“Alcunhas de algibeira”, por Berta Silva Lopes

Foto: Pixabay

Feitas as contas, há mais alcunhas do que nomes próprios na minha aldeia, a começar, desde logo, pela própria, que tem duas. Sete juízos ou goucha, se a primeira tem justificação lendária a segunda desconhece-se como nasceu. Mas já lá iremos.

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Podia escrever-se a biografia de um lugar a partir apenas das suas alcunhas, diz o escritor Joel Neto, e é bem verdade. Uma biografia caricaturada, sim, porventura exagerada, mas ímpar e pitoresca, sem dúvida.

Na minha aldeia há uma ministra, um rei e um Manel star, que convivem amigavelmente e sem disputas de poder. Também há uma duca (casada com um Duque), uma quinhentas e uma florzinha, todas mulheres de fibra. Também há um ferro e um marrão, um padre jacôme e um peitaças, gente comum com alcunhas originais.

Há alcunhas que sabemos como nascem e outras há que não se adivinha nem se depreende como surgiram. Se as há incompreensíveis, outras descendem de gerações antigas, de particularidades físicas, qualidades (ou supostos defeitos) morais, profissões (marinhas, pinturas) ou tiques (melguinha) dos batizados.

Algumas atravessaram gerações inteiras alcunhando todas as pessoas da mesma família (baus), outras passaram de pais para filhos (como russo e portes), ou do homem para a mulher e ao contrário, as que evoluíram do apelido (farinha) e as que nasceram simplesmente de um lugar físico próximo (António e João do ribeiro).

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Há quem tenha apenas uma, quem responda a duas e até quem tenha somado diminutivos às alcunhas. Fox, pinto, pintinho: é o J. A.. Nenhuma é apelido, nenhuma foi herdada, nenhuma tem justificação plausível. Neste grupo entram, de resto, a maior parte das alcunhas da minha aldeia: breve, pina, saruga, calaias, baiúca, niris, menês, cambricha, blia, uí, manique, esmurila, sabac, esquim mingas.

(Zoo)logicamente, temos um saguim, um zangão, um gato amarelo, um vaquinha, um gateiras e um lombrigas, alcunhas de infância que não se perderam no tempo. Também há um videira (mais velho) e um videirinha (mais novo), irmãos; um parente, um malagueta e um mercadorias. Se as alcunhas são apanágio das aldeias, no campeonato da minha ganham os homens por larga vantagem.

Está pois feito o levantamento possível dos epítetos atuais da terra dos sete juízos (ou goucha, ninguém leva a mal). Que me desculpem os donos das restantes, o espaço é limitado e ainda falta explicar de onde vem a célebre alcunha que dá aos meus conterrâneos a fama de muito ajuizados.

Reza a lenda que há muitos, muitos anos vivia ali para os lados do Vidigal um discreto casal de mouros. Certa noite, entrando a moura em trabalho em parto, veio o marido pedir ajuda à parteira de Queixoperra.

A mulher desceu a aldeia e meteu-se a caminho da Cova da Moura, trouxe o bebé ao mundo e recebeu do casal uma oferta pelo auxílio prestado, tendo sido advertida para só abrir o bolso do avental – onde a oferta foi depositada – em casa.

Incapaz de conter a curiosidade, a mulher espreitou para dentro do bolso no caminho de regresso e nele viu apenas um punhado de carvão, que, desiludida, deitou fora. Já na aldeia, ao tirar o avental viu cair de dentro do bolso várias pepitas de ouro – e nesse momento percebeu o conselho do mouro.

Voltou então atrás na esperança de recuperar o “carvão” perdido mas no caminho nada encontrou, e regressou à Cova da Moura. O casal de mouros não atendeu o pedido da mulher mas concedeu-lhe então, para que fosse mais atinada, sete juízos. E porquê sete? Ninguém sabe.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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