“Alegoria da verdade”, por Vasco Damas

Foto: Rodrigues Antunes/Lusa

“É melhor estar aproximadamente certo do que precisamente errado”. A frase não é minha mas retrata na perfeição a antítese dos tempos que vivemos. Perdeu-se a vergonha, o decoro, o respeito e os exemplos que nos vão dando criam as condições perfeitas para que o contágio se continue a propagar.

Qual a diferença entre o racismo búlgaro, uma petição lusa que pretende impedir a tomada de posse de uma deputada democraticamente eleita com base num argumento “impatriota” ou o convite ao genocídio do povo curdo por parte dos norte-americanos?

Não a vislumbro porque me sinto perigosamente preso aos pontos de contacto que em pouco ou nada diferem do mesmo fundamentalismo que cega aqueles que nos acusam de sermos infiéis e sorrio com tristeza perante a incoerência. A moda parece querer agarrar-se à mensagem evangelizadora dos “pastores” que mandam nisto tudo. Daqueles que falam com Deus ou com deuses para justificarem que “precisamente errado” é a alegoria da verdade dos nossos tempos.

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Idolatram-se os mensageiros da mentira e “assassinam-se” os outros, servindo as redes sociais para amplificar “o precisamente errado”, propagando-o a uma velocidade viral que torna inócua a administração de qualquer antibiótico, até porque, lentamente, tem-se vindo a perder o hábito de pensar e isso leva-nos em direção a um embrutecimento coletivo que só pode assustar quem investe tempo na educação para deixar melhores filhos neste mundo.

E assim, com base na engenharia e na cosmética, vamos vivendo numa bolha virtual acreditando que ela é real.

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Talvez nos aproximemos da explicação do estado a que chegámos se soubermos quem é o autor da frase com que iniciei esta crónica. Mas também aceito o seu contrário e admito que esse conhecimento nos atrapalhe o raciocínio lógico e a justificação científica dos factos. Bem vistas as coisas, tenho que ser coerente com o título desta crónica e nem tudo tem que ser aquilo que parece.

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