“Adeus charutos”, por Armando Fernandes

Na segunda-feira passada no decurso da tarefa peripatética sofri um acidente de percurso a obrigar-me a recorrer a assistência médica, posteriormente a ser inquirido e examinado de forma a determinar-se a origem do aborrecido acontecimento. O especialista sentenciou o banimento do prazer de fumar charutos após as refeições, já estava quase restringido aos almoços.

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Fiquei contristado, os charutos proporcionaram-me durante largos anos intensos momentos de júbilo fosse na exaltação das convivialidades, fosse no reduto da soledade (mais vibrantes), ainda quando ria ou sorria a ler ou ouvir os dislates de gebos envernizados ou não, criaturas ressabiadas e ressequidas, demagogos e demagagos, deputados deportados das regras da boa educação, governantes distraídos do essencial e esquecidos do anteriormente feito, burocratas da cultura especialistas em a agredirem, fanfarrões, sem esquecer os da fruta misturada, os furta-cores de territórios e identidades. O leitor pela breve descrição acima enunciada pode aquilatar quão grande é o meu sentimento de agradecimento aos charutos, porque além de possuir memória nunca esqueço todos quantos me concedem bem-estar e alegria.

Durante anos furiosamente li as revistas Cigar Aficcionado e Smoke, colecionei livros, estampas, vitolas, charuteiras, tubos, tesouras, cortadores e caixas de vários tipo e formatos referentes ao universo do tabaco enrolado em forma de charuto tão bem descrito pelo notável escritor e incansável fumador de puros que foi Cabrera Infante, no risonho livro Holy Smoke. Lembro o seu formidável romance Três Tristes Tigres.

Não vou estabelecer uma lista de marcas de charutos cimeiras, porém anoto graciosos fumos provenientes de Cuba, República Dominicana, Filipinas, Honduras, Estados Unidos, México, Nicarágua, Indonésia, Brasil, Jamaica, Açores e Canárias. Os preparados na Alemanha, Holanda e Itália só nas alturas de grande carência.

Os clubes de charutos por cá nunca conheceram prosperidade, conheço alguns sedeados no estrangeiro onde é possível cultivar-se o vício de maneira eclatante – puro, bebidas e música –, no referente a casas de venda de charutos no meu inventário figuram algumas consideradas referência histórica e míticas, dada a sua espaventosa decoração, os móveis, os aparelhos de manutenção de humidade, acima de tudo as enormes possibilidades de escolha. Vou continuar a visitá-las em todas as oportunidades e adquirir documentos relativos a figuras e farsas cuja matriz são os charutos. Fumadora deles foi Ana Plácido paixão camiliana, outras musas de igual quilate e maior estridência adoravam o fumo e o seu espevitador cheiro. Inúmeros poetas e não poetastros consagraram nos seus poemas tais particularidades.

Os charutos deram, dão e continuarão a dar preciosa ajuda a criadores de todos os quilates, sem o seu auxílio criações e inovações de múltipla espécie não teriam sido concebidas tal como as conhecemos e admiramos, o Groucho Marx ficaria diminuído na acutilância, o Mestre Alfredo de a Cortina Rasgada não teria realizado tantos e tão importantes filmes.

Pois, é verdade, não há bela sem senão, os charutos produzem catarros e entupimentos no coração, perante a evidência de o corpo estar a sofrer prejuízos cuja causa reside nas baforadas sou obrigado a renunciar a reduzir a cinza os charutos. Assim fosse possível reduzir a dívida pública! Até a Doutora Teodora Cardoso ficava contente. Adeus, adeus charutos.

PS – Consola-me a crença de em três efemérides anuais quebrar a regra.

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