Alcanena | Carlos Dinis, o designer das pedras da serra (c/vídeo)

*retificado às 16h33 de 15 de março de 2019

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Um pouco por todo lado encontram-se artistas autodidatas que com imaginação e algum génio conseguem criar obras de arte dos materiais mais inusitados. Em Minde, concelho de Alcanena, Carlos Dinis, 46 anos, desenvolve há mais de duas década uma paixão pela arte de trabalhar a pedra. Sem formação específica e usando equipamento rudimentar, percorre a Serra de Aire à procura de matéria-prima, que depois transforma nas mais variadas esculturas. Há algum tempo decidiu incubar-se na StartUp de Torres Novas, no objetivo de desenvolver um negócio de design de interiores, com base nas suas próprias criações. A sua exposição “Metamorfose”, que esteve patente na Casa da Cultura de Alcanena, foi uma pequena mostra do potencial deste escultor que quer dar-se a conhecer além do núcleo local.

Acredita que herdou o talento da avó materna, a qual já tinha uma certa veia artística para elaborar as mais variadas criações com todo o tipo de materiais, em trabalhos de natureza essencialmente artesanal. Carlos Dinis é natural do Covão Feto, freguesia de Monsanto, Alcanena, e já passou por muitos ofícios ao longo da vida, tendo-se dedicado nos últimos dois anos à escultura.

Foi uma aprendizagem gradual, confessa, realizada sobretudo através da observação e da experiência, não tendo formação específica em escultura. Mas hoje, com pequenos equipamentos de esculpir criados por si, transforma pedras que a maioria das pessoas considerariam inúteis em violinos, emblemas, peças com simbólica variada, quadros e fabulosos nus, trabalhando também em peças mais específicas de mobiliário, como mesas ou candeeiros. Uma entrada pelo design de interiores que espera abrir-lhe algumas portas no difícil mundo artístico.

Alcanena | Carlos Dinis, o designer das pedras da serra (c/vídeo)
A matéria prima de Carlos Dinis são as pedras que encontra na Serra de Aire Foto: mediotejo.net

A matéria-prima vai buscá-la à Serra de Aire e Candeeiros. Conforme admite, não havia dinheiro para comprar material, pelo que se começou a aventurar pela produção da natureza. Durante a semana, com ou sem uma ideia já em mente, sobe a serra e vai procurando mais um exemplar para dar asas à imaginação.

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Entre os seus trabalhos há assim os mais diversos tipos de pedra, inclusive algumas que desconhece a tipologia e não tem conseguido, dentro da área, quem as consiga identificar. As cores, as formas e as texturas misturam-se na sua oficina, em peças que se vão criando quase por si, à medida que o escultor vai definindo formas e linhas.

Alcanena | Carlos Dinis, o designer das pedras da serra (c/vídeo)
As marcas naturais da pedra são o bilhete de identidade da obra de Carlos Dinis, que faz um trabalho sobretudo artesanal Foto: mediotejo.net

“Quando olho para uma pedra começo a imaginar e vou fazendo”, reflete, “às vezes não dá, a pedra parte-se, mas a ideia fica”. Cada trabalho tem o seu tempo próprio, podendo levar várias semanas a ficar concluído.

A identidade destas obras é a sua imperfeição, reconhece. Como genuíno artesão – aquele que trabalha a sua arte com as mãos, não produzindo duas peças iguais – Carlos Dinis sabe que a mais valia das suas obras é a sua autenticidade, mantendo as irregularidades únicas que são características dos produtos da natureza. Assim, “todas as irregularidades, as falhas, fazem parte da identidade da peça”, sendo este o seu “bilhete de identidade”. Passando os dedos pelas obras, percebemos os contornos, as texturas e os relevos naturais que o escultor não quis retificar com a maquinaria moderna.

Alcanena | Carlos Dinis, o designer das pedras da serra (c/vídeo)
Um dos trabalhos de Carlos Dinis foi a recuperação de uma cruz de pedra em Covão Feto, destruída num acidente Foto: mediotejo.net

Com a entrada na StartUp Torres Novas, Carlos Dinis quer agora dar o passo seguinte, procurar espaços para deixar as suas peças, conhecer melhor o mercado e falar com outros artistas, procurando definir áreas mais cinzentas deste seu ofício, como o preço adequado para uma peça. Procurou a instituição, explica, na busca destes contactos para promover o seu trabalho. “Foi uma pesquisa que fiz em busca de ajuda para me levar mais além”, refere.

Carlos Dinis é um curioso por natureza. No seu trabalho encontra-se desde a simbólica religiosa à egípcia, em peças que contam em cada pormenor uma narrativa muito específica. Esta “paixão”, salienta, nasce do “desafio” que encontra em trabalhar materiais de “extrema dureza”. Sabe que não é qualquer pessoa que consegue trabalhar como ele, manualmente, usando apenas ponteiros ou cinzeis, num ofício que exige técnica e imaginação, mas também a sua dose de suor.

“É o desafio de criar com as próprias mãos”, reitera, um pouco como os artesãos que existiam outrora e que criavam obras de arte irrepetíveis.

1 COMENTÁRIO

  1. Da noticia: “Carlos Dinis é natural do Covão Feto, freguesia de Minde, ”
    Penso que o senhor será natural deo Covão doi« Coelho e não Covão do Feto. Mas se for mesmo do Covão do Feto, a freguesia é Monsanto, e não Minde.

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