Abrantes | O cineclube Espalhafitas e o sucesso do cinema feito nas escolas (c/FOTOGALERIA)

A festa da formação de públicos é feita pelo Espalhafitas a partir das escolas e no cinema de animação. Foto: mediotejo.net

“Harmos”, que é como quem diz “harmonia”, veio pôr o coletivo de crianças e jovens das escolas do concelho de Abrantes a refletir sobre a relação do Homem com a floresta de uma forma diferente. É, nada mais, nada menos, que um sequência de curtas de animação, que venceu os prémios da Festa Mundial da Animação, na categoria Oficinas, e de Jovem Cineasta Português, no Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação.

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O filme foi apresentado ao público e aos seus jovens autores, no Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal, no 13º Animaio, e alunos, orientadores, docentes e pais não conseguiram conter o orgulho pelo feito. Fica a esperança de um projeto de continuidade e que a Festa Mundial da Animação possa, um dia, fazer-se «em casa».

Com realização e orientação dos experientes Tânia Duarte e Ícaro Pintor, por via de técnica mista e argumento dos textos de Gonçalo M. Tavares, música de Francesco Berta, e trabalho de som feito por Ícaro Pintor e Pedro Magano, esta produção da Associação Palha de Abrantes, através do Cineclube Espalhafitas e ATL Escola do Ócio, reuniu no grande auditório do Centro Cultural sardoalense, para que estreasse na grande tela e no escuro que o cinema exige a obra conjunta de 10 minutos.

Abrantes | O cineclube Espalhafitas e o sucesso do cinema feito nas escolas (c/FOTOGALERIA)
Foto: mediotejo.net

Parece pouco, mas este foi um processo moroso, complexo, exigente. Que envolveu alunos de várias faixas etárias, uns com mais experiência na atividade do que outros, e que levou Lurdes Martins, presidente da Associação Palha de Abrantes, a dedicar muitos quilómetros para apresentações, reflexões, desenhos e textos criativos sobre o tema, que também foi tratado em ambiente de sala de aula.

“Os pais não imaginam, às vezes, que algo que se vê em 10 minutos tem por detrás muitas horas de trabalho e tem muitas hesitações, muitas incertezas, muita gente a trabalhar”, referiu no discurso introdutório, antes da passagem do filme, Lurdes Martins.

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Quanto ao tema, a responsável disse não ter havido margem para escolha. “Este tema das florestas era o tema que tinha de ser tratado. E eu lembro-me que, quando falava com os meus colegas e dizia que queria falar deste tema porque era pertinente, porque tínhamos acabado de ser assolados com a tragédia, eles não queriam muito falar da tragédia tal e qual como nós a vivemos. E começámos a procurar textos que fossem parar ao tema, mas que não fossem muito óbvios”, justificou.

Abrantes | O cineclube Espalhafitas e o sucesso do cinema feito nas escolas (c/FOTOGALERIA)
Ilustração do filme “Harmos”. Foto: DR

Também na fila da frente, Ícaro Pintor, um dos orientadores, frisou que o projeto do Cineclube Espalhafitas “tem muito mais visibilidade do que algumas das pessoas possam imaginar. Não só cá em Portugal, pois há muito interesse internacional neste projeto”, notou, acrescentando que “os prémios que têm sido ganhos são realmente importantes, não são «prémios de escola», são prémios dentro de uma categoria onde concorrem centenas ou até milhares de filmes do mundo inteiro”.

Para Ícaro Pintor, o trabalhar cinema de animação com o coletivo de crianças e jovens faz-se em duas vertentes. A “pedagógica para a escola e para a comunidade” e a “pedagogia da arte e pela arte”, sendo “duas forças importantes” que proporcionam aos alunos trabalhar em projetos e workshops fora da caixa e “que não são propriamente os workshops de pintar a castanhinha no outono”.

O orientador, durante o seu discurso, disse ainda que “a arte não é só para enfeitar paredes. É para transformar o mundo. E se queremos transformar o mundo é na escola que se começa. E então o lugar do artista interventivo tem que ser na escola e aqui encontro terreno para ser assim revolucionário de outra maneira”, aludiu, mostrando sentir-se confortável na dinamização de trabalhos neste território, e demonstrando ter uma visão diferente sobre os métodos generalizados aplicados na “escola” de hoje.

“é das poucas cidades em Portugal que já tem as crianças a aprender cinema de animação há cerca de 13 anos”

Por seu turno, Tânia Duarte, também presente no 13º Animaio, enalteceu o trabalho desenvolvido no município abrantino pela Associação Palha de Abrantes no que toca ao cinema de animação.

“Trabalho em cinema de animação, faço cinema, ensino, animo, trabalho com crianças, jovens e idosos, e já há alguns anos em Portugal, e tenho a dizer-vos uma coisa: Abrantes, no que diz respeito ao cinema de animação, graças ao Cineclube Espalhafitas, graças à grande força da Lurdes, persistência em ir contra tudo e contra todos, porque não é fácil (…) é das poucas cidades em Portugal que já tem as crianças a aprender cinema de animação há cerca de 13 anos”.

E insistiu, completando conseguir trabalhar com os alunos “noutro nível porque já sabem, já dominam muitas coisas e é um prazer e uma sorte que vocês têm no facto de os vossos filhos poderem participar neste projeto “Animaio”, poderem aprender a brincar, até porque o cinema de animação é mágico, brinca-se, é divertido… mas também se fala de coisas reais, sobre coisas que nos fazem pensar. Nós também os pomos a pensar connosco”, afirmou.

“Façam força para que este projeto continue e com mais condições”, concluiu Tânia Duarte.

Na cerimónia foram entregues aos alunos presentes os certificados de participação bem como o comprovativo de Jovens Cineastas Portugueses até aos 18 anos, prémio ganho no Cinanima.

Abrantes | O cineclube Espalhafitas e o sucesso do cinema feito nas escolas (c/FOTOGALERIA)
Ícaro Pintor, Tânia Duarte, Lurdes Martins e Sérgio Vieira, membros da equipa de formadores e orientadores do filme. Foto: mediotejo.net

Estiveram presentes Miguel Borges, autarca sardoalense, e Luís Dias, vereador com o pelouro da Cultural da CM Abrantes.  O presidente da CM Sardoal recordou a sua participação, no passado, enquanto docente, na realização do filme “A Pedra” com a associação, numa das suas primeiras atividades.

“Foi uma experiência gira, durante uma semana as crianças da escola não fizeram mais nada senão pintar, desenhar e viver esta experiência fantástica e única. É um papel importante de ligação escola-meio (…) a escola pode ter muito mais mundo do que aquele que são as disciplinas tradicionais”, mencionou.

“Esta casa é vossa, e é com muito orgulho que temos uma casa destas na nossa região, por isso usem e abusem, porque o nosso lucro nesta casa é ter gente cá dentro”, finalizou, dirigindo-se aos responsáveis pelo projeto, que tiveram de optar pelo Centro Cultural de Sardoal para esta exibição uma vez que, citando Lurdes Martins, o Cineclube Espalhafitas perdeu “a sua casa e a casa que era de todos” em Abrantes: o Cineteatro São Pedro.

Já Luís Dias, em representação da Câmara Municipal de Abrantes, agradeceu a parceria e acolhimento por parte da autarquia sardoalense e ressalvou que o trabalho da Associação Palha de Abrantes é um trabalho de “mérito” dos alunos, formadores, orientadores e professores, e que se deve “ao rasgo, ao génio, que a Tânia e o Ícaro têm em construir qualquer coisa, mas sobretudo ao trabalho da Carlota, do Sérgio, de todas as pessoas ligadas à Palha de Abrantes e que nos últimos anos têm feito não só pelo Animaio, mas com toda esta dimensão para construir colaborativamente uma área de afirmação cultural que nos leva além dos nossos territórios, nos internacionaliza”.

“O nosso reconhecimento, enquanto representante da Câmara de Abrantes, não é mais do que o desejo contínuo de afirmação deste projeto”, declarou, incentivando a que as instituições possam “sair da área de conforto e dizer que à volta deste génio criativo que cada um tem, devidamente orientado, podem construir-se coisas maiores e sobretudo à volta de temas como o deste ano, que nos tocou a todos, infelizmente, mas que de alguma forma nos uniu a todos”.

Abrantes | O cineclube Espalhafitas e o sucesso do cinema feito nas escolas (c/FOTOGALERIA)
Foto: Tânia Duarte

O burburinho do “Olha!, olha! Fui eu que fiz aquilo”

Durante a exibição do filme, impactante, que puxou ilustrações e animações alusivas ao quotidiano da região, tocando em temas atuais como a poluição do rio Tejo, a indústria de celulose, a tragédia dos incêndios e as mortes deles provenientes, a destruição da mancha verde característica dos territórios, ouvia-se burburinho, e sentia-se alguma agitação na sala.

Os autores dos desenhos, feitos há meses atrás, reconheciam pela primeira vez o seu trabalho incluído no todo. E nesta noção daquilo que fizeram, indicavam aos pais e familiares onde tinham participado e o que tinham feito.

Foi o caso de João Pedro Cerejo, de 12 anos, e da irmã Sofia Cerejo, de 9 anos, residentes em Abrantes. Frequentadores do ATL Escola de Ócio e das atividades do Cineclube Espalhafitas desde muito cedo, vieram com a mãe assistir à estreia do filme.

João Pedro frequenta as atividades desde os 4 anos e Sofia desde os 5 anos. Ambos já a participar na realização das curtas metragens.

A mãe, Carla Lopes, explicou ao mediotejo.net que tudo começou com a decisão de colocar os filhos no ATL da Associação Palha de Abrantes. “Ainda eram muito pequeninos e precisávamos de um ATL. Escolhemos este porque eu conheço muito bem a Lurdes e gosto imenso do trabalho dela, e eles até hoje gostam muito de lá andar. E vão continuar até que queiram. É uma experiência muito boa”, confidenciou.

Quanto aos prémios recebidos em reconhecimento do filme “Harmos”, Carla Lopes disse ser “com muito orgulho que se recebe estas notícias, por serem os nossos filhos e a instituição, e também a Lurdes, que sempre tomou parte na formação deles”.

A mãe de João Pedro e Sofia afiançou que a participação nas atividades da associação “é um complemento muito bom na formação das crianças, e no caso dos meus filhos, que desde pequeninos frequentam as atividades, é algo que não pára. É um ciclo e é muito importante. Estou muito orgulhosa do trabalho que lá desenvolvem”, terminou.

Abrantes | O cineclube Espalhafitas e o sucesso do cinema feito nas escolas (c/FOTOGALERIA)
Sofia, João Pedro e Carla Lopes no final do 13º Animaio e visivelmente satisfeitos com o filme “Harmos” exibido no Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal. Foto: mediotejo.net

As reações, o cochichar, o apontar e dizer “aquilo fui eu que fiz”, faziam sobressair a perfeita noção e perceção destes cineastas de palmo e meio, que iam reconhecendo o seu trabalho e colaboração na montagem da animação.

O espanto no impacto causado pela estreia do filme fez suspirar e pulsar emoções bonitas entre pais orgulhosos e filhos convictos com espírito de missão cumprida. E o bichinho do cinema de animação parece ter crescido mais uns centímetros ao terminar a passagem dos créditos.

Caso de João Pedro, que já participou na realização de uns quantos filmes, tão trabalhosos quanto proveitosos, que nem consegue contá-los no imediato.

“É bom ver o resultado final porque é muito trabalho, é bom vermos o nosso contributo ser aplicado de uma maneira boa e bonita”, assumiu o jovem, que participou já na montagem de cinco filmes. “Quando o homem entrava na casa e estava lá uma televisão? Eu animei a televisão!”, contou, visivelmente feliz com o resultado final.

A sua experiência de 8 anos no projeto tem sido de tal forma marcante, que não hesita quando o desafiamos a explicar sucintamente o processo, onde até chegou a trabalhar com os alunos mais velhos, experimentando animações em “stop motion”.

“Em desenho, para fazer 1 segundo, precisamos de 12 a 32 desenhos. E se o filme tem 10 minutos, são muitos segundos…”, explica, gerando risos entre a família. A pequena Sofia acena com a cabeça, confirmando o que diz o irmão.

“O filme demorou cerca de dois meses a ser feito. Pode não parecer muito… mas trabalhou muita gente”, sublinhou, acabando depois a explicação que acabava de lhe assaltar a mente de novo. Segundo o jovem, as várias partes fizeram-se com “sobreposição de vidros, com pó de carvão, e por camadas” e tinha “tijolos para sustentar e a câmara por cima”. Não se podia correr, pular, dar passos fortes, pois tudo isso poderia colocar em causa o trabalho desenvolvido até então e fazendo esvoaçar poeiras.

Sofia é mais comedida nas suas respostas, mas responde convincente que gosta de desenhar e que não é cansativo, porque todos se entendem. A mãe relatou que, durante a exibição do filme, a menina notou logo os seus desenhos.

“É muito giro, por exemplo, ver a parte em que a Sofia trabalhou e fez as raposas e reconheceu logo, e o João Pedro viu as rãs que fez. E dá realmente muito trabalho”, confirmou Carla Lopes, que conseguiu espreitar a atividade dos filhos e ver parte do processo de montagem da animação. “Nós não temos noção de como se faz, mas quando lá vamos e vemos, ficamos com o orgulho cheio”, realçou.

Abrantes | O cineclube Espalhafitas e o sucesso do cinema feito nas escolas (c/FOTOGALERIA)
Foto: Tânia Duarte

No final, encontramos Lurdes Martins para um balanço do Animaio de 2018. A mentora e impulsionadora do projeto reconheceu que gostava de ter visto a sala cheia, e disse acreditar que, “se tivesse vindo toda a gente, não haveria lugar para todos”. Afinal, só alunos, são 90. Se juntarmos as famílias… Seria lotação esgotada na certa. E isso faz recordar tempos idos. Pois este ano, houve alguns “percalços”.

“Antigamente, quando fazíamos no Cineteatro São Pedro, em Abrantes, aquilo tinha aquela massa de gente e dávamos oportunidade a todos os meninos de todas as escolas para assistirem. O que significa que se trabalhássemos em cinco escolas, fazíamos várias sessões e isso é efetivamente uma festa, pois o Animaio foi criado também com esta vontade de ser uma festa do Cinema e do Cinema de animação”, lembrou.

No que toca à exibição do filme, é para Lurdes “o ponto alto, porque é onde se vê como é que as coisas correram. E este burburinho dos meninos, a dizer “este fui eu que fiz!”… Eles reconhecem todo o trabalho. E não tinham visto o filme ainda, e foi feito em maio. Isto gera alguma ansiedade, expetativa,…”, relatou.

Nos dois últimos anos, a associação optou por juntar um coletivo de jovens de várias faixas etárias, do ensino básico ao secundário. Algo que traz riqueza e complexidade à realização do filme, pois o filme “não tem a mesma linha, ou seja, há momentos mais fáceis e mais difíceis” consoante as idades, cujas narrativas são aplicadas tendo esse fator em conta.

Algo que acaba “por casar muito bem” com o trabalho dos orientadores que “fundem os filmes de forma a criar uniformidade”. A dita harmonia que dá nome ao filme.

Apesar de o tema ser “complexo” e demorar a arrancar aplausos na plateia, cumpriu a sua missão: pôr as pessoas a refletir sobre um tema que lhes tocou pessoalmente.

E ao fechar de mais um ciclo, Lurdes Martins ainda não perdeu esperança de conseguir alcançar o objetivo pelo qual tem batalhado nos últimos anos, tendo lançado de novo o desafio aos autarcas presentes na sessão. A presidente da Palha de Abrantes quer conseguir fazer em Abrantes a Festa Mundial da Animação, que este ano aconteceu em Portalegre.

“Não faz sentido que não tenha já sido feita uma espécie de grande Festa do Cinema em Abrantes” – Lurdes Martins

Tendo perfeita noção que implica “muita logística e dinheiro”, não desiste da ideia. “Não faz sentido que o lugar do país onde se faz cinema nas escolas desta forma, com esta frequência e com esta qualidade… não faz sentido que não tenha já sido feita uma espécie de grande Festa do Cinema em Abrantes”.

Com isto, na sua opinião, têm-se perdido oportunidades, nomeadamente de transformar o Animaio em algo “maior, como um festival. Mas perdeu-se o Cineteatro agora. Então e agora? Perde-se a oportunidade de trazer trabalhos do mundo inteiro e receber realizadores de vários sítios que acabam por pôr uma região num percurso, e que muitas vezes não fica na história da terras por onde se faz, mas fica na memória de quem cá está”, foi dizendo, em jeito de desabafo.

E prosseguiu, crendo que “é uma pena, se pensarmos que o Animaio tem 13 anos e que alguns deste miúdos com quem trabalho cinema agora não tinham nascido quando nós já fazíamos filmes… é qualquer coisa!”.

Mas a modéstia dá o mote, e retira qualquer ideia de protagonismo. “O cinema de animação tem a ver com o teu trabalho, não é com a tua imagem”, expressou Lurdes, ditando aquele que é o modus operandi do Espalhafitas no (seu) mundo do cinema.

O filme deste ano foi “difícil” e “complexo”. Ganhou dois importantes prémios. Talvez a isso se deva.

E Lurdes não se arrependerá jamais dos dias passados a limpar muito bem o edifício do Sr. Chiado até à porta por causa das partículas de grafite, a matéria primordial de “Harmos”.

Onde o ingrediente harmonioso, que nada tem de secreto, é a vontade de fazer diferente e incentivar um coletivo de crianças e jovens a transformar o mundo e a crescer através do cinema de animação.

 

Leia mais sobre o making of de “Harmos”:

Abrantes | O mosaico harmonioso do filme “Harmos” (entrevista)

 

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