Alcanena | A recuperação de Lara Maria está a mover uma região

Concelho de Alcanena tem-se movido em iniciativas de apoio para os tratamentos da jovem Lara Maria. FOTO: mediotejo.net

Era uma vez uma jovem mãe que teve uma gravidez tranquila e carregava dentro de si uma criança saudável. Era uma vez uma aldeia, um concelho, onde nascem poucas crianças. Era uma vez um dia de dezembro em que tudo o que podia correr mal, correu mal. Era uma vez uma comunidade que uniu esforços para que uma menina sem esperança tivesse uma vida relativamente normal.

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Era uma vez Lara Maria. A criança de Vale Alto, freguesia de Minde, Alcanena, que nasceu com paralisia cerebral e que recentemente, ao fim de dois anos de um tratamento inovador mas extremamente caro, conseguiu dizer, “avô” e “pai”. E já não quer mais estar quieta.

No concelho de Alcanena e um pouco por toda a região já se têm organizado iniciativas de solidariedade. A próxima decorre no sábado, 6 de abril, na Domus Mater Dei, em Fátima, com um concerto solidário que tem lugar a partir das 21h00. Foto: DR

No concelho de Alcanena serão poucos os que nunca terão ouvido falar da causa da jovem Lara Maria. As primeiras iniciativas de apoio para os seus tratamentos surgiram em 2014, na aldeia de Vale Alto de onde é natural, mas espalharam-se gradualmente pelo concelho, com o apoio do município. Lara Maria tem paralisia cerebral e até aos quatro anos encontrava-se imóvel, mexendo apenas o pescoço. Depois, por mero acaso, alguém advertiu a família que havia forma de contornar alguns dos condicionalismos da deficiência. O problema é que os tratamentos custavam 3 mil euros.

Mas comecemos pelo princípio…

O mediotejo.net é recebido na casa de Lara Maria a 16 de dezembro de 2016. Só durante a entrevista à mãe, Thelma Marques, é que nos apercebemos ser o aniversário da pequena. Completaram-se nesse dia seis anos sobre os acontecimentos que viriam a ditar a sua condição física. Com uma gestação sem qualquer percalço, um primeiro filho, os pais de Lara Maria estavam longe de imaginar que algo pudesse correr mal.

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Quem vai narrando os acontecimentos é Thelma Marques, acompanhada ocasionalmente pelo pai, que brinca com a neta durante a conversa. O início da história é o rebentar das águas e o encaminhamento da jovem mãe para a Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. Entrou nas urgências, explica, pelas 6/7 horas de 15 de dezembro de 2010. Aí fizeram-lhe pela primeira vez o “toque”, para verificar a sua dilatação.

Segundo Thelma Marques, foi sendo observada pelas enfermeiras ao longo do dia, verificando a pulsação do bebé, mas nunca mais lhe fariam o “toque”. Refere ainda que das 21 horas até ao momento em que começou a ter complicações, já no dia 16, nunca mais foi observada por nenhum profissional de saúde. “Só me fizeram o toque nas urgências”, sintetiza.

Estava nervosa e apreensiva, com muitas dores, relata, mas as enfermeiras terão dito para subir e descer escadas para ajudar ao processo. Após a passagem de um obstetra, na manhã de dia 16, avisaram-na para ir tomar banho. “Foi aí que me comecei a sentir mal”, recorda. Ao regressar ao quarto, comentou com uma enfermeira que sentia a barriga “como gelatina”. Foi essa profissional que chamou os médicos, a avisar que o bebé estava a morrer.

Todo o processo do parto é muito confuso para Thelma Marques, explicando que pouca informação ela e o marido receberam sobre o que se estava a passar com a criança. Lembra-se de episódios, situações que lhe pareceram menos bem e que agora recorda, das colegas parturientes a avisaram as enfermeiras que algo não estava bem, contando que só ficou a perceber o que eventualmente se terá passado por médicos especialistas amigos da família. Após o alarme, foi encaminhada para uma cesariana de urgência e em pouco tempo Lara nasceu, tendo seguido para os cuidados intensivos. Nasceu com paralisia cerebral por falta de oxigénio.

Lara Marques tem oito anos e desde 2014 que os pais procuram apoio para que a jovem aceda a tratamentos específicos, e caros, que lhe permitem melhorar alguns dos sintomas da sua deficiência. Foto: DR

O bebé só chorou pela primeira vez a 29 de dezembro desse ano. “Foi uma alegria muito grande”, recorda Thelma Marques que, na altura, preferiu esquecer a história e não avançar com nenhum processo judicial. Três anos depois porém, explica, com o agravar do estado de saúde da menina, que praticamente não se mexia, imobilizada na cama, é que se decidiu pela via do Tribunal, onde o caso se encontra neste momento. Thelma Marques prefere não classificar ao mediotejo.net o que entende ter-se passado consigo e com a filha, afirmando que será o Tribunal a definir o que originou aquele parto de 16 de dezembro de 2010 na Maternidade Bissaya Barreto.

Lara Maria foi sendo seguida em Coimbra, até que em 2014, num supermercado, Thelma tomou conhecimento por uma conhecida de uma clínica de reabilitação em Espinho que aposta em métodos inovadores para pessoas com paralisia cerebral. Numa clínica de fisioterapia do norte do país, a abordagem de tratamento segue a lógica da fisioterapia intensiva, seguindo o método Therasuit, a prática do método Padovan e o método CME – Cuevas Medek Exercices. Mas, “só a fisioterapia, durante quatro semanas, são 2800 euros”, explica Thelma Marques.

O casal levou a filha para uma análise e os especialistas deram-lhe esperança de que Lara pudesse desenvolver o andar, a fala, adquirindo alguma autonomia. “Ela é uma criança que puxa muito por ela própria”, explicaram-lhe na ocasião, mas o factor económico desanimou os pais.

Regressados a Vale Alto, Thema recorda-se de desabafar com uma vizinha. Foi esta amiga que teve a ideia de organizar a primeira festa de apoio a Lara, para que a criança pudesse ter uma oportunidade de realizar os tratamentos. Esta iniciativa decorreu em novembro de 2014 e Lara começou a ser tratada logo em janeiro.

“Houve um senhor que na primeira festa da Lara deu 2 mil euros. Veio do Algarve de propósito porque soube da causa”, recorda a mãe, reconhecendo-se impressionada e algo surpresa com o movimento de apoio que se gerou em torno da filha. Desde então as festas de apoio, os cabazes, as angariações de fundos foram-se sucedendo, inclusive da própria Câmara Municipal. “Muitas, já perdi a conta”, constata.

O dinheiro que foram recebendo também não sabe contabilizar, referindo que o que conseguiram angariar foi sendo gasto de imediato no pagamento dos tratamentos. Para além da fisioterapia, a Lara tem ainda várias consultas frequentes de terapia da fala, ocupacional, AVR e terapia miofascial, explica Theresa Marques, todas com um custo individual de 30/40 euros.

Em dois anos a menina que não se mexia já não pára, brincando com o avô. Já consegue dizer algumas palavras, comer e há esperança de que venha a andar. O sonho da mãe é que Lara consiga de alguma forma ter a sua autonomia, ainda que seja uma pessoa que precisará sempre de apoios. Recomenda a Clínica Médica e de Reabilitação que frequenta e já tem passado a informação a pessoas que a abordam, constatando o desenvolvimento das capacidade de Lara Maria.

Perguntamos-lhes, por fim, recordando todo este processo, se teria feito algo de forma diferente, em particular durante o parto. “Gritava, ameaçava”, não se calava, admite. “Foi algo que não fiz”.

A recuperação de Lara Maria está a fazer mover o espírito solidário existente em todos os corações maiores do concelho de Alcanena, Fátima (Ourém) e à região envolvente.

Concelho de Alcanena tem-se movido em iniciativas de apoio para os tratamentos da jovem Lara Maria. FOTO: mediotejo.net

*Reportagem publicada em janeiro de 2017, revista e republicada em abril de 2019

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