“Agenda escondida”, por Vasco Damas

Greta Thunberg. Foto: DR

Tenho que me penitenciar perante todos aqueles que se deixaram influenciar quando leram aqui a minha crónica de 20 de março deste ano, que intitulei “Um raio de esperança”. Confesso que quando a escrevi estava a ser genuíno e que ignorava que havia uma agenda camuflada de interesses obscuros.

PUB

Partilho parte dessa crónica para colocar as coisas em perspetiva e fazer o devido enquadramento.

“Tenho vontade de ignorar a realidade para deixar uma mensagem de esperança mas falta-me o rasgo dos predestinados para contornar a tragédia provocada pelo ser humano à qual se junta a catástrofe da responsabilidade dos fenómenos naturais.

É “natural” que a natureza se vingue de todo o mal que lhe temos feito, mas já não será tão natural que faça incidir a sua ira sobre aqueles que menos têm.

Mas quando me aproximo de perder totalmente o crédito nesta humanidade, “cruzo-me” com uma jovem sueca de 16 anos que nos dá uma lição de vida e me devolve alguma da esperança entretanto perdida.

PUB

O gigantesco movimento que Greta Thunberg pôs em ação é um contributo muito importante para despertar consciências e para renovarmos a esperança no futuro. É também a prova que cada um de nós pode fazer mais do que o nosso conformismo normalmente permite. É ainda a prova que com a educação certa, os jovens de hoje serão “amanhã”, ou hoje mesmo, a solução para os problemas criados pelos “adultos de ontem”.

Greta Thunberg transforma-se assim num raio de esperança que contrasta com a realidade dos últimos dias. Quero acreditar que há mais “Gretas Thunbergs” espalhadas pelo mundo e que a jovem sueca não é apenas uma exceção que contraria a regra a que nos temos vindo a habituar.

Mas para garantirmos que este ativismo com base numa consciência social não se perde temos que criar condições que facilitem a sua disseminação. Desde logo pela reforma no ensino que treine os jovens a pensar e a encontrar respostas para os seus problemas porque é assim que se desenvolvem competências, treinando-as.

Espero que a jovem sueca possa ganhar o Nobel da Paz. Não pelo prémio mas pela carga simbólica e pelo contágio que dará força a uma mensagem da qual pode estar dependente o futuro da humanidade. É por isso que no fim de uma semana trágica, Greta “emerge” de forma ainda mais nítida como um raio de esperança.”

Pelo que tenho lido nos últimos dias percebo agora com alguma desilusão que o “meu” “raio de esperança” está ao serviço de interesses obscuros. Será isso ou é a geração do “maio de 68” que entretanto se aburguesou e tece uma teia de teorias da conspiração para aniquilar aqueles que lutam por aquilo que eles entretanto desistiram de lutar.

Como li algures, talvez seja incómodo perceber que os líderes mundiais de hoje se comportam como crianças e obrigam a que algumas crianças se comportem como adultos. Ou se preferirem, acho estranho que um mundo que tolera Trump, Bolsonaro, Maduro, Putin e outros exemplares desta estirpe, descarregue o seu ódio numa jovem que resolveu lutar pelo futuro desse mesmo mundo.

Admito que possam haver interesses ou alguma agenda escondida, mas o ganho coletivo é incomensuravelmente maior se o mundo passar a dar crédito à jovem sueca quando comparado com a negligência das políticas ambientais implementadas pela generalidade dos governos mundiais.

Assim sendo, mesma que tenha agenda ou esteja ao serviço de determinados interesses, Greta Thunberg continua a personalizar o meu raio de esperança.

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here