“Admiro o talento, mas bastava-me a competência”, por José Rafael Nascimento

Créditos: Delloite

“Os bosques seriam muito silenciosos se apenas cantassem os pássaros que cantam melhor.”
Henry van Dyke

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Se um peixe for avaliado pela sua capacidade de voar ou trepar a uma árvore, levará a vida toda a julgar que é estúpido”. A frase, com esta ou semelhante formulação e de autoria incerta, circula há muito nos meios organizacionais. A metáfora é magnífica, apontando para a natureza e importância relativa do talento (ou das competências, talvez…) e para a necessidade de o avaliar e seleccionar em função de cada sujeito, de cada tarefa e de cada contexto.

Ironicamente, a metáfora extravasa a frase e isso ainda a torna mais poderosa, ao revelar quão ignorante cada um de nós pode ser, designadamente se não perceber nada de peixes. É que, na verdade, há peixes que voam e alguns até andam e trepam às árvores. Duvida? Se assim for, pesquise as espécies Exocoetidae (peixe-voador) e Periophthalmus (mudskipper ou saltador-do-lodo), e logo confirmará o que lhe digo.

O Talento está na moda. Não porque tenha aparecido à Humanidade em tempos recentes – aliás, é tão antigo quanto a humanidade – mas porque a Gestão de Pessoas (ou dos Recursos Humanos, se se preferir, e não só…) vai lançando, de quando em quando, uma lebre conceitual re-estilizada, atrás da qual corre alguma ignorância, petulância e oportunismo do mundo editorial, académico e empresarial-institucional, sem que provavelmente tais “talentos” tenham valorizado suficientemente o conceito precedente, que o dito reestilizado pretende substituir.

Peixes que voam e peixes que andam e trepam às árvores, além de nadarem: a origem e evolução das espécies, “esse mistério dos mistérios” (John Herschel). Fotos de Brent Barnes (em cima) e Klaus Steifel (em baixo).

É o que se passa com o Talento, definido pelo dicionário Priberam como “aptidão natural ou adquirida, engenho, disposição, habilidade ou pessoa de talento”. Na opinião pública e publicada, assim como nos manuais da especialidade, o conceito de Talento refere-se geralmente a (pelo menos) uma aptidão ou habilidade “saliente” ou “excepcional”, a qual se destaca num mesmo indivíduo ou na comparação entre indivíduos. Assim, qualquer um de nós poderá ter uma capacidade distintiva, entre todas as que possui, ou que se distingue quando comparada com a mesma habilidade noutras pessoas.

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Pelo “efeito de halo”, esta “superioridade” parcial passa então a caracterizar o indivíduo no seu todo, sendo apelidado de “talentoso” ou “um talento“. Esta generalização a partir de um traço saliente dá, frequentemente, uma noção errada do perfil da pessoa, já que o facto de alguém ser excepcional numa determinada característica não implica necessariamente (tal nunca acontece, aliás) que seja excepcional ou mesmo bom em todas as que possui, podendo até verificar-se o oposto em alguma delas.

Debate-se, há muito, a origem do Talento. Será ele inato ou adquirido? A ciência psicológica aponta para que os indivíduos possuam traços genéticos que facilitam o desenvolvimento de capacidades excepcionais, mas são as experiências de vida que determinam o alcance e a qualidade desse desenvolvimento, em concreto. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche afirmou que “o talento revela-se na luta”, algo semelhante ao provérbio português “a necessidade aguça o engenho”. Tal pode acontecer, porém, de forma incompleta e não plena, como desabafou a escritora britânica Rosamunde Pilcher: “Não há nada mais desanimador do que ter apenas um pouco de talento”.

Também o escritor americano Mark Twain analisou personalidades como Napoleão, Rafael, Wagner e Edison, observando que “a medida de seu talento não explicará todo o resultado, nem mesmo a maior parte dele; é o ambiente em que o talento foi nutrido que explica, o treino que recebeu enquanto crescia, o que aprendeu com a leitura, o estudo, o exemplo, o encorajamento e o reconhecimento em cada fase de desenvolvimento: quando conhecemos todos estes detalhes, percebemos por que é que a pessoa estava pronta quando chegou a sua oportunidade”. 

“O talento desenvolve-se, frequentemente, à custa do carácter”, afirmou Ralph Waldo Emerson. Na foto de The Times, o talentoso Elon Musk fuma marijuana num show em directo, provocando a queda das acções da Tesla e levando a NASA a auditar a cultura organizacional da Space X.

A excitação com o Talento é de tal ordem (será, por cá, um “efeito Ronaldo”?) que o conceito chega a ser confundido com o de “Competências”, “Pessoas”, “Capital Humano” ou “Recursos Humanos”. Assim, a “Gestão de Talentos” está em todas as livrarias e programas de ensino superior, diferenciando-se todavia dos clássicos manuais de Gestão de Pessoas apenas em meia dúzia de páginas. Tal não significa, obviamente, que o talento não seja uma dimensão importante da gestão dos recursos humanos, podendo até ser considerada estratégica e determinante do sucesso, em determinadas circunstâncias.

Na maior parte das situações, contudo, o que está em causa são as “competências” das pessoas e não os seus “talentos”, estes aqui entendidos como capacidades excepcionais inter pares. Do que as organizações precisam é, sobretudo, da(s) competência(s) das pessoas, num duplo sentido: as suas capacidades (sejam elas normais ou excepcionais) e a eficiência com que as aplicam. E que essas competências sejam adequadas e suficientes para um desempenho à altura das necessidades e expectativas, tanto das organizações como dos seus clientes-utentes.

O conceito de Talento refere-se geralmente a uma aptidão técnica ou tecnológica, encarada isolada e individualmente. Acontece que, frequentemente, essa aptidão só tem pleno valor e adquire elevada utilidade quando combinada com outras capacidades, sejam elas de natureza moral, cognitiva, emocional ou psicomotora. Pode ainda ocorrer um fenómeno conhecido por “paradoxo do talento” quando este se torna uma “faca de dois gumes”: abre portas a projectos de alta visibilidade, mas expõe o indivíduo ao ciúme, inveja e manobras políticas organizacionais.

O “líder-maestro” cria uma dinâmica de grupo que faz com que o valor da equipa seja superior à soma dos valores médios individuais. Ilustração de Margarida Mouta.

Por outro lado, a maioria das pessoas trabalha em conjunto e em articulação com outras, inseridas em processos de trabalho ou produção colectivos. Assim sendo, o seu rendimento dependerá muito da forma como se integra e coordena com as demais pessoas e partes dos processos, podendo dar-se o caso de o referido talento não conseguir alinhar-se ou ajustar-se de forma a permitir a obtenção de um desempenho e de um resultado global de excelência.

Ora, se a questão do talento poderá ser um desafio mais ou menos transcendente para algumas empresas ou instituições, para a maioria o desafio é recrutar, seleccionar e contratar, com rigor técnico e ético, pessoas que possuam as competências requeridas. Do ponto de vista técnico, a avaliação passa por realizar entrevistas e testes de personalidade e aptidão. Do ponto de vista ético, o processo requer lisura de atitudes e comportamentos.

Esta lisura de procedimentos deverá ser mais exigente no sector público do que no privado pois, enquanto neste se aceita a discricionariedade permitida por lei, naquele devem prevalecer as normas éticas em que a democracia se sustenta, uma vez que o Estado, sua administração e empresas maioritariamente participadas são, por definição, propriedade pública, ou seja, de todos os cidadãos. Deste modo, a todos os candidatos a emprego no sector público devem ser garantidas as mesmas condições e oportunidades, sem favorecimentos ou entraves de qualquer tipo (à excepção dos que a lei prevê).

A democracia conquistada em 25 de Abril de 1974 veio garantir direitos fundamentais que devem ser exigidos e defendidos pelos cidadãos, repudiando e denunciando o nepotismo, o amiguismo e o favoritismo no acesso à função pública. Ilustração adaptada de Hilde.

Assim o determina a lei fundamental, proclamando o Artº 13º da Constituição da República Portuguesa que “Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”. 

É, por isso, com desagrado e indignação que os cidadãos tomam conhecimento de sucessivos casos de nepotismo e favoritismo no aparelho central e local do Estado, para o qual são admitidos familiares, amigos e compinchas que, além de “ultrapassarem pela direita” outros concorrentes ou potenciais candidatos, falham as competências requeridas para um bom desempenho profissional. Competências essas que são de ordem técnica, mas também comportamental e de gestão. E todas elas requerem, em maior ou menor grau, capacidades morais, analíticas, criativas e práticas.

Quanto ao desempenho, ele pressupõe tanto a execução mais ou menos repetitiva das instruções recebidas, com a qualidade definida, como a melhoria – ou mesmo reengenharia – dos processos de trabalho, e do desenvolvimento organizacional no seu conjunto. Não admira, pois, que, quando estas competências não estão reunidas, a prestação de determinados serviços públicos e funcionários “vogons” seja tão indigente e deplorável, prejudicando o cidadão anónimo e o desenvolvimento da comunidade.

Na comédia The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (2005), os Vogons são funcionários públicos burocratas, mal-humorados, autoritários e insensíveis, dispostos a destruir o planeta Terra para construir uma auto-estrada interestelar. Desprezando a arte e a beleza, usam uma poesia horrorosa para castigar os detractores. Imagem de Touchstone Pictures.

É por isso que digo que “admiro o talento, mas bastava-me a(s) competência(s)”. No que sou honrosamente acompanhado pelo poeta anglo-americano Wystan Auden quando afirma que “é preciso pouco talento para ver claramente o que está debaixo do nariz, e esse pouco serve quase todo para saber em que direcção apontar o órgão”. Mas as coisas são como são e é um facto que hoje se venera e pratica o “culto do talento”, criando falsas expectativas e condenando à exclusão e menor auto-estima uma parte competente e útil da sociedade.

Uma consequência desta hipérbole é, entre outras, o recurso a expedientes engenhosos, procurando transmitir-se uma imagem artificial, logo falsa e efémera de supostos “talentos”. Com indignação, o escritor russo Fyodor Dostoyevsky denunciava que “o mais vil e desprezível em relação ao dinheiro é que ele até confere talento”. E, com ironia, o filósofo alemão Georg Lichtenberg sugeria “A grande regra: Se o pouco que você tem não é nada de especial, pelo menos encontre uma maneira de o dizer que seja um pouco especial”. Um “talento” que se finge que tem, em situações em que até nem é preciso, não raras vezes para agradar a quem se detesta.

*Por vontade do autor, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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