Abrantes | Uma Cabeça Gorda entre o Zêzere e o despovoamento

Cabeça Gorda, Abrantes. Foto: mediotejo.net

Porventura poderemos afirmar que Portugal é um país de Cabeças. Outras há espalhadas por esse interior dentro. Uma delas até é freguesia do concelho de Beja. Esta Cabeça Gorda, na União de Freguesias de Aldeia do Mato e Souto, em Abrantes, configura-se numa pequena localidade no serpentear do curso do rio Zêzere e é banhada pela Albufeira de Castelo de Bode. O seu topónimo é referido no Livro de Registo das Decimas da Câmara Municipal de Abrantes, de 1707. As belas paisagens sobre montes e espelhos de água são uma constante. A rarear, só mesmo as pessoas.

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Cabeça Gorda é um lugarejo com um topónimo curioso, mas algo repetitivo por esse Portugal fora. Até mesmo no concelho de Abrantes há mais Cabeças, como Cabeça Ruiva na freguesia de Fontes, e outras entretanto desaparecidas como Cabeça da Atalaia em Tramagal, Cabeça Alta igualmente em Tramagal, ou Cabeça Aguda em Martinchel.

Esta família toponímica (cabeça, do latim caput) “pode considerar-se de interesse histórico, já que frequentemente alude a épocas de dominação recuadas, caindo na alçada da toponímia casteleja ou castreja”, escrevem Eduardo Campos e Joaquim Candeias Silva no ‘Dicionário Toponímico e Etimológico do concelho de Abrantes’.

Cabeça Gorda, freguesia de Aldeia do Mato, Abrantes.

No fundo, Cabeça não é mais que Cabeço sendo este último a sua masculinização, não diferindo semanticamente desta. Todavia, explicam os autores “se analisarmos a distribuição nacional dos topónimos, verificamos facilmente que cabeço domina sobretudo no sul do País, enquanto a forma feminina predomina exclusivamente ao norte, o que deve ser interpretado, certamente, como uma questão de épocas de dominação. Os cabeços serão, portanto, mais recentes de um modo geral”.

Maria Rodrigues, de 87 anos, é natural de Cabeça Gorda, nascida no sítio da Portela. “Éramos sete irmãos só já somos três” conta ao mediotejo.net. Apesar da sua idade avançada não apresenta explicações para o topónimo.

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Recorda, no entanto, as conversas dos mais antigos dando conta que Cabeça Gorda nasceu “ao fundo da Rua da Albufeira onde há uma casinha velha, à esquerda, onde morava o senhor José Pico”, provavelmente sem nenhuma ligação ao caso do nome que foi dado ao lugar.

E lembra que em Cabeça Gorda “criou-se muita gente vinda de muitos lados” como Castelo Branco, exemplifica, aludindo a hipotéticas e variadas razões que podem ter sido trazidas de longe e talvez justificar o topónimo. “Isto hoje é um Brasil, para quem tem um emprego, dinheiro e saúde, é rico. Pode-se acreditar! Fui criada pela minha madrinha desde os três anos, por esta não ter filhos, e ainda assim foi sempre uma vida pobre de privação. E ninguém, seja rico ou pobre, queira ser criado apartado dos pais”, desabafa.

Encontramos Maria num local idílico, onde o olhar se perde ora no serpentear das águas azuis do rio ora nos declives pintados em verde e amarelo. A octogenária falava de uma vida dura, de trabalho agrícola, numa terra de penhascos e socalcos. Por isso, não raras vezes os topónimos evocam o espírito comunitário próprio do ambiente rural, onde o trabalho e a brincadeira, muitas vezes combinados, resultam em cantorias com expressão popular e lúdica, destinadas a atenuar a dureza das tarefas.

“A minha vida e dos outros foi muito complicada” garante a idosa. Sem água canalizada iam buscá-la “a uma fonte do lado de baixo do caminho” diz apontando para um local inclinado. Mas era muita gente e era preciso muita água e todos tinham muitos animais. Tudo criava porcos, gado, burros”, recorda.

Cabeça Gorda, freguesia de Aldeia do Mato, Abrantes.

Tal dureza de vida, comprovada no presente pelas dores que sente nas pernas ajudadas por dois cajados na locomoção diária, afastou-lhes os pensamentos para casar até aos 19 anos, depois lá se rendeu aos encantos do serrador, António Francisco, conhecido como Tonho da Vagem, sobrinho da madrinha.

“Não queria casar porque sempre vivi muito mal e a minha ideia era ir para um hospital trabalhar onde me dessem de comer até ao resto da vida. Nunca fui à escola, porque as mulheres não precisavam de ler. Uma rapariga para que ia estudar? Não era obrigatório. Era um estupidez grande, não era? Mas cumpriu-se. Nunca aprendi a ler. Algumas raparigas da minha idade aprenderam mais tarde, com os filhos, mas o meu ainda não tinha 12 anos foi para Lisboa aprender a carpinteiro”, justifica Maria.

A presença humana por terras hoje pertencentes à União de Freguesias de Aldeias do Mato e Souto remonta à proto-história, ou seja, entre os cinco mil e quatro mil anos Antes de Cristo. Contudo, apesar dos vestígios arqueológicos não é possível afirma a existência de um povoamento.

Como certo, até por via de documentação existente, é o lugar de Aldeia do Mato no século XIII. Por essa altura, seria um pequeno casal sob alçada da Ordem de São João do Hospital, mais tarde designada de Ordem de Malta.

Nesta região, a presença dos frades hospitalários deveu-se a Dom Sancho I que, em 1194, doou um extenso território entre o Zêzere e o Tejo, as terras de Guidintesta, com a obrigação de edificarem aí um castelo (Belver) e defenderem a área.

Na Aldeia do Mato, a Ordem detinha a igreja, alguns pedaços de terra e vários privilégios que se estendiam aos residentes. Ainda assim, os números confirmam que, apesar das regalias, que os livrava de sisas, fintas e portagens, foi sempre pouco povoada.

Cabeça Gorda, freguesia de Aldeia do Mato, Abrantes. Maria Rodrigues tem 87 anos e sempre viveu na povoação.

No primeiro recenseamento do País (1527-32) a Aldeia do Mato tinha 15 moradores ou vizinhos ou seja 15 famílias ou casais. A baixa densidade demográfica motivada pela orografia de uma das freguesias de Abrantes mais declivosas, originou a formação de pequenos aglomerados dispersos pelos solos férteis dos vales, sendo o número de pessoas condicionado pela capacidade agrícola dos solos. Atualmente, o princípio é o mesmo, sendo o despovoamento uma consequência da falta de emprego que fixe populações.

Ora Cabeça Gorda alude a uma implantação em terreno elevado. Os habitantes dividem-se em Portela, Malhadeira, Casal Cimeiro e Casal do Além. Portela diminutivo de ‘porta’ é um topónimo comum, que assinala uma passagem estreita entre montes.

Relativamente à Malhadeira, remete para uma eira onde era malhado o cereal. Quanto à expressão Casal foi bastante vulgar na Idade Média, sobretudo a norte do Tejo. Refere-se a uma unidade de exploração agrícola, com habitação e dependências de apoio, geralmente, pertencentes a uma única família. Terá estado na origem do povoamento da Cabeça Gorda, explica a publicação ‘Abrantes, Muito mais para Descobrir nas Freguesias’ .

Assim, após passarmos por Carreira do Mato encontramos Cabeça Gorda. Configura-se numa pequena localidade no serpentear do curso do rio Zêzere e é banhada pela Albufeira de Castelo de Bode. O seu topónimo é referido no Livro de Registo das Decimas da Câmara Municipal de Abrantes de 1707. As belas paisagens sobre montes e espelhos de água são uma constante, a rarear só as pessoas.

Cabeça Gorda, freguesia de Aldeia do Mato, Abrantes.

A povoação tem cerca de 30 habitantes. “Morreu muita gente, não está aqui ninguém”, afirma Maria, que passa os dias solitária na contemplação do Zêzere do alto de um terreiro em frente à sua casa. Conta que teve uma holandesa por vizinha, “muito boazinha”.

Também vizinhos esporádicos como os que chegaram no ano passado, na época dos incêndios. “Queriam comprar uma casinha. Este ano vieram novamente, mas a casa estava alugada. Foram para Carreira do Mato”.

A propósito dos incêndios, ainda recorda os últimos, quando a povoação foi evacuada devido ao fogo, ficando Maria e outros conterrâneos alojados junto à Capela de Carreira do Mato. Contudo, os fogos não são fenómeno moderno. Recorda um, vindo dos lados do Paul, em que estava a lavar a roupa no rio e tive de fugir. “Íamos até Carreira do Mato, acartar água com um cântaro para apagar o lume”.

Das diferenças trazidas pelo tempo que não pára de correr, conta os costumes e o próprio rio Zêzere. Na sua juventude “havia em Cabeça Gorda muita gente. A minha vizinha tinha cinco filhos, ao lado outra com quatro e era tudo assim”, recorda.

Maria Rodrigues casou no ano de inauguração da Barragem de Castelo de Bode (1951). O Zêzere “ficava lá no fundo, onde também passava uma ribeira. O rio era muito diferente do que é hoje” garante olhando os cabeços.

“Tudo quanto se vê era cultivado. Não havia eucaliptos, só oliveiras”, com colheitas anuais de “18 fangas que apanhava azeitona até ao Natal. Muito frio, muita geada, muitas hortas cultivadas até ao rio, regadas pelas ribeira. De manhã íamos com gado para um lado e à tarde íamos para a ribeira dar de beber ao gado”, conta.

Com a construção da Barragem “o terreno ficou afogado com a subida das águas do rio. Havia um moinho dentro da ribeira, ficou debaixo de água, havia uma azenha do lado de Vila Nova e outra deste lado de um senhor que era da Malhadeira, ficou tudo debaixo de água”.

Cabeça Gorda, freguesia de Aldeia do Mato, Abrantes. Nas instalações do Grupo Cultural Recreativo e Desportivo de Cabeça Gorda, José Rodrigues (ao centro) mata o tempo a jogar dominó.

Na mesma publicação ‘Abrantes, Muito mais para Descobrir nas Freguesias’ encontramos também a explicação sobre o topónimo de Castelo de Bode. A história justifica o topónimo recuando no tempo até 1206. Data de um acordo entre a Ordem do Templo e o Priorado do convento de Santa Cruz de Coimbra, que estabelecia as regras para a atividade piscatória no rio Zêzere, do “porto de calabares até ao Pego de Capris”. Por evolução linguística o pego de Capris terá dado lugar a Porto de Cabras e, finalmente, Castelo de Bode.

No entanto, a narrativa popular apresenta outra explicação, igualmente remota. Com variantes de aldeia para aldeia, mas todas envolvendo bodes em penhascos. Contou António Francisco, nascido em Carreira do mato em 1930, àquela publicação que “há muito tempo foi avistado um bode no cimo de um penedo escarpado. Inexplicavelmente, o animal desapareceu por uma passagem estreita, que daria acesso a um abrigo, ao castelo de bode”.

No lugar de Cabeça Gorda “só há pouco tempo é que as ruas têm nomes e as casas têm números”, revela Maria. E o que mais lhe custa no olhar em redor é o isolamento e a falta de animação.

“As pessoas novas estão fartas de ver coisas, fartas de ouvir, vem uma festa nem ligam. A gente tinha uma festa era o fim da vida. Quem é que sabia o que era um telefone ou uma televisão? Chegava a festa valia pela vida! Trabalhávamos de sol a sol. Às tantas da madrugada abalava, às tantas da noite chegava a casa. Mas éramos divertidas! Num qualquer carreiro ou num terreno mais limpo e logo nos punhamos a bailar. Agora cantava eu, depois a outra, depois a outra. Era assim”.

Cabeça Gorda, freguesia de Aldeia do Mato, Abrantes. Instalações do Grupo Cultural Recreativo e Desportivo de Cabeça Gorda

A falta de gente e da antiga solidariedade dentro da comunidade. Uma rapariga do seu tempo, “quando fez a casa dela, andava de noite a tirar água à picota para os pedreiros trabalharem no outro dia. A areia era retirada das estradas, todas em terra sem alcatrão.

Vinham as enxurradas de água e nas valetas ficavam montes de areia, essa areia era rapada e acartada em tabuleiros pelas raparigas que à noite juntavam-se para ajudar aquela que andava a fazer a casa. O barro era cavado num sitio qualquer para juntar à areia que se apanhava nas estradas. Ia-se buscar a cal de barco a Martinchel, com o barro à cabeça … não desejo ao meu maior inimigo as dificuldades de outros tempos. E passou-se tudo”, refere.

José Rodrigues de 66 anos, o único filho de Maria, passou a vida em Lisboa, agora praticamente na reforma, com casa na aldeia, entretém-se no Grupo Cultural Recreativo e Desportivo de Cabeça Gorda, com instalações inauguradas em 2018 e vista privilegiada sobre o Zêzere. Ainda recorda a escola da povoação, quando saiu com 11 anos, a contabilizar 42 alunos.

Cabeça Gorda terá atualmente “quatro crianças, sendo duas já adolescentes, que estudam em Abrantes. A mais pequena frequenta a escola básica de Rio de Moinhos. E só este ano em Cabeça Gorda faleceram 7 pessoas. Nem todos eram residentes mas eram todos naturais”, explicou ao mediotejo.net o presidente da União de Freguesias de Aldeia do Mato e Souto, Álvaro Paulino.

Resta a esperança de que gente de fora, perante a beleza paisagística e o sossego do local, se apaixone pelo campo e arrisque investir, não sejam os preços desproporcionados, na compra de casas para habitar – que muitas delas caem por terra ao abandono – “pelo menos ao fim-de-semana ou nas férias”, refere José. À semelhança de outras zonas do País, talvez o turismo ainda chegue a Cabeça Gorda.

Cabeça Gorda, freguesia de Aldeia do Mato, Abrantes. As marcas do tempo e do despovoamento, com algumas casas a serem compradas por gente de fora da terra.

*Reportagem publicada em outubro de 2018, republicada em setembro de 2019

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1 COMENTÁRIO

  1. BOA NOITE

    COMO PRESIDENTE do grupo desportivo quero lançar um desafio a todos residentes,socios e simpatizantes do grupo Desportivo Cabeça Gorda,vamos todos aproveitar as nossas boas instalções,das melhores do nosso Concelho.COMO aproveitar estar mais presente na vida do grupo para cada vez sermos maiores.
    E já agora que a nossa presidente e todo o setafe municipal se lembrem mais da Cabeça Gorda,na qual inclui a nossa união de freguesias ALDEIA DO MATO SOUTO.UM ABRAÇO A TODOS

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