Abrantes | O mosaico harmonioso do filme “Harmos” (entrevista)

Lurdes Martins. Foto. mediotejo.net

A Harmonia pode ter muitas formas e, por Abrantes, tem a do mosaico criado pelo coletivo de crianças e jovens do concelho no filme “Harmos”. A curta-metragem de animação conquistou prémios na Festa Mundial da Animação e do Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação em novembro e deu visibilidade ao trabalho da Associação Palha de Abrantes e do Cineclube Espalhafitas. Quisemos descobrir de que é feito este mosaico harmonioso e Lurdes Martins, presidente da associação, mostrou-nos as peças.

PUB

A associação Palha de Abrantes há muito que conquistou a maioridade. No ano de 2015 celebrava duas décadas de existência e o cinema juntou-se às diversas áreas culturais em que tem desenvolvido o seu trabalho quando ainda frequentava a “primária”. Estávamos em 2002 quando surgiu o Cineclube Espalhafitas e os dois anos iniciais de exibição acabaram por evoluir para o projeto “Há Cinema na Aldeia”.

Pouco depois, nova evolução e surgia o Animaio – Festival de Cinema de Animação, que em 2018 descobriu no 13 um número da sorte. A nova edição, marcada para as 15h00 deste sábado, dia 8, integra a exibição das curtas-metragens de animação que integram o filme “Harmos”, premiado no passado mês de novembro com os prémios da Festa Mundial da Animação, na categoria Oficinas, e de Jovem Cineasta Português, no Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação.

Lets look at the trailer…. 🙂

Publicado por Vitor Pires em Segunda-feira, 5 de Novembro de 2018

Trailer do filme “Harmos”

PUB

A tela de cinema do Centro Cultural Gil Vicente, no Sardoal, vai exibir o filme desenvolvido a partir de quatro textos de Gonçalo Tavares que Lurdes Martins, atual presidente da Palha de Abrantes, começou a trabalhar muito antes de receber as notícias dos prémios. Por lá passam os “projetos”, o “jardim” , os “terramotos”, o “capítulo III” e “no comment”, criados pelo coletivo de crianças e jovens que frequentam desde o primeiro ciclo do ensino básico até ao ensino secundário no concelho de Abrantes.

Serão 10 minutos de Harmonia – significado de “Harmos” – produzidos pela Associação Palha de Abrantes / Cineclube Espalhafitas, realizados por Ícaro Pintor (Vítor Pires) e Tânia Duarte e sonorização de Pedro Magano. Dez minutos que representam o sem fim de outros em que os estudantes das escolas D. Miguel de Almeida, Solano de Abreu e básicas de Mouriscas, do Pego e do Rossio ao Sul do Tejo se dedicaram ao projeto durante meses.

Foram-se cruzando com os frequentadores de palmo e meio da Escola do Ócio (ATL da associação) no espaço Sr. Chiado e juntos materializaram a ideia que Lurdes Martins começou a matutar quando viu António Louro no programa “Biosfera”. O atual vice-presidente da Câmara Municipal de Mação apresentava então um estudo sobre o território desenvolvido nesse concelho no âmbito dos incêndios florestais que marcaram o ano de 2017. Não foi o motivo do estudo que Lurdes Martins fixou, mas o método apresentado: um mosaico.

Lurdes Martins durante a entrevista. Foto: mediotejo.net

A Harmonia começava a ter forma e o mosaico, pela sua associação à diversidade – seja ela humana, cultural, social ou natural – era o molde ideal para colocar na forja as linhas orientadoras do trabalho desenvolvido nos últimos anos junto das escolas e no ATL. A lógica de trabalho seguida é a alternância entre a proximidade e a distância e no Animaio de 2017 tinha-se “viajado” até ao Chile através de oito filmes inspirados nos textos de Luís Sepúlveda.

Viagem menor, mas igualmente empolgante e desafiante, tinha sido a de 2016, com a curta-metragem “Da Janela da Minha Escola” – um dos quatro projetos cinematográficos sobre “A Paisagem” marcada pela morte das palmeiras no concelho de Abrantes – a ser nomeada pela Casa da Animação e a conquistar o Prémio Nacional da Animação 2016, na categoria Oficinas, entregue durante a 15ª Festa Mundial da Animação.

Segundo Lurdes Martins “trabalhar com crianças é trabalhar o pátio e o jardim de casa, mas também é trabalhar o mundo”. Neste Animaio regressa-se ao concelho abrantino e, dando continuidade à sensibilização ambiental, a floresta autóctone assumiu o papel de protagonista. Os incêndios não estavam previstos no elenco, mas surgiam recorrentemente nas conversas e acabaram por ser tornar presença “inevitável”.

Os terrenos em mosaico criados pelos alunos. Foto: mediotejo.net

Aos alunos foram dadas a conhecer as diversas árvores, uma a uma, e lançado o “desafio” de construírem um terreno em “jeito de mosaico”. O storyboard foi feito pelos mais velhos “de uma só vez” no espaço Sr. Chiado depois de procurarem uma narrativa “poética, mas que fosse clara, objetiva de alguma forma”. Pelo meio, já os formadores Ícaro Pintor (Vítor Pires) e Tânia Duarte pensavam nas técnicas a utilizar.

O desenho, a aguarela, a areia, o barro, a pintura em vidro, recortes e a pixelização tinham sido utilizados em edições anteriores e o pó de grafite surgiu como solução ideal, estabelecendo a ligação com as cinzas que passaram a fazer parte da paisagem. Trabalhou-se, muito e sem horários fixos, sem esquecer a importância de conciliar o analógico e o digital.

Outra preocupação foi manter a “formação a diversos níveis”, que Lurdes Martins considera essencial, e justifica a escolha pelos filmes de animação. Na sua opinião, a animação “obriga a relacionar, a usarmos uma pitada de cada área do conhecimento” e no mesmo filme conseguimos encontrar literatura, desenho, interpretação, pintura e modelagem. Tudo com um enquadramento específico que pode ir do geográfico ao ambiental, passando pelo histórico e social.

Prémio do Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação. Foto: mediotejo.net

Estas são as diferentes peças que constituem a Harmonia, conjugadas de forma dinâmica, quebrando rotinas e com uma mensagem transversal a áreas artísticas e temas. Um projeto que carateriza de “contraponto a uma vida de hoje em que é tudo muito mais rápido e nós queremos mostrar que há um lado que não é assim”, acrescentando que “o momento do prazer não é gasto durante o processo. O prazer do final é sentir aquele orgulho imenso”.

No entanto, falta referir uma peça do mosaico apontada como “muito importante”… Qual é? As pessoas envolvidas, miúdos e graúdos. Alunos, pais, professores, formadores, o filho João Jerónimo que a acompanha para todo o lado nestas andanças e todos os outros que a presidente da Associação Palha de Abrantes diz contribuírem com “persistência” e “esforço” para o tal prazer final. Um mosaico dentro de outro mosaico que gera sinergias e, destaca, torna os projetos “valiosos”.

É esta Harmonia que se sente em “Harmos”, o filme cujo nome foi uma das últimas decisões de Lurdes Martins. A escolha revelou-se “difícil” perante o objetivo de “harmonizar todos os textos e tudo o que se queria dizer” e mostrar “aquilo que nos levou a fazer isto”. A ideia de “mosaico e de diversidade” num elemento uno em que tudo e todos “convivem bem” ajudou a encontrar a solução.

O filme “O lápis que não sabia escrever” foi o mais premiado até à data

A fuga ao termo português repetiu o sucedido com o filme “Orchis Mirabilis” (Maravilhosas Orquídeas), que recebeu uma Menção Honrosa do Cinanima em 2014. Mais um entre os muitos reconhecimentos que os projetos da Associação Palha de Abrantes e o Cineclube Espalhafitas têm tido, chegando além fronteiras em 2011 com o filme “O lápis que não sabia escrever”.

No caso de “Harmos”, os prémios conquistados demonstram, acima de tudo, uma “necessidade de continuidade” e é isso que está na linha do horizonte. No Animaio 2018 as árvores também estarão presentes nos postais desenhados pelos diretores cinematográficos de palmo e meio e comprá-los é levar para casa as raízes da próxima edição. O processo já arrancou e até chegámos a vislumbrar a próxima paisagem, mas sobre ela falaremos mais tarde. Até lá, aprecia-se a Harmonia.

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here