Alcanena | Bugalhos, uma aldeia sede de freguesia com 800 anos de História

Por estes dias em Bugalhos, aldeia sede de freguesia no concelho de Alcanena, vive-se um sentimento de festa. Não se celebram os tradicionais santos populares, mas sim oito séculos de fundação da confraria que estará na origem do lugar situado junto a uma ribeira, outrora uma extensa freguesia onde proliferavam os negócios de curtumes. Depois de na quarta-feira, 15 de maio, se ter celebrado a fundação, no domingo, dia 19, decorre a sessão solene em torno da data, com um convite à população para vir festejar tão longa existência.

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“É uma aldeia como tantas outras pelo país…”

No Café O Grilo, no centro de Bugalhos, um conjunto de populares acercou-se do mediotejo.net, depois de termos abordado a proprietária para uma breve entrevista. Como é viver em Bugalhos? O que falta fazer pela terra?

Vivem-se tempos difíceis e a vida está complicada, comenta-se. Há cerca de 50 anos a localidade possuía uma intensa atividade industrial ligada à curtimenta da pele, negócio tradicional do concelho de Alcanena, mas hoje o setor reduziu imenso. Além da agricultura, a população trabalha ou nos curtumes ou na base do Intermarché. Chegou a registar-se uma forte emigração, mas hoje os locais “migram” sobretudo para Lisboa.

Os cursos de água trouxeram as primeiras populações para a localidade, dando origem a uma confraria medieval Foto: mediotejo.net

A proprietária do Café O Grilo, Hália Salgueiro, chegou a viver no Canadá, mas quis regressar a Bugalhos. “Gosto muito de aqui viver”, afirma, mas esta é afinal tão só uma aldeia, “não se pode ter tudo”.

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Das histórias que ouvia dos pais, sabe que outrora, antes da fundação do concelho há uma século, os limites da freguesia de Bugalhos eram mais extensos que o que são atualmente.

Terá havido inclusive na localidade um registo civil. Hoje resume-se a sete lugares: Bugalhos, Filhós, Casais Romeiros, Pousados, Casal Saramago, Monte Branco e Bairro da Arrangela.

No café de Hália Salgueiro contam-se várias histórias de Bugalhos Foto: mediotejo.net

Há ainda outras curiosidades, realça quem chega à conversa. As donas do estabelecimento descobriram há alguns anos que são descendentes de uma familiar da Irmã Lúcia de Fátima, que para ali se mudou em busca de trabalho, casou e fez vida. Conta-se também que um antigo pároco, que deu nome a uma das ruas da aldeia, por aqui deixou uma extensa descendência.

Depois há a história da Confraria, a tal que foi constituída há 800 anos, e que ia buscar água ao ribeiro daquela povoado, sendo Bugalhos conhecido por “porto da confraria”. “A minha mãe contava que até a confraria de Alcorochel vinha cá” buscar água, recorda Hália Salgueiro.

De factos históricos concretos, ninguém tem porém muita certeza. O nome “Bugalhos”, reflete-se, deverá derivar de um dos frutos do carvalho, considerada a árvore da localidade que está plantada na rotunda central da aldeia, mas sem certeza. Mas é certo que no domingo vai haver festa na comunidade.

Sérgio Portela é um dos rostos da emigração que a região sofreu no século XX. Há 14 anos resolveu refazer a sua vida no concelho natal, Alcanena, instalando-se em Bugalhos Foto: mediotejo.net

Cruzando uma rua mais acima, Sérgio Portela, 64 anos, narra outra história, a da emigração. Nasceu no concelho de Alcanena, mas só a ele regressou há 14 anos, depois de toda uma vida em França. Por Bugalhos tornou a constituir família e realça a boa vizinhança. “Moro cá há 14 anos e dou-me bem com toda a gente”, comenta.

Dos 800 anos da terra pouca sabe dizer, tendo apenas a referência da existência de algumas atividades económicas que já não existem, como um velho largar de azeite. Frisa porém o empreendedorismo do atual presidente da junta, José Luís Ramos. “Sempre pronto para tudo”, afirma.

Deste autarca realçam-se efetivamente algumas iniciativas nos últimos anos, em particular o carismático Festival do Chícharo local e a criação da marca registada Terras de Chícharo.

Este esforço da autarquia resultou em 2018 num curioso e bem sucedido contacto de uma empresa de import/export do Uruguai para comprar chícharo aos produtores locais, o qual acabaria por se estender a outros locais da região.

Mas conforme comentaram os clientes do Café O Grilo, Bugalhos é, em si, apenas uma aldeia, semelhante a tantas outras pelo país, com os seus pontos mais emblemáticos no edifício da Junta de Freguesia e na Igreja Paroquial.

Possui uma escola primária, várias coletividades espalhadas pela freguesia, uma escola de futebol e um núcleo de uma bastante dinâmica associação de reformados, a ARPICA – Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos do Concelho de Alcanena.

A população de toda a freguesia está estimada em 1084 habitantes (dados da página online do município de Alcanena), tendo esta uma extensão territorial de 16,6 Km2.

Gelado de Chícharo é uma receita do próprio presidente da junta de Bugalhos. A persistência do autarca está a resultar no reconhecimento e exportação do produto. Foto: mediotejo.net

A narrativa oficial de Bugalhos coloca a fundação da localidade em 1219, por uma confraria constituída para dar assistência mútua à população estabelecida. A ligação senhorial esteve ligada durante séculos à Casa de Aveiro.

Em 1521, Bugalhos contava já com 78 vizinhos, cerca de 350 habitantes, sendo uma localidade mais populosa que Alcanena. A freguesia foi criada em 1712, sendo que antes dessa data era vigararia anexa ao priorado de Santa Maria de Torres Novas, concelho a que ficou a pertencer mesmo após a sua separação, até à criação do concelho de Alcanena.

A Igreja dos Bugalhos é um dos pontos emblemáticos da aldeia Foto: mediotejo.net

Por toda a freguesia, aproveitando-se o curso do Alviela, encontram-se ainda algumas azenhas destinadas à moagem e antigas fábrica de curtumes, a maioria em ruínas. A região é historicamente reconhecida por ter sido sempre um território de passagem de romeiros, nomeadamente a caminho de Santiago de Compostela.

A aldeia de Bugalhos fica a poucos quilómetros de Alcanena Foto: mediotejo.net
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1 COMENTÁRIO

  1. Fico pasma com o que fazem em Bugalhos. Tanta dedicação e tanto apuro. Foram bem longe com a busca ancestral. O passado é rico, mas o presente está sendo valioso. Graças a todos vós. Estou em Santarém mas estou sempre a par das vossas ocurrências.

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