Abrantes | Padre alega inocência, antigo técnico assegura que recebeu ordens expressas

Padre José da Graça alegou inocência na 1ª sessão, antigo técnico assegura que recebeu ordens expressas. Foram ambos condenados com penas suspensas. Foto arquivo: Rede Regional

O pároco de Abrantes acusado de burla disse hoje, em tribunal, que desconhecia a falsificação de inscrições de utentes para obtenção de apoios do Estado, mas o técnico que responsabilizou por esses atos reafirmou ter recebido ordens expressas suas.

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O padre José da Graça, que preside ao Centro Social Interparoquial de Abrantes (CSIA), e o antigo técnico, Pedro Moreira, que foi coordenador do Projeto Homem, para tratamento e reinserção de toxicodependentes, começaram hoje a ser julgados no Tribunal Judicial de Santarém pela prática, em coautoria, de um crime de burla tributária, de um crime de burla qualificada e de um crime de falsificação, todos na forma continuada.

No depoimento inicial, o pároco declarou não se “rever” no processo, elencando as inúmeras atividades que desenvolve e a impossibilidade de tudo controlar não só no CSIA – instituição que, além do Projeto Homem, tem várias outras valências de apoio a idosos e a crianças -, como também nas duas paróquias em que presta serviço, pelo que fez da “confiança” a “base” da sua vida.

Contudo, o antigo técnico da instituição, que, depois da sua demissão, em julho de 2012, denunciou as alegadas inscrições fraudulentas de utentes para que o CSIA recebesse sempre os “apoios máximos” do Estado, confessou ter praticado os atos que constam da acusação do Ministério Público, mas assegurou tê-lo feito obedecendo a ordens do presidente do CSIA e diretor técnico do projeto, que queria “a casa cheia”.

O antigo técnico declarou estar arrependido, tanto por ter participado na falsificação como por não ter feito a denúncia mais cedo. Foto: Rede Regional

No seu depoimento inicial, o antigo técnico afirmou que o padre “controlava tudo, tinha interferência em tudo” e que o Projeto Homem, que, no início, “entusiasmou” todos, acabou por se “tornar numa máquina de fazer dinheiro”.

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O presidente do CSIA assegurou que se “limitava a assinar” as listagens que lhe eram apresentadas, não tendo forma de confirmar se os utentes que nelas constavam estavam ou não na instituição.

Acrescentou que, apesar de a instituição ter devolvido a verba reclamada pelo Ministério da Solidariedade e Segurança Social (perto de 150 mil euros), ainda hoje “não acredita” que o caso tivesse “a dimensão” que lhe foi atribuída, lamentando que não lhe tenham sido facultados os dados concretos para fazer a sua verificação.

O antigo técnico declarou estar arrependido, tanto por ter participado na falsificação como por não ter feito a denúncia mais cedo, justificando a sua atuação com a preocupação de assegurar o seu posto de trabalho e os dos outros membros da equipa.

Segundo disse, não ganhou nada com esse procedimento, tendo sim “a vida destruída”.

Este arguido confirmou ter inscrito nas listas a enviar para o Ministério da Saúde, relativas ao Centro Terapêutico, pessoas que estavam presas, que já tinham abandonado o projeto, que eram alcoólicas, sofriam de doenças do foro mental ou eram simplesmente sem-abrigo e foram registadas como toxicodependentes.

Quanto aos processos relativos aos três apartamentos de reinserção, comparticipados pelo Ministério da Solidariedade e Segurança Social, afirmou terem sido elaborados pela secretária do pároco, com o conhecimento deste.

O seu advogado afirmou que “faltam arguidos neste processo”, já que o antigo técnico não terá sido o único a elaborar as listagens de utentes.

Uma das intervenções deste mandatário levou a juíza a interromper a audiência “para acalmar os ânimos”, pedindo “serenidade” e “respeito” pelo Tribunal.

A próxima audiência está marcada para o próximo dia 30.

 

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