Abrantes | O caso da (in)transponibilidade do açude insuflável (C/Vídeo)

Carlos Alexandre, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, faz parte da equipa responsável pela avaliação de transponibilidade do açude insuflável de Abrantes, processo que decorre entre 2016 e 2017. Segundo o investigador, o caso do açude de Abrantes é idêntico ao do Açude-Ponte de Coimbra, no rio Mondego, e como tal são apontadas como causas da interferência na migração de peixes os obstáculos à conetividade e a regularização do caudal com acumulação de barragens ao longo do rio Tejo.

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Durante o ciclo de conversas, que aconteceu na quinta-feira, no ParqueTEJO – Centro de Acolhimento e Interpretação do Tejo, inserido na Semana da Cultura Científica, que contou com a exposição de Luís Santos, docente e investigador do IPT, sobre trabalho de monitorização ambiental no Paul do Boquilobo, Carlos Alexandre apresentou projetos que envolvem o estudo da ictiofauna (conjunto dos peixes existentes numa região), com destaque para o que foi executado no rio Mondego, precisamente o Programa de mitigação – Reabilitação da Conectividade Longitudinal no rio Mondego.

Entre 2011 e 2016, tem sido efetuado um programa de monitorização integrada e abrangente na bacia do rio Mondego, com colaboração dos pescadores profissionais (através de inquéritos), amostragem de lampreias e enguias, marcas e antenas PIT, censos visuais com contagem à unidade e radiotelemetria. “A abundância de lampreia aumentou 30 vezes a montante”, referiu o investigador.

No ParqueTEJO - Centro de Acolhimento e Interpretação do Tejo. Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

O mesmo programa está a ser implementado no Açude de Abrantes, desde setembro de 2016 e que se prevê concluir-se em 2017. Está a ser executado um Programa de Avaliação da Transponibilidade do Açude Insuflável de Abrantes à Migração Piscícola.

Começou em setembro, com amostragem de lampreias e enguias, tendo em vista o estudo da transponibilidade do açude para a lampreia marinha e radiotelemetria da mesma espécie, com tracking quinzenal que ocorrerá de fevereiro a maio.

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Na amostragem de lampreia que foi feita no açude, em setembro, a equipa de investigação detetou que “o Tejo está cheio de exóticos”, desde achigã, abletes, perca-sol.

“Relativamente às lampreias, a abundância não foi assim tão vaga e é sobretudo a jusante do açude (…) Os animais que apanhámos a montante, são imediatamente a montante do açude (…) agora só com a radiotelemetria vamos perceber”, assumiu.

Foto: mediotejo.net
Foto: mediotejo.net

Diante do estudo de ictiofauna da Bacia do Tejo, o investigador apresentou dados que permitem criar um perfil global sobre as espécies existentes. De 39 espécies piscícolas, 25 são espécies nativas (65%) e 14 são exóticas (35%).

Carlos Alexandre salientou que 14 espécies têm elevado estatuto de ameaça, caso da lampreia-de-rio, sável, savelha e enguia.

E porquê? Devido àquelas que são denominadas como as principais ameaças à conservação e gestão das espécies piscícolas, entre elas a Regularização de caudal, algo com impacte elevado no habitat disponível para o biota aquático, causador de alterações na comunidade e no padrão de movimento de peixes, degradação física dos rios, consequência do efeito cumulativo de barragens ao longo do Tejo, tanto em Espanha como em Portugal.

A poluição aquática é apontada como o segundo ponto de desestabilização da conservação de espécies, uma vez que o curso principal do rio Tejo e afluentes tem forte tecido industrial e urbano (próximo das suas margens), fontes de poluição pontual e difusa associadas à exploração agrícola e pecuária, descargas de poluentes agravadas pela elevada regularização do caudal ao longo da bacia, mortalidade piscícola evidente, sobretudo em períodos críticos do ano – Verão, efeitos sub-letais nas populações piscícolas desconhecidos.

Já a quebra de conectividade longitudinal, onde se inserem os obstáculos à migração piscícola (ex.: na região, o Açude/Travessão do Pego e o Açude de Abrantes), verificando-se certa degradação da qualidade da água nos troços a montante, alterações nas comunidades piscícolas (segregação de classes dimensionais, promoção de habitats lênticos/espécies exóticas, desaparecimento de espécies a montante).

Ainda assim, são urgentes medidas de mitigação, quanto à regularização do caudal e poluição aquática, que passam pelo cumprimento da Diretiva Quadro da Água, implementação de um regime de caudais ecológicos adequado, a jusante dos empreendimentos hidráulicos e aumento de ações de fiscalização.

Quanto à quebra de conectividade longitudinal, propõe-se a remoção de obstáculos e a construção de passagens para peixes.

Foto: mediotejo.net
Miguel Pombeiro, CIMT, foi o responsável pela moderação deste primeiro ciclo de conversas, sobre ‘A biodiversidade do rio Tejo’. Foto: mediotejo.net

Em termos de perspectivas futuras, o rio Tejo assume-se como um importante reduto para a conservação e exploração sustentável da fauna piscícola, fundamental desenvolver medidas de gestão, conservação e promoção do capital de biodiversidade da região, ações devem ser desenvolvidas numa ótica de compatibilização de usos, promover o desenvolvimento de programas de monitorização e fiscalização adequados direcionados para as principais pressões identificadas, desenvolvimento de ações de divulgação e sensibilização junto dos principais agentes da região e do público em geral.

Segundo o investigador, “nos últimos anos o que tem sido mais complicado é fazer o contacto entre os pescadores e as autoridades. Temos dificuldades em fazer compreender a algumas autoridades porque é que é preciso envolver os pescadores e porque é que é preciso começar este trabalho”.

“Houve diferentes fases de dificuldade ao longo deste processo, neste momento acho que conseguimentos criar um consenso e, sobretudo, neste tipo de projetos é importante juntar uma série de pessoas que de outra forma não falavam, juntá-los e levá-los a produzir algo de bom e sustentável como neste caso”, notou.

Estas passagens e a migração de peixes têm outros efeitos, até a nível de nutrientes para o ecossistema, “este tipo de nutrientes e de peixes que vêm do mar é muito importante não só para o peixe reproduzir, não só em termos de lampreias, mas para todo o ecossistema”.

Miguel Pombeiro, secretário executivo da CIMT, moderou a sessão e fez notar a importância destes ciclos de conversas e debates, funcionando como “serviço público” para dotar a comunidade de conhecimento e informação sobre o tema. “São apresentações que nos fazem pensar um bocadinho, sobre cada vez mais haver necessidade de compatibilização entre os vários usos, que muitas das vezes não são considerados, e do ponto vista da própria opinião pública, não têm impacto por puro desconhecimento. Nesse sentido, estas ações são muito importantes”.

Foto: mediotejo.net
A sessão decorreu no ParqueTEJO – Centro de Acolhimento e Interpretação do Tejo, em Rossio, Abrantes, e integrou a Semana da Cultura Científica naquele espaço. Foto: mediotejo.net
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