Alcanena | A Serra e a saudade do emigrante inspiraram uma “curta” a Mário Ferreira (c/filme)

Serra de Santo António

Quando deixamos a nossa terra por algum tempo, revisitámo-la com outros olhos. Os pormenores ganham dimensão. Os lugares ganham uma beleza que nunca tínhamos apreciado. As aprendizagens também nos fazem crescer e amadurecer o olhar. Captamos os detalhes da folha que se agita com o vento, como se fossem as memórias do tempo. Sentimos a pedra rude que nos tornou fortes perante as intempéries. Contemplamos o brilho do sol que inspira. Somos nós, envolvidos por esta natureza que cresce connosco, que escolhemos o que ver e como ver. Como num muro em que cada pedra suporta a outra, este vídeo surge da escolha da imagem certa, da paisagem autêntica que nos define, num enquadramento perfeito. O prazer de andar Serra fora, a captar cada lugar, prolongou-se no gosto pelo trabalho gráfico, dando origem ao vídeo “Serra de Santo António”.

Posted by Filme "Serra de Santo António" on Sunday, October 15, 2017

No domingo, 15 de outubro, depois da missa, a população da Serra de Santo António, sede da freguesia com o mesmo nome no concelho de Alcanena, teve direito a uma pequena sessão de cinema. Será mais correto chamar-lhe curta-metragem que filme publicitário, mas o trabalho com cerca de quatro minutos de Mário Ferreira, 19 anos, acaba por ser um pouco dos dois. Munido de máquina fotográfica, drone e as memórias de uma adolescência passada entre França e Portugal, o jovem construiu uma narrativa que explora um encanto só possível de encontrar pelos olhos do emigrante. Uma dedicatória de amor à Serra no momento em que nos despedimos da infância e encaramos um futuro cheio de incógnitas.

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Serra de Santo António (diminutivo: Serra) é uma aldeia e sede de freguesia isolada na Serra d’Aire, onde os rebanhos, os muros de pedra e o mato rasteiro, os campos infinitos e os grandes espaços abertos, cheios de céu, ainda definem uma paisagem onde a Igreja Paroquial é o ex-libris e uma marca cultural. Foi aqui que Mário Ferreira nasceu e aonde quis voltar após quatro anos em França, ainda pré-adolescente, sem os pais. Aos 15 anos sentiu que o bulício urbano da zona onde vivia em França nada lhe dizia e regressou a Serra de Santo António.

“Emigrei para França uns tempos, comprei lá a minha câmara fotográfica e quando vinha de férias filmava sempre a Serra”, começa por contar, imagens dos anos de 2014 e 2015. De volta definitiva a Portugal, inspirou-se nesse trabalho e começou a preparar uma curta-metragem em torno da Serra de Santo António. A apresentação na Igreja Paroquial do pequeno filme “foi uma forma de mostrar à população este trabalho, lançar-me e lançar a aldeia”, explica.

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“Achei que a vida aqui tem mais sentido”, comenta sobre a decisão de regressar a Portugal com o irmão. “É aldeia, os ares são diferentes, sinto-me mais livre, sinto-me mais eu. É outra forma de viver, a natureza, as pessoas. Acho que mesmo que no futuro vá para fora vou sempre voltar”, refere.

Há alguns anos que faz reportagens de pequenos eventos e com o dinheiro angariado comprou uma máquina fotográfica e de filmar de boa qualidade. Começou assim a concretização do seu projeto de fazer um trabalho sobre a Serra, que lhe ocupou 10 dias de filmagens ao longo de três meses e muitas horas de edição, que não consegue contabilizar. “Explore Serra de Santo António” é o resultado final desta sua produção, que uniu recordações e a nostalgia de ter passado, ainda que brevemente, pela emigração.

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“Explore Serra de Santo António” é o olhar de um emigrante sobre a sua terra natal Foto: mediotejo.net

No centro da narrativa está uma jovem da terra, Carolina Guiomar, que percorre vários pontos da Serra, desde as grutas aos campos. No filme apresentado na Igreja dia 15 havia uma breve introdução em voz off, que antecedia a sequência de imagens acompanhadas com música. No video disponível no youtube e nas redes sociais, explica Mário Ferreira, por forma a facilitar a internacionalização da película, essa parte narrativa em português foi retirada.

Após a finalização do filme, Mário quis mostrá-lo à população. A Igreja local acabou por se revelar o melhor espaço para ir ao encontro desse objetivo. Fez-se a promoção da iniciativa pela terra e cerca das 11h00, aquando o término da missa, juntaram-se mais pessoas ao público que já assistira à cerimónia religiosa. “A reação foi muito boa, toda a gente chorou”, recorda orgulho Mário Ferreira, “vieram todas abraçar-me, que era um orgulho ver assim a terra representada”.

Nas redes sociais o video conta já com mais de 11 mil visualizações, tendo registo de ter sido visualizado em países como França, EUA, Canadá, Angola, Austrália, Brasil, Países Baixos, Ucrânia, Moçambique, Bélgica, Reino Unido, Croácia ou Luxemburgo.”O objetivo é levar o vídeo mais longe”, sintetiza Mário Ferreira.

Mas este jovem criativo não quer seguir cinema, mas design. “Tenho paixão pelo vídeo, pela fotografia, pelo desenho”, confessa, “sempre gostei de criar, de inovar, da interação com o público”, pelo que acredita que esta área será para si a mais indicada. Não traça planos objetivos para o futuro. Ainda completar o 12º anos no curso de Artes do Centro de Estudos de Fátima, o jovem tem ambições, mas vai vivendo um dia de cada.

Entretanto já teve o video da Serra partilhado por algumas plataformas e está aberto a propostas para mostrar o seu trabalho noutros espaços ou páginas de turismo. No futuro gostava de fazer uma curta em torno de uma história centrada na Serra ou um filme documentário sobre a localidade.

Polivalente, com várias atividades na comunidade da Serra de Santo António, Mário Ferreira admite ser um otimista. Mas também teimoso. “Corro sempre” atrás dos objetivos.

 

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