Alcanena | Augusto Pereira, repórter da saudade e guardião da memória alcanenense (c/vídeo)

Dizem que não há palavra tão portuguesa como a “saudade” e que, inclusive, não será traduzível em mais nenhuma língua no mundo. Se a premissa é questionável, ganha pelo menos forma no arquivo de Augusto Pereira. Ex-emigrante do Canadá, no último meio século ocupou os seus tempos livres a registar momentos da vida de Alcanena, levando e trazendo mensagens gravadas ou filmadas de familiares que habitavam no outro lado do Atlântico. Hoje, aos 88 anos, possui um espólio que percorre a memória dos últimos cinquenta anos do concelho.

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Som e imagem. Bobines, cassetes de 8mm, VHS, CDs, DVDs, uma câmara de filmar digital, as potencialidades dos diretos do facebook ainda por descobrir. Augusto Pereira terá perto de 220 recipientes da memória e da saudade de Alcanena. A vida de emigrante é dura, constata, e dedicou-se a estes registos em prol dos que estavam, como ele, longe de casa, num tempo em que as distâncias eram maiores e se partia para fugir à guerra ou à miséria. “Quando faço estas coisas é a pensar neles”, confessa.

Nasceu pobre na vila de Alcanena e ali fez vida nos curtumes até a guerra do Ultramar e a proximidade da idade de tropa do filho o levar a partir. Não tinha nenhum fascínio particular pelo audiovisual, reconhece, mas impeliu-o a melancolia e a vontade de se manter informado sobre o que por cá se passava. Em 1971, decidido a emigrar para o Canadá, onde já tinha família, comprou um gravador. Na véspera da viagem, reuniu-se a vila em sua casa para gravar mensagens para os familiares do outro lado do Atlântico.

Augusto Pereira viveu no Canadá e ocupava-se a gravar mensagens de familiares de emigrantes quando visitava Alcanena Foto: mediotejo.net

Chegado às Américas, juntavam-se os alcanenenses em sua casa ao fim de semana para ouvir as cassetes, “passar aquele bocadinho”, recorda, em momentos animados de saudade. Ao mesmo tempo começou a tentar perceber como funcionavam as antenas, por forma a seguir a informação em Portugal. Entrando um pouco dentro da tecnologia da época, rapidamente já estava a adquirir material para fazer imagens de video.

Assim começou este seu hobbie de reportagem, saltando do som para o vídeo, registando então já não só mensagens mas também momentos da vida na comunidade portuguesa no Canadá ou eventos em Alcanena e mostrando a ambas as populações, consoante a saudade em causa, de cada lado do oceano. Pelo Canadá fez vida e admite que gostou da experiência, mas acabaria por regressar, vivendo atualmente com a esposa em Alcanena.

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As mensagens, recorda, eram quase sempre dedicadas às famílias, como nos mostra colocando uma das suas velhas cassetes a rodar. São narrativas ao jeito de carta, descrevendo-se pela voz as preocupações da separação, num tom cordial mas afetuoso já perdido no tempo, prezo a outros modelos de ensino e de educação, quando não havia skype ou facebook para colmatar a saudade, as distâncias eram muito maiores e a intimidade era transmitida por palavras meias ou subtilezas na linguagem.

“Estou entretido e sei dar valor à gente que lá está, porque também lá estive”

Atual vice-presidente da ARPICA – Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos do Concelho de Alcanena, Augusto Pereira continuou a registar em video os episódios da vida em comunidade quando se fixou definitivamente na terra. Agora a plataforma de difusão é a sua página de facebook e tem vários seguidores da comunidade emigrante que vão comentando as suas publicações.

A presidente da Câmara de Alcanena anunciou no final do ano 2018 que iria ser lançado um festival de cinema com o nome de Augusto Pereira, o que se concretiza este sábado, dia 11 de maio, às 16h00, no Cine-Teatro São Pedro, com a apresentação do Ciclo de Cinema Documental “Décadas de Memória”, de Augusto Matias Pereira.

Augusto Pereira reconhece que tem registados nos seus vídeos os rostos de muitos alcanenenses que já partiram e que a população gosta de ver estas películas sempre que há uma projeção pública das suas fitas.

“Tenho muitas procissões”, enumera, nomeadamente as que gravava quando vinha de férias, por altura das festas de São Pedro, assim como muitas viagens que realizou ou atividades da ARPICA. “Cheias no Alviela” tem imensas, comenta, assim como, por exemplo, eventos dos Bombeiros desde os anos 90.

“Foi só para guardar saudades”, repete Augusto Pereira, de lágrima fácil ao canto do olho, consciente do que é estar longe da terra onde se nasceu e da família que aí se deixou. Dos anos 70, recorda as promessas deixadas aos pais e de estes ainda o terem ido visitar ao Novo Mundo. Os dois filhos e vários netos ficaram entretanto pelo Canadá e serão eles em princípio a herdar o extenso arquivo de memórias quando partir.

A proximidade da tropa do filho em 1971 fez Augusto Pereira partir para a emigração, nascendo assim o seu desejo de registar momentos Foto: mediotejo.net

“Tenho esta doença” de guardar momentos, confessa, à medida que também mostra recortes de jornais e velhas fotografias tiradas nas fábricas de curtumes onde trabalhou, ainda muito jovem. Num dos corredores da sua casa, empilha material multimédia capaz de contar a história do audiovisual do último meio século, desde um velho projetor das antigas bobines à mais recente câmara digital.

São gavetas e gavetas de cassetes e pilhas de VHS, sem contar os DVDs que só rapidamente nos mostra, com conteúdo histórico que faria inveja a alguns museus.

Nunca pensou que estaria a fazer um arquivo histórico. “Nem sei como ganhei esta doença. No Canadá foi mais a preceito”, gravando os bailaricos da comunidade, as festividades locais e até uma visita do ex-presidente Jorge Sampaio à comunidade portuguesa.

Não sendo jornalista, Augusto Pereira é um repórter da saudade e um guardião da memória de Alcanena. “Estou entretido e sei dar valor à gente que lá está, porque também lá estive”.

*Entrevista publicada em novembro de 2018, republicada em maio de 2019

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