Abrantes | PS chumba recomendações de BE e PSD e futuro do antigo Mercado Municipal “está em aberto”

Edifício do antigo mercado municipal de Abrantes situa-se numa entrada nobre da cidade e está encerrado há alguns anos. Foto: mediotejo.net

A maioria socialista com assento na Assembleia Municipal de Abrantes chumbou duas propostas de recomendação apresentadas pelo BE e PSD para o antigo mercado municipal, edifício situado no centro histórico da cidade, uma para classificação do espaço como de interesse municipal, a outra visando a retirada da decisão de demolição do edifício do Plano de Ordenamento de Abrantes (PUA).

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Em declarações ao mediotejo.net, o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos (PS) disse que “não há projeto nenhum para o antigo mercado” e que “tudo está em aberto” relativamente ao futuro daquele espaço.

Questionado sobre as propostas de recomendação quer dos eleitos do BE, através Pedro Grave, e do PSD, através de João Fernandes, o autarca socialista disse que “estar a qualificar o mercado” (como de interesse municipal), como defendeu o Bloco, “ou tirar o mercado do PUA”, (através de uma revisão parcial do Plano de Urbanização) “é estar a condicionar” o que possa vir a ser discutido no futuro.

“Não há projeto nenhum para o antigo mercado”, reiterou, tendo assegurado que “qualquer projeto será levado a discussão e não será derrubado (o edifício do antigo mercado) sem motivo para tal”.

Questionado pelo mediotejo.net sobre o futuro a dar pelo executivo ao espaço, Manuel Valamatos disse que o mesmo “até pode vir a ser requalificado” tendo assegurado que este é um processo em que “está tudo em aberto”.

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PS chumba recomendações de BE e PSD para antigo Mercado Municipal de Abrantes. Foto: mediotejo.net

As duas recomendações foram chumbadas pela maioria PS, com votos a favor de toda a oposição presente – BE, PSD, e CDU e presidente da Junta de Freguesia de Rio de Moinhos (MIFRM) – e de uma deputada do PS. O presidente socialista da União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós absteve-se.

Contactado pelo mediotejo.net, o eleito do PSD, João Fernandes, disse que, “apesar de votar contra as recomendações, o PS justificou-se com argumentos contraditórios, por um lado desprezando o valor histórico e arquitetónico do edifício (o que, na minha opinião, revela ignorância e insensibilidade) e insistindo que a demolição já tinha sido debatida e decidida no âmbito do PUA. Por outro lado, defendendo um novo debate sobre a utilização a dar ao edifício e alertando (erradamente) para a inconveniência de classificar patrimonialmente o edifício, o que limitaria uma eventual requalificação do mesmo”.

“Esta incoerência argumentativa do PS revela, na minha opinião, um perspicaz (embora atabalhoado) recuo estratégico na posição obstinada e seguidista da maioria PS, porventura por ter já percebido que a maior parte dos abrantinos repudia a decisão de demolir o seu prezado Mercado e poderá, em próximo ato eleitoral, punir os incumbentes por este atentado ao património e identidade coletivos”, referiu o eleito social democrata.

João Fernandes apresentou a proposta de recomendação do PPD-PSD. Foto: mediotejo.net

Já Pedro Grave, do BE, disse ao mediotejo.net que “o PS prendeu-se uma vez mais a tecnicismos para justificar o injustificável e assim chumbar as propostas de recomendação”, tendo defendido existirem “várias razões para o edifício seja considerado como de interesse municipal”, tendo apontado o “efetivo interesse patrimonial e a ligação afetiva dos abrantinos ao espaço, como um dos símbolos da sua cidade”.

“Eleitos do PS chegaram a dizer na Assembleia que nenhum de nós quer demolir o mercado pelo que não se entende o que se pretende fazer, mantendo a demolição no PUA”, disse Pedro Grave, que alertou para a necessidade de “manutenção ao nível de conservação, limpeza e pintura. O atual estado de degradação do edifício não se coaduna como sendo uma entrada digna na cidade”, afirmou.

Pedro Grave apresentou a recomendação pelo BE. Foto: mediotejo.net

Apresentamos as duas propostas na íntegra:

PPD-PSD – Proposta de recomendação denominada:

“Novo Presidente, nova oportunidade para o edifício do antigo mercado diário.”

“No seguimento da recente mudança na Presidência da Câmara Municipal de Abrantes, surge uma nova oportunidade para voltarmos a trazer a debate um dos assuntos de maior relevância para a comunidade abrantina, isto é, a questão da demolição do edifício do antigo mercado diário, pelo que o Grupo Municipal do PPD/PSD Partido Social Democrata na Assembleia Municipal de Abrantes apresenta a subsequente proposta de recomendação:

Analisadas as núperas intervenções do actual Senhor Presidente da Câmara sobre o edifício do antigo mercado diário, verificamos uma abertura para lhe conferir outro destino que não a sua insensata e insensível demolição.

Se atentarmos à intervenção do Senhor Presidente da Câmara na reunião de Câmara do dia 06 de Março de 2019, foi declarado que: “teremos tempo para discutir esse assunto com maturidade e inteligência.”

Pois bem, o PSD de Abrantes, através do seu Grupo Municipal nesta casa da democracia, considera que a presente sessão da Assembleia Municipal é uma excelente ocasião para se iniciar um debate com maturidade e inteligência.

No entanto, para que se discuta o que se pretende para o edifício em causa, assumindo-se sem reservas que se rejeita a sua demolição, há um passo anterior e essencial a dar: rever o Plano de Urbanização de Abrantes (PUA), expurgando-o da previsão de demolição do aludido edifício.

Revisão, essa, que pode ser facilmente antecipada, desde que haja vontade política, não sendo forçoso aguardar os 10 anos previstos para o acto.

É mister, portanto, que se proceda aos necessários actos jurídicopolíticos para reverter a aprovação da demolição do antigo mercado diário.

O Grupo Municipal do PSD de Abrantes exime-se de voltar a elencar todos os factos assentes que não só conferem enorme valor histórico e arquitectónico a este edifício, mas também garantem que se trata de um exemplo de património local de supina relevância para o viver colectivo e para o sentimento de pertença da comunidade abrantina.

Assim, o que importa é passarmos à acção! Importa que o Executivo Camarário, agora liderado por alguém que acreditamos ser mais consciente da importância deste edifício, encete os procedimentos impreteríveis para que o edifício não seja passível de demolição.

De igual modo, como foi proposto pelo Bloco de Esquerda em reunião de Câmara, o Grupo Municipal do PSD reputa de curial a classificação do edifício como imóvel de interesse municipal.

Todavia, passo gradual a passo gradual, cremos que se pode chegar longe, devendo avançar-se com essa classificação depois do PUA ser expurgado da pérfida referência a um derruir deliberado da nossa História.

Ora, porque não é equilibrado salvar um imóvel e não o requalificar, mantemos a nossa ideia de que, se não for possível devolver ao edifício a sua anterior função mercantil, se deve estabelecer um concurso de ideias, dando à comunidade abrantina a hipótese de apresentar as suas sugestões.

Contudo, por força desse gradualismo que estamos a apregoar, não será nesta proposta que voltaremos a sujeitar essa hipótese a votação.

Destarte, o Grupo Municipal PPD/PSD Partido Social Democrata propõe que a Assembleia Municipal de Abrantes, na sua sessão ordinária de 24 de Abril de 2019, delibere recomendar que a Câmara Municipal de Abrantes proceda aos necessários atos jurídicos e políticos para reverter a aprovação da demolição do edifício do antigo mercado diário, revendo o PUA – Plano de Urbanização de Abrantes e expurgando-o dessa previsão, para que, depois, essas alterações também sejam aprovadas em sede de Assembleia Municipal”.

PS chumba recomendações de BE e PSD para antigo Mercado Municipal de Abrantes. Foto: mediotejo.net

Proposta do BE / MERCADO – Proposta de Classificação de Imóvel de Interesse Municipal:

“Nos inícios do século XX a higiene, a conservação dos alimentos e a melhoria das condições para comerciantes e clientes era preocupação das autoridades locais, regionais e nacionais.

Assim, a construção de um edifício coberto, em cimento armado, destinado à venda de géneros alimentícios e concentrando essa venda no mesmo espaço, tornou o mercado municipal de Abrantes, inaugurado a 1 de Janeiro de 1933, um centro incontornável na economia e vida social do Concelho de Abrantes e limítrofes.

O arquitecto, António Jorge Rodrigues Varela, e o engenheiro civil, Jorge de Senna, foram os “artífices” da profunda remodelação iniciada em 1948. Sobre a nova arquitectura, Hugo Nazareth Fernandes, na sua tese, Hermética da Arquitetura, António Varela e o Legado do Invisível, 2009; descreve:

A Remodelação do Mercado Diário de Abrantes (1948) “A «obsessão» modernista de Varela [António Varela] em torno do diálogo entre o «círculo» e o «quadrado» reemerge no caso da sua remodelação do Mercado de Abrantes (1948) e parece revelar a sua preocupação modernista de redefinir o espaço, procurando a sua «concisão» racionalista, sobrepondo-se a uma retórica regionalista da pré-existente.

Aqui, para além do recurso a uma nova estrutura interior composta por pilares e vigas em betão armado, os tectos abobadados com entradas de luz zenitais (invisíveis do lado da fachada de rua) e as leituras sígnicas dos óculos, que se repetem num gesto «quase hipnótico», parecem querer rectificar o desenho das antigas fachadas em tijolo numa interpretação moderna e renovada, revelando a necessidade do autor em conferir uma expressão mais geométrica e abstracta a estes pequenos equipamentos públicos de província.”

António Varela, arquitecto

“António Jorge Rodrigues Varela, professor, pintor e arquitecto, nasceu em Leiria, a 17 de Novembro de 1903. Estudou desenho, na Escola das Belas Artes no Porto com António Carneiro, Acácio Lino e José de Brito e arquitectura com Marques da Silva que concluiu em 1924.

António Varela foi um “quase anónimo” arquitecto modernista português, que ao contrário de outros colegas de profissão, amigos e colaboradores próximos, entre os quais se destacam Almada Negreiros e Jorge Segurado, não se “manifestou”, não se “promoveu” e, aparentemente, não “falou”.

Durante quase toda a década de 30, António Varela e Jorge Segurado, formaram uma dupla sólida de trabalho cujo início parece remontar a 1931 e à Grande Exposição Industrial Português. Em 1933 elaboraram o projeto definitivo da Casa da Moeda. O Plano de uma Cidade Olímpica em Lisboa no Campo Grande, em 1934 é mais um dos inúmeros projectos de ambos. A década de 30 ficou ainda marcada pela divulgação da sua proposta para o Mercado de Coimbra, obra que não foi executada, mas que permite compreender a sua acção na remodelação de equipamentos públicos tais como o Mercado de Peniche (1940) e o Mercado Diário de Abrantes (1948).

A sua obra incontornável é a Fábrica de Matosinhos da Algarve Exportador Lda de Matosinhos (1938) pois caracteriza de forma mais exacta a figura do arquitecto em torno da reflexão entre a Modernidade e marcou indubitavelmente o apogeu do modernismo no panorama nacional da indústria conserveira.

“Merece destaque também a Casa da Rua de Alcolena. Projectada em 1951-1955 integrava onze paredes revestidas de azulejos e um vitral da autoria de José de Almada Negreiros, uma escultura e dez baixos-relevos de António Paiva. António Rodrigues Varela faleceu precocemente a 3 de Julho de 1962, na solidão do hospital, sem avisar a família do estado terminal do tumor que o tinha atingido.”

Jorge de Sena, engenheiro civil

Jorge Cândido de Sena, escritor, professor universitário, tradutor, poeta e ensaísta, nasceu em Lisboa. Formou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia do Porto e desenvolveu a sua carreira profissional (1948-1959) na Câmara Municipal de Lisboa, na Direcção-Geral dos Serviços de Urbanização e na Junta Autónoma de Estradas. Em 1959 partiu para o Brasil, onde fez o doutoramento na área de Literatura Portuguesa (1964). E a partir de então ensinou como catedrático de Literaturas Portuguesa e Brasileira e Literatura Comparada, também nas universidades de Santa Bárbara e de Wisconsin (EUA).

É, hoje, considerado uma das figuras centrais e influentes da cultura do nosso século XX, mas grande parte da sua existência foi vivida no exílio, no Brasil e nos Estados Unidos da América, por oposição ao regime de Salazar e do Estado Novo, que impediram a sua criatividade crítica e de rara frontalidade: Jorge de Sena (1919-1978), autor de “O Físico Prodigioso”, “Sinais de Fogo” e “No Reino da Estupidez”, morreu há 37 anos, a 4 de Junho, no seu refúgio de Santa Bárbara (Califórnia).

Muitos mais caberá na caracterização, nas vivências, na importância para tantas e tantas gerações deste legado da história recente de toda uma região que é o edifício do antigo Mercado Diário de Abrantes.

Assim, a Assembleia Municipal de Abrantes reunida em sessão ordinária no dia 24 de Abril de 2019, recomenda ao executivo da Câmara Municipal de Abrantes que mova as diligências necessárias para classificar de imóvel de interesse municipal, o edifício conhecido como antigo “Mercado Diário de Abrantes”

EDIFÍCIO ANTIGO MERCADO DIÁRIO  PROPOSTA CLASSIFICAÇÃO INTERESSE MUNICIPAL

“- Face a alterações importantes no executivo camarário, nomeadamente com um novo Presidente;

– Pelas palavras e acções do mesmo, que criaram expectativas positivas relativamente à sua razoabilidade e diferente sensibilidade para assuntos que muito preocupam os Abrantinos;

– Também acreditamos que a maior parte da bancada do P.S. sabe a importância patrimonial do edifício do antigo Mercado e não quer ficar ligado à sua perda;

– Por tudo isto e mais pelos bons exemplos de muitos municípios, que reconverteram os seus mercados de modo a torná-los interessantes factores de atracção e desenvolvimento, voltamos a trazer à discussão o futuro do edifício do antigo Mercado Municipal, com a esperança de que o bom-senso da maioria prevaleça e a proteção deste importante marco patrimonial seja garantida pela Classificação de Imóvel de Interesse Municipal que hoje aqui propomos”.

Utilização a dar ao antigo edifício do mercado municipal de Abrantes tem gerado troca de ideias e argumentos entre os eleitos. Foto: mediotejo.net

 

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