Alcanena | Uma visita à Couro Azul para compreender os curtumes

visita foi acompanhada pelo CTIC e as 20 vagas ocupadas Foto: mediotejo.net

Na semana da ExpoPele recordamos uma atividade realizada pelo Centro de Ciência Viva do Alviela em maio de 2018 em torno do tema dos curtumes. Um grupo de curiosos teve oportunidade de visitar a Couro Azul e contactar de perto com todo o processo industrial de curtimenta.

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*texto publicado originalmente em maio de 2018 e republicado em abril de 2019

O Centro de Ciência Viva do Alviela organizou no sábado, 12 de maio, a sua primeira oficina de ofícios, dedicada aos curtumes. O tema, que incluía uma visita à fábrica Couro Azul, na Gouxaria, concelho de Alcanena, atraiu duas dezenas de curiosos de toda a região. A sessão deveria ter durado duas horas, mas estendeu-se tarde dentro.

À partida, o aviso: não se podem tirar fotos dentro da fábrica, nem por jornalistas nem pelo restante grupo. Alguns momentos da tarde ficam assim registados apenas à entrada da fábrica Couro Azul, em que se estabelecem as linhas gerais do programa. Primeiro uma contextualização, depois a visita propriamente dita, dividida em dois grupos pela fábrica e pela secção de pintura.

A visita é guiada por um especialista do CTIC – Centro Tecnológico das Indústrias do Couro, Joaquim Gaião, que faz a intervenção inicial sobre a história do couro, desde o tempo das cavernas à atualidade, com as preocupações ambientais a começarem a ditar muitas das opções realizadas pelas fábricas, mas que não resolvem todos os problemas.

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A pele é aqui encarada na sua vertente de subproduto da carne e, por tal, inflaciona no mercado consoante o consumo de bovinos, ovinos, caprinos e suínos. Mas “se não fosse reutilizada, a pele teria um impacto ambiental enorme”, explica Joaquim Gaião, uma vez que teria que ir para uma aterro e ser incinerada.

A curtimenta, adianta, é assim o processo que permite que o couro não apodreça, criando-se o curtume. O ideal seria o matadouro estar ao lado de uma fábrica de curtumes, mas dada a escassez de matadouros em Portugal para a indústria de curtumes existente, as peles chegam de barco, mediante um processo de salgadura. “Os nossos matadouros a trabalharem a 100% só conseguem abastecer 20% da indústria”, exemplifica.

Visita foi orientada pelo especialista do CTIC, Joaquim Gaião Foto: mediotejo.net

Segue-se a explicação de como se realiza a curtimenta, apercebendo-se o público que o couro, não obstante ser um produto natural, é apenas a matéria prima de uma oferta final que é essencialmente o resultado de todo um complexo processo químico. O curtume integra depois uma parte significativa do nosso vestuário, desde os produtos mais simples e baratos aos mais luxuosos e essenciais ao quotidiano.

Joaquim Gaião dá o exemplo das botas de bombeiro, cuja curtimenta a crómio é o único processo que permite atualmente a resistência ao fogo.

O crómio porém, explica, está a ser gradualmente colocado de lado (já não é usado pela fábrica Couro Azul, devido às exigências da indústria automóvel), dadas as questões ambientais envolvidas, porque retira a biodegradabilidade dos produtos finais. Em seu lugar usa-se a curtimenta vegetal, mais sustentável, embora também mais morosa.

Outra questão abordada foi também os sulfuretos, os produtos químicos à base de enxofre usados na fase de depilação da pele (juntamente com a cal) que produzem um cheiro a ovos podres, característico da indústria de curtumes. Face a uma questão do mediotejo.net, Joaquim Gaião explica que os avanços nas biotecnologias têm procurado alternativas ao uso destes químicos em particular, porém estas ainda são demasiado caras, demoradas ou então demasiado difíceis de controlar para que possam ser implementadas com sucesso na indústria.

As grandes quantidades de água usadas em todo o processo também foram alvo de dúvidas, com o público a questionar para onde ia todo o líquido contaminado pelos químicos. Joaquim Gaião recordou então a construção da ETAR de Alcanena, onde se implementou pela primeira vez no país o princípio do poluidor-pagador, a qual, adiantou, sofreu obras de modernização recentemente.

“Uma fábrica de curtumes tem três coletores”, referiu, para onde seguem os diferentes tipos de águas. Quanto mais água com químicos entra na ETAR, mais a fábrica paga.

A fábrica da Couro Azul tem cerca de 300 funcionários e produz sobretudo para a indústria automóvel Foto: mediotejo.net

Por tal, salientou, “o objetivo da indústria de curtumes tem sido reduzir cada vez mais o consumo de água”, procurando-se que ela chegue à ETAR o mais limpa possível. Não obstante os problemas que permanecem de alguma poluição, o especialista sublinhou as imensas alterações que se verificaram nos curtumes nas últimas décadas, referindo que por vezes se culpa a indústria quando quem está a poluir são outro género de fábricas que implementaram entretanto na região.

“O processo de curtimenta pode ser aplicado a qualquer tipo de pele”, explicou, existindo já um nicho que investe em pele de peixe (tubarão, raias, salmão, etc). A Couro Azul está vocacionada para estofos da indústria automóvel (produz 1500 peles por dia), mas a nível nacional 70 a 80% do couro destina-se à indústria de calçado.

As explicações sobre os processos industriais levantaram várias questões, com a oficina a estender-se pela tarde e a oportunidade de ver ao vivo fases da curtimenta e sua pintura. Jorge Torres, chegado de Lisboa, não escondeu o interesse e fez várias perguntas. “Gosto de tecnologia, de ciência e isto tem todos estes aspetos tecnológicos”. Afinal, “nós usamos estes produtos diariamente e não sabemos como são feitos”, constatou ao mediotejo.net

Já Hlda Oliveira, de Santarém, é professora de química e participante recorrente das atividades do Centro de Ciência Viva. A experiência na Couro Azul estimulou-a em termos de conhecimentos e de ideias para futuras visitas de estudo. “É sempre um enriquecimento, aprendi algumas coisas”, confessou.

Para Paula Robalo, diretora do Centro de Ciência Viva do Alviela, a primeira oficina de ofícios foi um sucesso. A ideia surgiu do facto de se celebrar o Ano Europeu do Património Cultural.

“Decidimos captar os ofícios da região e os curtumes são o ofício de Alcanena, capital da pele”, explicou. A presença de pessoas de Lisboa, Castelo Branco, Santarém ou Tomar na visita apenas vem demonstrar, frisou, que há “interesse em conhecer o que se faz no resto do país”.

No decorrer do ano vai ainda realizar-se uma oficina de olaria, na Casa de Olaria de Alvados, de tecelagem, em Serra de Santo António, e de velas, em Monsanto. Todas as visitas são acompanhadas por especialistas na área.

A visita à Couro Azul foi ainda acompanhada por dos técnicos da fábrica, que explicaram junto às máquinas algumas fases do processo. O Grupo Carvalhos possui cerca de 600 colaboradores, tendo a Couro Azul, uma das maiores fábricas de Alcanena, cerca de 300.

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