Abrantes | Séculos de mapas e cartografia militar em exposição na Biblioteca Municipal (C/FOTOS e VIDEO)

José Manuel d'Oliveira Vieira autor da exposição 'Cartografia Militar de Abrantes - séculos XVIII a XX' patente na Biblioteca Municipal António Botto. Créditos: mediotejo.net

A Exposição ‘Cartografia Militar de Abrantes: Séculos XVIII a XX’, de José Vieira, inaugurada no dia 9 de agosto, na Biblioteca Municipal António Botto, está patente ao público até dia 20 de setembro incidindo esta mostra no período de 1700 a 1927. O trabalho de pesquisa de José Vieira inicia-se “nos tempos da fundação do País em 1143 e já foi até 1832, ou seja à morte de Dom Miguel, tentando perceber tudo o que se passou em Abrantes a nível militar”, desde o que se fazia na tropa até ao que decidiam os governadores. O mediotejo.net conversou com o autor deste notável espólio, um sargento-mor de infantaria, agora na reserva.

Depois de passar à reserva, no ano 2000, José Manuel d’Oliveira Vieira, interessou-se pela história de Abrantes, especialmente militar, publicando artigos no ‘Jornal de Alferrarede’ e no seu blogue ‘CoisasD’Abrantes’. Durante a pesquisa para uma “História Militar de Abrantes”, o acervo “Cartas e Plantas Militares. DIE – Espólio da Engenharia Militar Portuguesa” permitiu-lhe conhecer o trabalho do Real Corpo de Engenheiros, na construção e consolidação de fortalezas e pontes na praça de Abrantes, antes, durante e depois das Invasões Francesas.

Desde a fundação de Portugal que os militares dão forma aos relevos da geografia com pontos topográficos e traçando linhas em cartas, caminhos em mapas, e grande parte deles chegou até hoje num papel amarelado pelo tempo. À Biblioteca Municipal foram entregues 140 peças “mas nem todas estão expostas devido a condicionantes de espaço”, disse José Vieira ao mediotejo.net.

“Outras pessoas tinham interesse no espólio mas eu quis que a exposição tivesse lugar na cidade, porque a mostra é sobre Abrantes”.

Exposição ‘Cartografia Militar de Abrantes – séculos XVIII a XX’ patente na Biblioteca Municipal António Botto. Créditos: mediotejo.net

A exposição apresenta a Cartografia Militar de Abrantes entre os séculos XVIII ao século XX mas o trabalho de pesquisa de José Vieira inicia-se “nos tempos da fundação do País em 1143 e já foi até 1832, ou seja à morte de Dom Miguel, tentando perceber tudo o que se passou em Abrantes a nível militar”, desde o que se fazia na tropa até ao que decidiam os governadores.

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“Abrantes foi um grande centro militar durante o período das Invasões Francesas”, notou, dando conta de um “trabalho enorme ao nível de pesquisa”, que para esta exposição específica terá durado cerca de um ano, e que ainda terá “milhares de documentos para consultar”.

A cartografia agora apresentada, de 1700 a 1927, resulta dessa pesquisa, mostrando a faceta militar da cidade, determinante para a própria fisionomia da vila, ao longo dos últimos 300 anos.

Nela se obtém informações relativas à sua defesa. Fortificações, construções militares, pontos defensivos ou militarmente importantes, pontes sobre o Tejo e a sua defesa, paióis, unidades aquarteladas na cidade, levantamentos do território envolvente e possíveis itinerários de aproximação de inimigos, mas também sobre aspetos colaterais como detalhes toponímicos, construções religiosas e vernáculas de destaque, detalhes de natureza demográfica ou económica.

Exposição ‘Cartografia Militar de Abrantes – séculos XVIII a XX’ patente na Biblioteca Municipal António Botto. Créditos: mediotejo.net

A coleção documenta um suceder de unidades militares de grandes efetivos, portuguesas e estrangeiras, em Abrantes, considerada importante praça de guerra, abrindo caminho à compreensão de um quotidiano marcado por uma sociabilidade fortemente influenciada por esse fator.

José pediu “todos os documentos, a maioria dos expostos são digitalizados, ao Ministério da Defesa, mais concretamente à Biblioteca Digital do Exército” para sua informação e acabou por resultar na exposição, diz.

O objetivo “é dar a conhecer às pessoas inclusive historiadores. Ninguém tem acesso a estes documentos. Por exemplo o Castelo de Abrantes tinha sete cisternas e a população abrantina era obrigada a contribuir com sete cântaros de água para abastecer as cisternas militares”, conta.

VEJA AQUI O VÍDEO:

Abrantes / No dia da inauguração da exposição 'Cartografia Militar de Abrantes' na Biblioteca Municipal António Botto, falámos com o autor José Vieira sobre a importância da Mostra.

Publicado por mediotejo.net em Sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Documentam-se também aspetos relevantes para a logística e apoio às unidades militares e à vila como as 69 cisternas existentes no início do século XIX, os fornos de cozer pão, armazéns e celeiros, hospitais militares, sistemas de esgotos, pormenores construtivos como a engenharia das asnas de madeira ou alçados de portões de ferro, ou detalhes da vida quotidiana dos militares, como as casas particulares assinaladas para o seu aboletamento e o desenho pormenorizado das tarimbas em que dormiam.

“A guerra dos sapatos. Abrantes forneceu muitos sapatos para Napoleão e para Junot e só para Coimbra enviamos em 1928, em maio/junho, à volta de 10 mil pares de sapatos”, refere, a título de curiosidade.

Há ainda, entre outros aspetos, plantas das igrejas e conventos, com a evolução das alterações que foram sofrendo por intervenção da tropa, como é o caso do convento de São Domingos.

Exposição ‘Cartografia Militar de Abrantes – séculos XVIII a XX’ patente na Biblioteca Municipal António Botto. Créditos: mediotejo.net

Grande parte desta cartografia ressalta a existência de um perímetro muralhado que praticamente circundava toda a vila, com várias portas de entrada, e a persistência, durante mais de duzentos anos, de projetos para a sua consolidação, “resultando no confronto com a realidade atual, a constatação de como um cego processo de modernização urbanística levou à sua destruição e consequente perda de significativas marcas visíveis da identidade militar abrantina e, também, do que hoje poderia ser um elevado fator de atratibilidade turística”.

Por isso, ver esta exposição é também uma possibilidade do visitante se interpelar sobre a forma como percorremos os caminhos entre o passado, o presente e o futuro.

José Manuel d’Oliveira Vieira, sargento-mor de infantaria, nasceu em Abrantes em 1947. Fez quase toda a sua carreira militar no Regimento de Infantaria nº2. Durante a guerra colonial foi mobilizado para Angola e Moçambique.

A Exposição ‘Cartografia Militar de Abrantes: Séculos XVIII a XX’ fica patente até dia 20 de setembro de 2019. A entrada é livre.

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