Abrantes | O Hotel que se ergueu no morro do campo de Santo António

No ano em que a cidade de Abrantes comemora o seu centenário, o Hotel de Turismo faz 63 anos e assinala uma viragem na sua história com um novo promotor que aposta na reabertura da unidade hoteleira e que investiu, para já, 2,1 milhões de euros na sua recuperação. O mediotejo.net foi à procura da história da construção do Hotel Turismo de Abrantes, um ícone da cidade.

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Segundo os jornais da época, corria o ano de 1929 quando se começou a falar da construção de um hotel em Abrantes, na altura, projetado para o jardim Taborda. O Jornal de Abrantes, na sua edição de 10 de fevereiro de 1929, faz referência a isso mesmo: “No nosso último número demos, em primeira mão, a sensacional notícia de que o Sr. Dr. Guilherme Henrique de Moura Neves e a firma Mena & Pinto se tinham constituído em sociedade para a construção de um hotel em Abrantes. (…) Completando a notícia que demos, vimos hoje dizer que o lugar escolhido e já adquirido é no jardim Taborda, situação esplendida, dominando um panorama surpreendente, o que há-de tornar o hotel um verdadeiro sanatório e que muitas pessoas hão-de aproveitar como estância de repouso. A planta está sendo feita por um dos sócios da firma Mena & Pinto – o Sr. D. Luiz de Macedo, distinto engenheiro (…)”.

No entanto, por razões financeiras esta obra não se realizou. Foi mais tarde, pelas mãos de um grupo de abrantinos, encabeçado por Manuel Fernandes, que o projeto de um hotel em Abrantes se tornou realidade. A 8 de março de 1953 tem lugar a cerimónia de colocação da primeira pedra do Hotel Turismo de Abrantes, a erguer no “morro do Campo de Santo António, que não passava de um bom miradouro e dum sítio histórico, porque por ele entraram os franceses a quando das invasões” (in Jornal de Abrantes, 10 de outubro de 1954).

A cerimónia de colocação da primeira pedra do Hotel Turismo contou com a presença do Secretário Nacional da Informação e Turismo, José Manuel da Costa, demonstrando a importância, não só regional, mas também nacional deste projeto hoteleiro. Uma curiosidade deliciosa que os jornais da época nos transmitem sobre esta cerimónia é a existência de um escrito em pergaminho que, conjuntamente com as moedas de metal utilizadas na altura (10$00, 5$00, 2$50, 1 escudo, $50, $20 e 10 centavos) e um exemplar do Jornal de Abrantes de 8 de março de 1953, foram encerrados num tubo de lusalite “que vai ser cimentado nas extremidades e lançado juntamente com a pedra para que da cerimónia fique memória”, refere o dito escrito em pergaminho (in Jornal de Abrantes de 15 de março de 1953).

abrantes_Hotel_noticia 1a pedraA construção do Hotel Turismo de Abrantes, que esteve a cargo da Construtora Abrantina, não chegou a levar dois anos: “foram 18 meses que a golpes de energia, boa vontade, decisão e bairrismo bastaram para converter este morro do Campo de Santo António (…) num modelar hotel que oferecendo aos hóspedes as maiores comodidades e conforto, lhes proporciona das janelas dos quartos, salões e do seu admirável miradouro, um dos mais vistos e lindos panoramas de Portugal (…)” (in Jornal de Abrantes de 10 de outubro de 1954).

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Nesta edição do Jornal de Abrantes (10 de outubro de 1954) são referidos alguns desafios que foram surgindo durante a fase de construção: “acompanhámos a construção desde os alicerces, vimos subir paredes e seguimos o trabalho lá dentro, até às ultimações, tudo se seguindo naquele regime de trabalho que honra a casa que tem feito o bom nome de que goza a Construtora Abrantina. Duras, penosas, difíceis foram algumas fundações, especialmente as do corpo principal onde houve que se buscar firme a cerca de 8 metros de profundidade, o que dificultou a construção, demorando-a alguns meses”. “É preciso dizer que o estudo da estrutura de betão é do engenheiro Manuel António Vassalo e Silva e que estão ali 95 toneladas de ferro”, refere o mesmo artigo do Jornal de Abrantes.

O projeto do Hotel Turismo de Abrantes foi elaborado pelo arquiteto Vasco de Lacerda Marques, diplomado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e autor do projeto do Hotel das Termas de Monfortinho, que acompanhou sempre de perto as obras de construção.

“Projetado para 35 quartos, todos dispondo de casa de banho e chaufagem; amplas salas de jantar e de estar, bar e café, com uma varanda circundante onde se poderão tomar as refeições – eis, em linhas gerais, as características do novo grande empreendimento, situado em lugar admirável, de onde se alargam magestosos panoramas”, refere o Jornal de Abrantes. “O dito hotel não será luxuoso, mas delineado em obediência às regras impostas pela moderna arquitectura possuirá o necessário conforto e elegância”, pode ler-se no semanário.

abrantes_Hotel2_noticia 1a pedraNa decoração do hotel, o arquitecto Vasco Marques contou com a colaboração da sua esposa, Helena Perestrelo, “distinta pintora e decoradora, hábil miniaturista, artista com A grande”, descreve o Jornal de Abrantes na sua edição de 10 de outubro de 1954. Para o Hotel de Abrantes “fez os desenhos, em colaboração com Vasco Marques, para a mobília, ferros forjados, tapeçarias e o mais que foi preciso”.

“A execução das mobílias esteve a cargo de Belmiro Carvalho, da Granja; as tapeçarias, foram elaboradas pela Sociedade de Tapeçaria; as aguarelas de Manuel Tavares e reproduções de Roque Gameiro; a cerâmica de Maria Elisa Fragoso; os vitrais foram executados por Ricardo Leone, sobre cartões e composição de Vasco e Lena”, são pormenores que o Jornal de Abrantes nos dá a conhecer.

O dia da inauguração

E eis que chega o grande dia da inauguração do Hotel Turismo de Abrantes: 9 de outubro de 1954.

Segundo a imprensa regional na altura, foi uma comemoração em grande, com festa que durou até às 7h da manhã do dia seguinte.

“À hora própria, o salão da entrada encheu-se com as entidades que vieram de Lisboa, Santarém e outras partes do país, com as entidades civis e militares da cidade, accionistas da empresa e suas famílias que visivelmente satisfeitas se juntaram para o acto inaugural”, pode ler-se no Jornal de Abrantes.

abrantes_hotel_anuncio inauguração_pqE continua a descrição: “Muitos conterrâneos nossos que vivem fora, aqui vieram para nos acompanhar no dia que, com toda a razão foi considerado festivo, tendo comparecido também a filarmónica da cidade.”

A presença de convidados e da população para assistirem à abertura do Hotel de Abrantes foi tal que “Praças da GNR e da P.V.T. regularam o trânsito pois contavam-se por bastantes dezenas o número de automóveis que enchiam o Campo de Santo António, na praceta que em poucos dias foi macadamizada para dar acesso ao Hotel”.

A cerimónia da inauguração contou com a presença do “Sr. Padre Freitas, Arcipreste de Abrantes, que, em nome do Bispo de Portalegre, procedeu à bênção com as cerimónias do ritual”. Seguiram-se os discursos, de onde se destaca o de Manuel Fernandes, em representação do Conselho de Administração da Sociedade do Hotel Turismo de Abrantes, que enalteceu a nova lei hoteleira que iria entrar em breve em vigor (que previa e autorizava a colaboração directa das câmaras municipais, até mesmo de ordem financeira, na construção de hotéis de turismo) e agradeceu à Câmara a realização de um “parque municipal anexo que veio embelezar muito os terrenos circunvizinhos ao hotel e a projectada construção de uma piscina e de um court de ténis irá encerrar com chave de oiro essa obra de valorização urbanística a que o Município meteu ombros”.

Após os discursos, “fez-se a visita às dependências do Hotel. Havia por parte dos assistentes grande interesse nessa visita, para pessoalmente verificar pormenores , e cada um dizendo do que mais gostava ou melhor impressão lhe desejava, havia unanimidade que o Hotel honrava Abrantes e a região de Portugal onde vivemos”.

“Depois da visita passaram ao salão de mesa onde lhes foi oferecido um abundante e bem servido copo de água, já confecionado no Hotel, tendo-se feito vários brindes de felicitações e aplausos à empresa, na pessoa do Sr. Dr. Manuel Fernandes que tanto trabalhou e tantos esforços empregou para que o Hotel fosse um facto”, retrata o Jornal de Abrantes na sua edição de 17 de outubro de 1954.

O Grupo Luna Hotéis vai gerir nos próximos 15 anos o Hotel Turismo de Abrantes
O Grupo Luna Hotéis vai gerir nos próximos 15 anos o Hotel Turismo de Abrantes

E a festa continuou: “passava das 19 horas quando a assistência deixou o Hotel e logo foram preparadas as salas para o jantar dançante que constituiu uma elegante e distinta festa. 250 pessoas, os homens com traje a rigor, as senhoras com vestido de noite tomaram parte no jantar muito bem servido e passavam de 300 as que se contaram quando se começou a dançar, tocando a orquestra e conjunto Mário Simões, de Lisboa. Eram 7 horas quando a festa terminou”.

Passados quase 62 anos deste dia histórico para a cidade de Abrantes, o Hotel Turismo entrou numa nova fase da sua vida, com as obras de recuperação do espaço que, durante os próximos 15 anos, será gerido pelo Grupo Luna Hotéis.

(O mediotejo.net agradece à Biblioteca Municipal de Abrantes a
disponibilização das imagens dos jornais antigos)

*Artigo publicado em fevereiro de 2016

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