Alcanena | No dia da Ascensão sobe-se em romaria ao cabeço de Santa Marta (c/vídeo)

A subida ao cabeço de Santa Marta é um das pequenas romarias que sobreviveu à implantação da República e às aparições de Fátima. Na localidade de Moitas Venda, concelho de Alcanena, por altura do dia da Ascenção, (este ano 2019 será a 30 de maio, feriado municipal) os grandes fazendeiros e os camponeses da região subiam o monte até à ermida de Santa Marta e ali passavam a tarde em convívio, matando-se um boi que depois era distribuído pelo povo, e benzendo o pároco os campos, pois celebrava-se também a espiga. O local mantém até hoje associados ao seu nome um conjunto de lendas e tradições de que se desconhece em boa parte a origem, mas que constituem uma marca identitária da freguesia de Moitas Venda. Escondida na Serra D’aire, a ermida é um espaço de silêncio e contemplação que se enche de festa.

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A ermida de Santa Marta é o oposto da magnitude do Santuário de Fátima, localizado a cerca de 18 quilómetros de distância. Pequena e singela, com uma datação oficial que ronda o século XVII, já teve tempo de ver nascer sobre ela umas quantas histórias e lendas, uma grande devoção local a Santa Marta, padroeira das cozinheiras e donas de casa, e até uma longa disputa em tribunal em torno da tutela dos terrenos circundantes.

Após um interregno de cerca de 80 anos, nos anos 70 um popular, emigrante no Canadá, retomou a tradição da matança do boi no dia da Ascensão (40 dias após a Páscoa) e das grandes festas em torno da ermida, que se mantêm até hoje.

Feriado da Ascensão reuniu algumas centenas de pessoas nos festejos da ermida de Santa Marta. Foto: mediotejo.net

São desse popular, José Jorge, os famosos poemas que a tradição oral vai transmitindo.

Em certa era que já foi

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Em Santa Marta havia um boi

Que pastava aonde queria

E naquele dia de maio

Matava-se o garraio

Para um festa que havia

Era ali naquela casinha

Sem telhado e tão velhinha

Onde ia a família toda

Havia um festa guerrida

Ainda hoje é conhecida

Pela velha casa da Boda

De manhã uma sopa de hortelã

Que até vinha a florir

À tarde comia-se a vitela

Com arroz de cabidela

E era de beber até cair

José Jorge era avô de Ascensão Jorge, que descobrimos por acaso aquando a celebração da missa na Ermida de Santa Marta, pequena para tamanha audiência. É a própria que recorda a luta judicial pelos terrenos e uma velha moradia, a casa do Ermitão, na envolvente da ermida, ocupados por um casal pobre e que posteriormente a família quis reivindicar a posse. O caso esteve muitos anos na justiça, com o povo a sublevar-se conta o usucapião, acabando por ser determinado, há cerca de uma década, entregar a tutela à junta de freguesia.

A Ermida de Santa Marta significa muito para Ascensão Jorge e a sua família. O avô foi emigrante no Canadá, tendo passado um inverno tão rigoroso que temeu não regressar a Portugal. “Ó Santa Marta leva-me para o meu país que eu prometo fazer-te uma festa”, terá sido a promessa de José Jorge no seu sofrimento.

Foi já no executivo de Álvaro Campos que se requalificou a envolvente da ermida de Santa Marta e a Casa do Ermitão. Presidente de Moitas Venda tem ainda outros projetos que gostaria de concretizar no local. Foto: mediotejo.net

Regressado, retomou a festa da ascensão, em que após se deixar um boi a pastar livremente pela zona, este era morto na data e distribuída a carne pela população em festa. Uma tradição, narra Ascensão Jorge, que havia morrido já há cerca de 80 anos quando o avô a retomou, nos anos 70. “Esta promessa é o início de toda a tradição”.

Atualmente não se mata um boi, mas há festa, comida e bebida na Ermida de Santa Marta ao longo de todo o dia da Ascensão, feriado municipal. A data é de grande significado para Emília Coelho Silva, emigrante nos EUA há quase 50 anos, onde teve durante 12 anos um programa de rádio em português. “A minha mãe sempre contou que Santa Marta, irmã de Lázaro e Maria, pediu para se fazer aqui uma capelinha”, relata.

A obra começou a ser feita no fundo do monte, mais os materiais apareciam sucessivamente no cimo do cabeço. A ermida acabaria por ser construída aí, explica narrar a tradição popular.

“O que me traz aqui é a minha terra. Sempre gostei de vir a Santa Marta. Fui para os EUA com 23 anos e sempre que venho cá procuro vir à quinta-feira da ascensão. É sempre uma alegria”, admite.

Das histórias associadas ao lugar há também os, poucos, casamentos que ali se realizaram. Conta-se que quem colocasse a cabeça num buraco existente na ermida arranjaria marido ou esposa. Assim fez o marido de Quitéria Lemos, mas já após o casamento. “Casar na ermida foi um pedido do meu pai”, realizado a 27 de dezembro de 1970, explica Quitéria Lemos. “Viemos a pé até cá acima”, num tempo em que existia apenas um carreiro até ao cimo do cabeço.

História semelhante tem o presidente da junta de Moitas Venda, Álvaro Campos, que também ali casou. O padre, cansado de esperar pelos noivos, ameaçou não realizar o matrimónio, mas terá ficado compadecido com a noiva, que subira a pé todo o cabeço com um pesado vestido de noiva. Chegou cansada e encharcada em suor e o casamento, apesar das ameaças, acabaria por concretizar-se.

Ermida faz parte do património histórico e religioso de Alcanena. Foto: mediotejo.net

Álvaro Campos fala com emoção das histórias da ermida, que foi um local de romaria e promessas durante vários séculos, vivendo ali um ermita que zelava pelo espaço. Nos seus tempos áureos, os grandes senhores de Torres Novas, então sede de concelho, rumavam até ao local nos seus cavalos e o povo reunia-se em festa, matando-se o boi desse ano e distribuindo-se comida pelo povo. A tradição esteve quase perdida, admite, mas nunca por completo, realizando-se hoje a peregrinação todos os anos.

“Este cabeço tem muitas histórias”, reflete, desde o próprio surgimento da devoção a Santa Marta, de registo incerto. Depois de resolvida a posse da terra, a autarquia recuperou a casa do ermitão e a envolvente. Segundo a placa instalada no local, este foi um investimento de 22.465 euros, com 10.783 euros de comparticipação comunitária.

Álvaro Campos admite que gostaria de colocar luz no local e fazer uma série de melhoramentos, no entanto todo o encargo está com a junta de freguesia, o que dificulta a realização de obras.

Para todo o dia das ascensão, Álvaro Campos estimava que passassem pelo cabeço cerca de 500 pessoas. Duas carrinhas traziam e levavam as pessoas, reunidas na aldeia de Moitas Venda. Depois do almoço, o bailarico prometia estender-se até perto da meia-noite.

Da festa também ficam as espigas, vendidas em pequenos ramos e benzidas após a missa do meio-dia, do mesmo miradouro em que se benzeram os campos de Alcanena. No seu sermão, o padre Pereira lembrou a finitude da vida e o papel dos montes, como o de Santa Marta, nos grandes eventos bíblicos. “Não terá sido por acaso que Nossa Senhora escolheu a Serra D’aire para falar ao mundo”.

A espiga é sempre para guardar até ao ano seguinte.

 

*Reportagem publicada em maio de 2017, republicada em abril de 2019

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