“Alterações Climáticas, Água e o nosso Tejo”, por Patrícia Fonseca

Durante o ano 2017, uma grave seca afectou todo o território nacional, com as consequências trágicas que conhecemos no caso dos incêndios e com impactos económicos elevadíssimos na agricultura e na pecuária.

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No final de outubro de 2017, 100% do território continental estava em situação de seca, severa e extrema (os dois casos mais graves).

Faltou água, em outubro, onde era impensável que acontecesse: Viseu! E o Governo montou uma anedótica operação de transporte de água, não tratada, entre barragens. Com custos elevadíssimos, económicos e ambientais e onde grande parte da água se evaporou…

Esta situação fez, na altura, soar muitas campainhas, que depressa se calaram ao som das primeiras chuvas. Nunca mais ninguém falou em seca. O nosso Tejo começou a correr com mais caudal, os episódios de poluição pareceram abrandar e nunca mais ninguém se lembrou de reclamar mais água da nossa vizinha Espanha.

Tudo parecia estar bem até agora. Chegados ao fim de dezembro, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) veio divulgar que temos 53.3 % do país na classe de seca fraca. Para além da falta de chuva, dezembro foi um mês com temperaturas acima da média – o 3º mais alto desde 1931. E há 8 anos consecutivos que em dezembro chove abaixo da média. Não nos devia dar que pensar?

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A bacia hidrográfica do Tejo é, das 3 internacionais, a que mais problemas tem com a regularização de caudais. A nossa posição geográfica obriga-nos a negociar com Espanha a gestão dos recursos hídricos dos nossos principais rios. Mas Espanha fez a sua parte do trabalho ao longo dos anos, construiu barragens e consegue hoje reter 100% da água que cai do seu lado da bacia.

Na parte Portuguesa há manifestamente falta de capacidade de regularização de caudais. Estamos dependentes da nossa vizinha Espanha porque Portugal não fez a sua parte! Não construímos uma reserva de água digna desse nome à entrada do Tejo em Portugal! Como podemos agora vir reclamar de Espanha a água que eles retêm e que nós não temos capacidade para reter porque não temos barragens??

As alterações climáticas, que são uma realidade, terão um impacto muito significativo em Portugal (todos os estudos apontam para isso) com a maior frequência de ocorrência de fenómenos extremos como inundações e períodos de seca. É por isso preciso apostar na acumulação dos caudais de inverno para utilização na época seca, seja na agricultura, na indústria ou no abastecimento à população (sempre prioritário).

Num momento em que se discute o próximo quadro financeiro plurianual, é lamentável que o Governo ignore por completo este assunto e deixe passar mais esta oportunidade para que Portugal se torne mais resiliente em matéria de água e alterações climáticas.

Não pensemos que só acontece aos outros, porque quando o dia chegar, já não teremos tempo!

Tem 44 anos e foi eleita deputada à Assembleia da República pelo CDS-PP pelo círculo eleitoral de Santarém, cidade onde reside. Integra a Comissão de Agricultura e Mar, da qual é coordenadora, a Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação e é ainda suplente na Comissão de Saúde. Engenheira Agrónoma de profissão, iniciou a sua carreira profissional na Agroges - Sociedade de Estudos e Projectos, foi Secretária Geral da Associação dos Agricultores do Ribatejo, docente convidada na Escola Superior Agrária de Santarém nas áreas de economia agrícola e adjunta do Gabinete de Assunção Cristas quando era Ministra da Agricultura e Mar. A vida política surgiu naturalmente pelo seu percurso profissional nos domínios da política agrícola nacional e comunitária aliado ao valor que o CDS sempre deu à agricultura e à importância deste sector da economia na nossa região.
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