Abrantes | Um ano sem São Pedro, futuro do Cineteatro continua incerto

A CM de Abrantes entregou as chaves do teatro São Pedro aos seus proprietários no final de janeiro de 2018. Foto: mediotejo.net

O Cineteatro São Pedro está de portas fechadas há um ano. Não é a primeira vez mas aquela que já foi considerada “a melhor sala de espetáculos da região”, única no concelho de Abrantes, faz parte da história da cidade. A data de reabertura permanece, no entanto, uma miragem enquanto o edifício encerra um futuro incerto. As negociações entre a sociedade Iniciativas de Abrantes, proprietária do imóvel, e a Câmara Municipal prosseguem com os sócios a manifestarem interesse em vender e o Município a manifestar interesse em comprar. O desentendimento é uma questão de números.

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Encerrado desde o dia 30 de janeiro de 2018, quando a sociedade Iniciativas de Abrantes Lda. decidiu assumir a gestão do imóvel quase duas décadas após cedência à Câmara Municipal de Abrantes, permanece incerto o futuro do Cineteatro São Pedro. Um ciclo de aberturas, fechos e recomeços sem aparente solução definitiva em vésperas da sala de espetáculos completar 70 anos.

Terminara dois dias antes o contrato de comodato de cedência do Cineteatro São Pedro que a CMA mantinha através de um protocolo com a sociedade comercial, proprietária da sala de espetáculos. O contrato havia sido celebrado por um período de 19 anos, com gestão municipal do imóvel, visando a reabilitação do teatro.

Em 1999 a Câmara assumiu, em parceria com o governo central, a reabilitação do imóvel que, segundo explicou ao mediotejo.net o vereador Luís Dias, “estava em estado de ruína”. A sociedade Iniciativas de Abrantes, Lda, reunida em Assembleia Geral de 28 de janeiro de 2018, recusou as propostas apresentadas pela autarquia. O espaço tem estado encerrado desde então, com as duas entidades em negociação mas sem acordo.

Este domingo, 27 de janeiro, a sociedade Iniciativas de Abrantes reunida em Assembleia Geral voltou a tomar posição perante a última proposta enviada pela Câmara Municipal.

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Mantendo a intenção declarada de comprar o Cineteatro, a autarquia propôs “um novo contrato de comodato, não oneroso” havendo intenção da Câmara de assumir as benfeitorias indicadas no Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Abrantes, admitiu Luís Dias, sem confirmar, no entanto, que a proposta previa a celebração de um contrato por um período de 50 anos.

Quando questionado, o vereador responsável pelo pelouro da Cultura lamentou que o Cineteatro tenha perdido “a sua função principal de servir a população” e afirmou desconhecer a posição dos sócios, aguardando a decisão da Assembleia Geral.

Mas o mediotejo.net sabe que os sócios decidiram propor à Câmara a venda do imóvel. O representante da sociedade comercial, José Alberty, disse ao nosso jornal que a sociedade Iniciativas de Abrantes recusa o valor já proposto pelo Município, que se cifra em 267 mil euros.

Sem avançar com o valor preciso da contraproposta garantiu estar “abaixo do valor” resultante da avaliação do imóvel pelo Município – 844 mil euros -, em setembro de 2017, contemplando todas as benfeitorias que a Câmara recusa pagar. A proposta deverá ter seguido para a autarquia esta terça-feira.

A Iniciativas de Abrantes considera que “não tem de pesar” no valor proposto o trabalho de manutenção e requalificação do Cineteatro ao longo destes 19 anos, aquando assumiu a gestão do equipamento, através de um outro contrato de comodato de 2001, alegando que no contrato está “referenciado que todas as obras e benfeitorias, no fim do contrato, reverteriam para a sociedade”.

Abrantes | Um ano sem São Pedro, futuro do Cineteatro continua incerto
O vereador Luís Dias (à direita) e a presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque, durante uma reunião de Executivo. Foto: mediotejo.net

Ora, o vereador Luís Dias confirma que “reverteram”. Já antes de 2001 “a Câmara investiu 450 mil euros na reabilitação daquele espaço, uma das benfeitorias salvaguardadas no âmbito do anterior contrato de comodato. Além disso, “todo o investimento que tem sido feito naquele equipamento nas últimas duas décadas e que ultrapassam claramente um milhão de euros, com dinheiros públicos. Aquando do fim do contrato, em janeiro de 2018, assim foi feito”, explicou.

Entretanto, a Câmara pediu uma avaliação realizada “por um técnico externo, tendo por base os referenciais da Autoridade Tributária, que avaliou aquele imóvel em 267 mil euros” disse.

Por seu lado, José Alberty afirmou ao mediotejo.net que os sócios “não pedem um valor real mas um valor que seja digno do imóvel” para que o Cineteatro São Pedro “esteja ao serviço da comunidade de Abrantes. Aliás foi essa a intenção da sua construção pela sociedade Iniciativas, uma sociedade filantrópica que dotou a cidade de equipamentos que nos anos 1940 não existiam. O espírito da sociedade mantém-se o mesmo”, assegurou.

Segundo o representante da sociedade comercial, que nesta última Assembleia Geral foi novamente nomeado como negociador, a reunião juntou “praticamente a totalidade do capital e foi mais uma vez manifestada esta intenção”.

A proposta de venda resume-se à “única hipótese” isto porque, segundo explica, “arrendamento, a Câmara recusa por não poder concorrer a subsídios comunitários. Comodato, como a Câmara propôs de 50 anos é completamente impossível, até porque a sociedade Iniciativas nunca teve lucros, como disse, é filantrópica, e não tem dinheiro para manter esta sociedade durante 50 anos. Era deixar um encargo para as gerações vindouras”, notou Alberty.

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Imagem do livro ‘Abrantes Cidade – Análise Crítica do arquiteto José de Santa-Rita Fernandes’, onde se vê a localização do Cineteatro São Pedro. Foto: mediotejo.net

José Alberty assegurou existirem condições legais de alienação e “sócios avalizados” para a venda. O que não pode ser “é a Câmara avaliar em 844 mil e oferecer 267 mil, uma proposta muitíssimo baixa invocando o que gastou durante 19 anos de cedência do Cineteatro por comodato”, defendeu, mantendo “interesse e esperança” que a situação se resolva brevemente, contrariando a posição da Câmara: “Não tem pressa e diz ter alternativas”, afirmou o representante da sociedade.

A regularização de algumas situações internas prende-se com o facto de “alguns sócios que nunca legalizaram as quotas há 50 e 40 anos. Mas há um grupo que legalizou e tem quórum. Seria mais cómodo para os sócios tentar que mais alguns sócios se legalizassem mas nada impede que se ponha o Cineteatro em funcionamento. Se quiserem chegar a um acordo, ao qual estamos abertos, imediatamente entregamos o São Pedro à Câmara, e nós, sociedade, resolveremos os problemas internos”, assegura.

Relativamente ao encerramento do Cineteatro dá conta de um “lamento unânime” dos sócios. A sociedade “dá total prioridade à Câmara na aquisição. Podemos auscultar outras entidades e é capaz de haver algumas entidades a quem não nos interesse vender, mas não sei porquê, não auscultei. A continuar nesta situação, alguma decisão terá de ser tomada sobre o imóvel que não pode continuar fechado e a degradar-se”, frisou.

Vinca José Alberty que teria sido “apreciado muito que a Câmara passados 19 anos de ter o Cineteatro cedido sem qualquer contrapartida em vez de fazer uma oferta especulativa tivesse feito um agradecimento à sociedade pelo seu ato. Finalizado aquele prazo, nessa altura, talvez tivéssemos conseguido alguma forma de prolongamento o contrato, não sei… mas as coisas começaram de uma maneira um bocadinho difícil. Estou na minha missão de tentar pôr o Cineteatro ao serviço da população de Abrantes que é essa a intenção dos sócios da sociedade Iniciativas”.

Recorda-se que, por ocasião de uma reunião de Câmara, Maria do Céu Albuquerque em resposta ao vereador do PSD, Rui Santos, assegurou que o Executivo deixará arrastar a situação de encerramento do Cineteatro São Pedro “o tempo que for necessário” até o Município comprar, arrendar ou celebrar um contrato de comodato no sentido de “não colocar em causa a Câmara ou o manifesto interesse público”.

Abrantes | Um ano sem São Pedro, futuro do Cineteatro continua incerto
A CM de Abrantes entregou as chaves do teatro São Pedro aos seus proprietários no final de janeiro de 2018. Foto: mediotejo.net

Um edifício histórico e Ruy Jervis de Athouguia

Em 19 de fevereiro de 1949 é inaugurado o Cineteatro São Pedro da autoria do arquiteto Ruy Jervis de Athouguia – a construção do edifício é da responsabilidade do engenheiro Manuel Travassos Valdez -, com a representação da peça ‘Outono em Flor’ de Júlio Dantas, pela companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, do Teatro Nacional D. Maria II. As sessões de cinema iniciavam-se no dia 22 com a projeção do filme ‘A Dama de Arminho’.

“No decurso do Estado Novo, apesar das restrições das liberdades impostas por um regime de cariz autoritário, surgiram em Abrantes várias infraestruturas que a transformaram numa localidade mais moderna e desenvolvida. Manuel Luís Fernandes, médico que se estabeleceu na cidade ainda na década de vinte, onde se aproximou inclusivamente em termos familiares, da família Moura Neves, foi um dos principais agentes desta renovação.

O Dr. Manuel Fernandes, a 3 de maio de 1937, inaugurou a Casa de Saúde de Abrantes, onde passou a exercer a sua atividade profissional. O entusiasmo pela sua terra de adoção, levou-o a conjugar esforços e conjuntamente com um grupo de abrantinos ilustres, designado Iniciativas de Abrantes, criado em 1943, efetivou diversas obras de vulto.

A 13 de outubro nasceu o Colégio de Nossa Senhora de Fátima, para educação feminina, a 19 de fevereiro de 1949 foi inaugurado o Cineteatro São Pedro, considerado na altura a melhor sala de espetáculos da região. Já em 1954, abriu as suas portas o Hotel Turismo de Abrantes”, lê-se no livro ‘História Breve de Abrantes’, numa edição do Município escrita por vários autores.

Na noite de inauguração, faziam parte da companhia de Amélia Rey Colaço atrizes como Palmira Bastos, Maria Matos, Luz Veloso, Maria Corte Real e os atores Raul de Carvalho, Samwel Diniz e Paiva Raposo, com a peça em três atos do escritor abrantino Francisco Mata ‘A vida é um jogo’, noticiou o Jornal de Abrantes. No entanto, a ‘Cronologia de Abrantes do Século XX’ refere a peça ‘Outono em Flor’ de Júlio Dantas. A seguir realizou-se um baile no salão do teatro, onde tiveram ingresso todos os espectadores com traje de soirée.

Após alguns anos encerrado o Cineteatro contou, no virar do século, com obras de recuperação. Reabriu ao público em junho de 2001, com uma sala de 561 lugares.

“A linguagem arquitetónica utilizada situava-se entre a referência a um primeiro modernismo e um racionalismo italiano de linhas mais pesadas e puristas. Mostra delicadeza numa projeção para o exterior através de palas de betão armado e volumes que diferenciam funções. O projeto e obra de recuperação foram cofinanciados pelo Programa Operacional da Cultura” dá conta o livro ‘Lisboa e Vale do Tejo – Reabilitação do Património e Arte em Rede’.

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Cineteatro São Pedro, interior. Fotografia publicada no livro ‘Lisboa e Vale do Tejo – Reabilitação do Património e Arte em Rede’

Tendo em conta o valor arquitetónico, patrimonial e histórico do edifício a primeira pergunta que talvez devesse pairar na cabeça dos abrantinos é: Quem foi Ruy Jervis de Athouguia? Pelo menos, seguindo a linha de pensamento de Lurdes Martins, professora e presidente da Associação Cultural Palha de Abrantes.

“A obra daquele arquiteto estar naquelas condições não lembra ao diabo!” afirma, indignada. “É pena que não haja uma companhia avulso no País que faça deste espaço algo autónomo, mas que seja utilizado”, refere, ao mesmo tempo que interroga: “Mas é isso que a cidade deve fazer?”. A resposta de Lurdes Martins é negativa.

Contando muitas outras obras notáveis, o arquiteto Ruy Jervis de Athouguia, juntamente com Alberto Pessoa, Pedro Cid, Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto, ganhou o Prémio Valmor 1975, pelo conjunto arquitetónico: Sede, Jardins e Museu Calouste Gulbenkian. Mas essa distinção parece não ganhar relevância em Abrantes.

“A cidade neste momento não tem uma sala de espetáculos condigna para receber seja o que for”, considera Lurdes Martins, recusando como “alternativa” os espaços que ao longo do ano 2018 receberam a agenda cultural do Município.

“Fui ver uma peça de teatro ao auditório da Escola Dr. Manuel Fernandes e disse para mim própria que não voltava, aquela sala não tem condições. Mesmo argumentando com a existência de várias salas que permitem espetáculos, não é verdade. Não há uma sala de espetáculos. Os auditórios da escolas não foram criados com esse objetivo. Recebem as conferências da escola, os programas internos, mas não recebem um espetáculo. Não tem condições de cinema, nem de teatro, nem de música, não tem essas valências”, vinca.

Apesar de Abrantes estar há um ano sem a sala do São Pedro, a dirigente associativa lembra que, na verdade, tinha “uma existência muito periclitante há muitos anos. Toda a gente reconhecia os problemas daquela sala, o ar condicionado que não funcionava, quem subia a teia do palco sabia que precisava de obras, eram os acessos ao primeiro balcão e a sala de cima com tacos a sair, as cortinas e os vidros que deixaram de se poder fechar e entravam humidades, tudo isso era visível há 10 anos e nunca foi feito nada”, afirma, classificando essa inércia de “mais grave”.

Para Lurdes Martins “as negociações deveriam ser iniciadas com cinco anos de antecedência. Era expectável que uma negociação destas gerasse um jogo de balança, é legítimo, quer de um lado que de outro”, com a sociedade a ter um interesse particular do espaço e a Câmara o interesse público. “Isto faz-se atempadamente, com rigor e conversa”, opina.

“À medida que as coisas vão passando e vão-se tornando sistematicamente iguais e as pessoas, na sua ação mais política, de opinião, estão desligadas. E à medida que se perdem rotinas de frequências de espaços, é claro que nos vamos desprendendo de determinados problemas. Daqui a dois anos ninguém se lembra do Cineteatro São Pedro tal e qual como a maioria da população já cortou relações com o mercado antigo. As pessoas vão cortando relações afetivas com os espaços por falta de frequência”.

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Lurdes Martins durante a entrevista. Foto: mediotejo.net

Para Lurdes Martins, neste processo, “têm ganho outros espaços que se têm afirmado como recetivos à atividade cultural. Os espaços ganham valor e as pessoas que gerem os espaços ganham valor, e as pessoas que frequentam esses espaços também ganham valor. O vazio é exatamente ao contrário. Acho que hoje as pessoas não se ressentem das coisas, simplesmente desligam e passam para outras, para o telemóvel, para o Facebook, para as redes sociais que são os paliativos e substitutos de tudo”.

Lurdes, natural de Trás-os-Montes, chegou a Abrantes há muitos anos e, sempre envolvida na produção e frequência cultural, manifesta-se triste. “Nunca pensei ver o Cineteatro nesta situação, até porque já esteve encerrado”, disse, recordando a primeira renovação. “Nessa altura pusemos as pernas ao caminho para criar alternativas. O Cineclube Espalhafitas nasceu exatamente disso, aparecemos como uma alternativa. Houve um tempo em que éramos quase a única instituição que fazia coisas no Cineteatro de forma sistemática, tínhamos as quartas-feiras do cinema e com as crianças utilizávamos todas as quintas a sala do primeiro andar, durante anos a fio”.

Sobre a intenção de compra do Cineteatro de Alferrarede por parte da Câmara Municipal, interesse tornado público pela autarquia, Lurdes Martins, embora reconheça que o espaço necessita de renovação, não o reconhece como alternativa. “Uma cidade que não tem uma sala de espetáculos, é uma cidade que não tem valor cultural”.

Para a responsável da Palha de Abrantes, o Cineteatro São Pedro ainda pode cumprir a função de “importante sala do distrito” de Santarém, desde que “haja visão para aquilo que se quer localmente e regionalmente” o que não invalidaria que Abrantes “tivesse uma sala mais pequena”, avaliou, manifestando disponibilidade “para todos pensarmos a cidade em conjunto” e notando “falta de comunicação” da qual dependem “os consensos”.

Abrantes | Um ano sem São Pedro, futuro do Cineteatro continua incerto
João Alexandre, natural de Mação mas há mais de 50 anos a viver na cidade de Abrantes lamenta o “arrastamento do encerramento” do Cineteatro São Pedro

Uma jornada à beira dos 70 anos

Escrevia também o Jornal de Abrantes no dia 30 de janeiro de 1949: “A jornada foi longa e, por vezes, o caminho tornou-se áspero e pedregoso. Mas, quando se é guiado por propósitos claros e honestos e a fé bairrista sobeja, as longas caminhadas por mais difíceis que se antolhem, não conseguem esmorecer as férreas energias, nem abalar o espírito indomável e sereno”.

Desse espírito ainda se recorda João Alexandre, natural de Mação mas há mais de 50 anos a viver na cidade de Abrantes. “Quando era mais novo frequentava o Cineteatro”, lembra, lamentando o “arrastamento do encerramento” da sala de espetáculos, uma “culpa” imputável às duas partes.

“Desagrada-me!”, afirma. Refere os tempos em que o cinema começou a decair, “era pouco e ainda lá funcionou o cineclube do qual era sócio, mas acabou encerrado”. Agora, “dizem que os proprietários pedem muito dinheiro, mas faz falta à cidade uma sala de espetáculos para bailados ou concertos”, observa, esperando que ambas as partes cheguem a acordo para a reabertura, caso contrário “o edifício encerrado e sem manutenção degrada-se e terá custos mais significativos”.

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Maria Fernanda de Oliveira natural de Tramagal veio trabalhar “como criada de servir” para Abrantes teria uns 18 e pela cidade ficou até hoje. Foto: mediotejo.net

Maria Fernanda de Oliveira conta 91 anos, natural de Tramagal veio trabalhar “como criada de servir” para Abrantes teria uns 18 e pela cidade ficou até hoje. Já vivia na cidade quando o Cineteatro “andava em construção”, lembra. Ao encerramento daquela sala de espetáculos, Maria solta um “acabam com tudo!”, partilhando depois um sentimento de nostalgia pelos tempos em que “havia muita coisa”.

Considera “muito importante” a cidade ter “uma sala de espetáculos como aquela, senão morre como já morreu a Cidade Florida. Não há flores nas varandas… sinto muita falta desses tempos”, diz, falando de uma Abrantes com mais vida e animação. “Gostaria de ter ido mais vezes ao cinema do que fui… só que, quando jovem, os recursos eram poucos”, confessa.

Manuel Quintas Marques nasceu em Alferrarede há 84 anos, mas estudou no Colégio de Abrantes e vive na cidade. Falando do São Pedro considera que “instalações como aquelas são imprescindíveis para qualquer cidade, seja grande ou pequena”.

Também recorda o momento em que “as pessoas deixaram de ir ao cinema” gerando alguma falta de viabilidade financeira. Independentemente disso, “faz falta à cidade por uma questão cultural, para acolher espetáculos musicais, de teatro”, nota, considerando que o São Pedro “não pode ser substituído por salas” como o auditório da Escola Dr. Manuel Fernandes.

A solução, a seu ver, “depende do dinheiro que a Câmara tem para investir” naquele equipamento. Contudo, “uma casa daquelas é um centro de encontro”, reforça.

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Manuel Quintas Marques falando do São Pedro considera que “instalações como aquelas são imprescindíveis para qualquer cidade seja grande ou pequena”. Foto: mediotejo.net

Em 1955, na noite de 30 de abril, inaugurava-se na cidade o Cinemascópio no Teatro São Pedro. “Abrantes continua a destacar-se mercê de um grupo de abrantinos, amigos da sua terra, que meteram ombros com coragem e desinteresse, à empresa hercúlea de renovar e modernizar a sua terra. Desta vez, e apesar da cidade possuir já um dos melhores cineteatros da província quis ‘Iniciativas de Abrantes’ que a sua excelente e grandiosa casa de espetáculos fosse a primeira do Ribatejo a introduzir o grande aperfeiçoamento que é o cinemascópio. Não se poupando a despesas e apesar da sociedade continuar com os encargos de uma pesada dívida que não permitirá tão cedo a distribuição de qualquer lucro aos seus sócios, a direção, apoiada pela assembleia geral, resolveu que o cinemascópio viesse a Abrantes antes de ir a qualquer outra terra do Ribatejo”, escrevia o Jornal de Abrantes na edição do dia 8 de maio de 1955.

Sem acordo e sem uso, reconhece o vereador Luís Dias, junta-se o risco de degradação do imóvel, “importantíssimo no Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano”, e que está “referenciado desde há muitos anos como um imóvel a reabilitar em função daquilo que um dia o arquiteto Ruy Jervis de Atouguia desenhou” para esta cidade.

1 COMENTÁRIO

  1. Triste, e penoso é assistir à delapidação de um património edificado, bem como à destruição de uma memória colectiva de muitos abrantinos ou pessoas que como eu, por força das circunstancias acolheram Abrantes para sua terra de Vida! E que maravilhosas memórias vivas das idas ao cinema que nos acompanharam no nosso crescimento como meninos, e na nossa juventude nos tempos do colégio e liceu. Não esqueço os vários espectáculos de teatro e música que ali assisti com muitos amigos e das muitas vezes que por força da hesitação nos foram privados porque os bilhetes estavam esgotados…, “Como não me movimento no meio”, ouço falar e leio  que se fazem investimentos na área da cultura (Creativ Camp, de valor bem superior ao que está em causa em relação à compra do Cineteatro) e que estão projectados outros, que serão sempre de promover uma vez, que todo o investimento em prol da cultura é catalisador e  promotor da génese da alma humana base para uma melhor sociedade e humanidade.
    Porque será este diferendo com os herdeiros da geração benemérita das famílias que em Abrantes fizeram e promoveram a Educação, Saúde a Cultura e a Economia em Abrantes?
    Será que os Senhores Vereadores do nosso Município, bem como o seu respectivo Executivo, não terão essa memória colectiva, uma vezes que fazem parte de uma geração muito nova, e não dão o verdadeiro valor que o Cine Teatro tem para Abrantes?
    Vivo e sinto Abrantes como terra que me acolheu e que acolho e a que agradeço por fazer parte das minhas memórias e emoções intangíveis que fazem de mim e de muitos Abrantinos pessoas que cresceram e vivem Abrantes, e desejam que se valorize o Patrimonio que faz parte do nosso Mundo Afectivo.
    Queremos que se Perpetue com Muitos e Maravilhoso Eventos Culturais, dos Novos Tempos, que Enriqueçam com mais Emoções e Memórias que se Renovem e Recriem nas Gerações Vindouras de Abrantinos

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