melancias, todos os dias, do campo para a caixa do trator, e por sua vez para a banca, e da banca todos os dias os produtos não vendidos regressam a casa. Ultimamente, queixam-se, a venda não tem sido boa.

Os clientes “calham a passar”, ou vão a caminho de Portalegre, ou vêm das Mouriscas. Os da freguesia já não procuram como antes.

“Estamos aqui porque a gente paga quase 600 contos de água e temos as terras, não as queremos abandonar. E também para ajudar a neta, e para os estudos dela”, disse Armandina.

Muito depressa Armando atira que o calor “veio estragar tudo, queimou tudo”. Nenhum dos dois se lembra de alguma vez ter estado tanto calor na terra. Talvez no tempo dos avós acontecesse, mas não têm na memória um ano com temperaturas tão altas.

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“As melancias ficam todas branquinhas do sol. A gente nem as apanha. E os pêssegos e as ameixas também estavam cozidos. Já viram o que é estar a apanhar um pêssego, e estarem ao mesmo tempo a caír dois ou três para o chão?”, relatam.

Este ano de extremos veio estragar-lhes o “negócio do rebolão”, como se costuma chamar na terra, algo que chegou a dar lucro antes da crise se instalar. Agora “é só miséria”, diz Armando, lembrando que “havia muita gente a trabalhar ao campo, tantas mulheres, e dava para pagar. Agora não se vê ninguém”, afirmou, contando logo Armandina cerca de cinco pessoas a cultivar naquela zona. De resto, “está tudo abandonado”.

“Quem é que quer trabalho? E isto não dá nada. Corta-se a erva, ao fim de 15 dias está na mesma”, indica Armando, referindo que as mudanças climáticas também estão a interferir com as plantações, com a inconstância do tempo, que ora traz chuva forte e frio, ora traz calor abrasador e seco.

Na altura dos seus pais, Armandina lembra que o pai levava uma carrada de melancias até Alvega e ali vendia tudo. Agora, “estamos não sei quanto tempo para vender uma carrada”, que não consegue já precisar quantas melancias são no total, porque já não as contam. É até caberem na banca, a rondar as 20 ou 30, umas maiores e pesadas, que é como o povo mais gosta, e outras mais pequenas.

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Armando esperava que o mês de agosto viesse ajudar a impulsionar a venda, dando um pouco mais de poder de compra, mas tem a perceção “de que ainda foi pior”. A esposa assume que chega a haver gente que compra fiado, porque assim o permite, e porque as pessoas “não têm dinheiro para a pagar”.

Para o casal de produtores “não há nada como ter um emprego. Porque sermos patrões de nós mesmos, não presta”, lembrando todas as obrigações fiscais que têm, além do horário sobrecarregado, com as tarefas a dividir pelos dois até ao recolher e que já não deixam restar vontade para mais nada.

“A gente chega a casa e já não apetece fazer nada. Até a lavar a loiça já custa… mas ele também não a lava”, ri-se Armandina, e logo o marido admite que sim e “vá de ralhar por causa da loiça”.

Mas e deixarem-se desta vida? A determinação ilumina o rosto de Armandina, com aquele vício danado de quem quer cultivar e tratar das terras, com ar de quem tem a força e o psicológico necessários para continuar. “Só quando a gente já não puder mesmo”, diz, até que se lembra das dores no corpo. “Eu já não posso. E ele também não”.

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