Abrantes | O admirável mundo dos pequenos frutos da Courela de Alvega (C/FOTOS e VIDEO)

A framboesa começou por ser um dos frutos mais exportados desde a última década, para países como a Holanda e a Alemanha. Mas hoje, outros mercados emergentes surgem, estando a aposta fortemente virada para a amora e o mirtilo. Nos campos de Alvega, concelho de Abrantes, a Courela da Cruz é um dos casos de empreendedorismo de sucesso na área, sendo a amora sobejamente conhecida por toda a região e premiada a nível nacional. Iniciou no passado mês de junho outra aventura, com a primeira colheita de um hectare de mirtilo, mas outros dois hectares já estão em crescimento para o ano seguinte. O mediotejo.net calçou as botas e foi até ao campo conhecer mais sobre a cultura dos pequenos frutos, e (com)provar a exigência que implica o garante de uma colheita produtiva e de qualidade.

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Portugal inclui nos índices de exportação nacional uma grande fatia associada aos pequenos frutos, setor que cresce de ano para ano, com os produtores a ter de corresponder em quantidade e, acima de tudo, em qualidade.

Quem passa na Nacional 118, provavelmente não reparará na exploração que se encontra no limite entre Alvega e Casa Branca, na União de Freguesias de Alvega e Concavada, concelho de Abrantes. E não saberá que ali está a exploração que alcançou a distinção “Delight” em 2016/2017 pela produção de amoras, em termos nacionais, prémio atribuído pela empresa Driscoll’s  Portugal.

Encontramo-nos de manhã, com a proprietária Manuela Ruivo. 46 anos, e ao cargo de empresária agrícola acresce no currículo o de consultora em duas quintas da Golegã. Também dá formação na área, e está a assumir a direção de empresa que detém um empreendimento de turismo rural, em Casa Branca, prestando também consultadoria na área da produção agrícola nos terrenos da mesma. Além disso, assumiu a presidência durante vários anos do Montepio Abrantino Soares Mendes , onde admite a forte ligação ao mutualismo. Chegou a ser ainda presidente da Concelhia do PSD de Abrantes, deputada  intermunicipal, municipal e líder de bancada e a encabeçar a lista candidata pelo PSD à União de Freguesias de Abrantes e Alferrarede.

Recebe-nos com o seu ar bem-disposto, assumindo-se desde logo “uma pessoa otimista” por natureza. Fala-nos do seu projeto com alegria e brilho nos olhos, abrindo-nos o portão das suas terras… e da sua vida.

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Conta-nos que tudo começou no limiar dos 40 anos, em 2013, com a plantação de 1 hectare de amoras, e que tudo isso foi fomentado pelo seu “maior fã”, ainda vivo na altura: o avô paterno.

“Ele era o meu único fã e gostava muito das coisas da agricultura e sempre gostou muito da nossa terra também. E eu, para além de saber que lhe fiz um gosto, fiz também o meu gosto, como técnica”, assumiu, notando que acabava por também, por esta via, “verificar que também era capaz de desenvolver um projeto agrícola e de implementar aquilo que fazia com os agricultores que acompanhava”.

Foto: mediotejo.net

Enquanto caminhávamos, confidenciou que chegou a ponderar apostar nas ervas aromáticas, “para extração de óleos ou usos farmacêuticos”, mas como “metia uma parte industrial mais intensa” e que não domina, optou pelos pequenos frutos. Algo que, disse, determinada, não acontece com a parte da produção. Essa sim, domina. “Quis focar-me aí. Naquilo que acho que sei fazer melhor”.

Manuela trabalhou mais de uma década na Agromais, na Golegã, e o acompanhamento dos agricultores e aconselhamento obrigavam-na a ganhar “cada vez mais competências para saber dar o melhor apoio possível no campo”.

Como tal, além do bacharelato em Ciências Agrárias e licenciatura em Engenharia Agronómica, frequenta Mestrado em Produção Integrada – Agroambientais e fez pós-graduação, referindo nunca fechar portas ao conhecimento.

O “bichinho” do mutualismo, em conjunto com a pressão do seu avô, levou a empresária a ponderar o investimento enquanto forma de dinamizar e desenvolver social e economicamente a freguesia.

Manuela disse ser ponto assente que “tudo o que fizesse aqui, seria para tentar dar trabalho às pessoas da terra, de preferência da freguesia”.

“O meu universo de recrutamento está no concelho de Abrantes, mas abrangendo também localidades de outros concelhos que se encontram perto, caso de Ortiga e Gavião”, e somos de imediato interrompidas por um pequeno auxiliar.

Foto: mediotejo.net

Um inseto, mais precisamente uma bipuntata [e de Manuela, uma entendida na matéria, não duvidamos] pousada numa folha da planta da amora. “Estes auxiliares são muito importantes para mim porque, como não uso praticamente inseticidas, existem vários tipos que acabam com as chamadas pragas”, esclareceu, enquanto tirava uma fotografia com o seu smartphone, um hábito seu no dia-a-dia, enquanto percorre as parcelas para avaliar a condução da cultura, pelas plantas e frutos. Ainda não tinha nenhuma foto daquele género, rematou, terminando aquele macro registo.

Caminhamos e avistamos um horizonte sem fim da courela, de seu nome “da Cruz”. Não que seja propositado, mas porque constava na caderneta. Assim ficou.

“Estes terrenos eram da minha família, os outros do mirtilo já fui eu que adquiri. Tenho vindo a aumentar. Comecei em 2013 com este hectare de amoras, em 2016 fiz o mirtilo que estamos agora a colher. Em 2017 já plantei mais dois hectares na parte de baixo”, enumerou.

E com modéstia logo define a exploração como “pequenina”. Mas à escala de pequenos frutos, por exemplo, um hectare de amoras precisa de cerca de 25 pessoas para a colheita.

Explicou ainda que a introdução da nova cultura não foi por acaso. Uma vez que permite “um desfasamento de colheita entre as duas culturas” o que leva a efectivar a presença da mão-de-obra especializada na Courela, contrariando a sazonalidade da colheita da amora.

Da amora ao mirtilo: o brio para uma produção sustentável, de qualidade e rentável

Depois de conhecer António Nunes, o responsável pela Driscoll’s Portugal, integrante da empresa Driscoll’s sediada na Califórnia, Manuela acatou a sugestão de produzir amoras, por via da celebração de contrato com esta empresa que é líder nacional na comercialização de pequenos frutos, nomeadamente framboesa, amora e mirtilo.

Por isso, em 2013 só existiam amoras ao ar livre em duas explorações portuguesas: na Courela da Cruz, em Alvega, e na Casa Prudêncio, em Almeirim. “Este primeiro hectare de amora é pioneiro na região, em Portugal e na Europa”, mencionou a engenheira, referindo que era “um desafio” por não saber se o fruto vingaria com as condições de solo e clima. Eis que deu certo.

Foto: mediotejo.net

Em 2016, a aposta diversificou-se com mais um hectare de mirtilo. Também por proposta da empresa Driscoll’s, detentora das plantas com variedades únicas no mundo, alguns produtores portugueses foram convidados a expandir as suas áreas e a aumentar a área de mirtilo. E isso sucede-se em 2017, com a Courela de Alvega.

“Quer o mercado da amora, quer o do mirtilo, são mercados emergentes, mas o da amora é mais. É mais fácil vender mirtilo do que amora”, fez notar Manuela Ruivo, acrescentando que o consumidor já conhece o mirtilo. Isto enquanto apanhava o fruto na parcela e não hesitava em provar um ou outro picado pelos pássaros.

“O mundo rural conhece muito bem a amora porque tem velhas memórias de ir ao campo colher a amora silvestre”, e logo se assume uma adepta dessa colheita fugidia, que tantas nódoas deixava nas mãos e na roupa.

Para Manuela a região tem muito boas condições edafoclimáticas, ou seja, “características fantásticas de solo e de clima”. No entanto “também são um bocadinho mazinhas. Este ano já caíram duas granizadas no mirtilo”, lamentou, mencionando o forte investimento que se avista para proteger a cultura e apontando para o perímetro de corta-vento que teve de colocar para que os ventos, que por vezes são fortes naquela baixa, não condicionassem o crescimento natural da planta.

A primeira colheita de mirtilo aconteceu a 5 de junho e trata-se de duas variedades. “É o primeiro ano que estamos a produzir, acho que gostaram deste sítio, tal como as amoras, sendo que esteve muito atrasado pelas condições atmosféricas que não têm sido favoráveis”, disse, olhando para o céu nublado, indicador de chuva numa semana estranha em pleno início de mês de junho.

Manuela espera conseguir, apesar de tudo, uma boa colheita e a quantidade de frutos em maturação são indicador de que, para ano de estreia, as coisas correram bem. “Espero colher entre 4000 a 6000 kg”, disse.

Foto: DR

Já as amoras, que estão no 5º ano de produção e cujo tempo útil será de 6 anos, estão atrasadas em relação ao ano de 2017 onde, por esta altura já estariam na colheita. Parece que as condições atmosféricas não ajudaram nessa parte, pois o fruto precisa de algumas horas de frio e determinadas horas de calor para que possa diferenciar, crescer e depois começar a amadurecer. A Courela da Cruz aguarda ansiosamente pela intensidade da colheita, onde não há mãos a medir. E desta vez com direito ao bónus na rotina, nomeadamente a finalização da colheita e a manutenção do mirtilo. E assim se dá um ciclo de produtividade.

Toda a produção da Courela da Cruz é feita em circuito fechado para a Driscoll’s Portugal, que também coloca em mercado nacional. Ainda assim, Manuela reconheceu que “toda a fruta que produzimos aqui é para exportar”, e logo enumerou os países para onde as suas amoras foram distribuídas em 2017, aquele que considerou o seu melhor ano até aqui, com 16 toneladas de amora colhidas num hectare. Puderam ser degustadas na Holanda, Reino Unido, Dubai e Alemanha. Manuela quer que o melhor ano seja o de 2018, com 18 toneladas colhidas.

Estes são “mercados exigentes”, informados e onde os consumidores sabem os benefícios do consumo de pequenos frutos, pelo seu poder antioxidante que integra regimes de alimentação e corpo saudável, bem como os benefícios para a prevenção de doenças de demência.

E por este facto, toda a rotina de produção e manutenção é gerida por regras rígidas higiossanitárias, a par de uma série de cuidados e práticas sustentáveis, como a monitorização de rega com recurso a uma aplicação móvel, a utilização racional da água, utilização e preservação do solo e das suas características, preservando o coberto vegetal que ajuda a reter água junto das raízes das plantas e que também ajuda na deslocação dos carrinhos da colheita, usados pelos trabalhadores, e mantendo zonas de descanso, com plantas silvestres, para que os insetos auxiliares possam refugiar-se quando há recurso ao uso de insecticidas, bem como todos os animais silvestres que lá vão passando a integrar a biodiversidade da parcela. Também o recurso a alfaias agrícolas e trator são usados o mínimo para não poluir o ambiente e para poupar nos custos associados. No futuro talvez se incorporem painéis solares na courela, para uma melhor eficiência energética.

“Se não se sentir a terra, não vale a pena”

Junto à zona da pesagem e embalagem para o transporte, está a zona de descanso dos trabalhadores. Ali, Manuela explica-nos que toda a fruta é pesada, selecionada, mediante as encomendas e a sua tipologia. “É tudo muito técnico”, diz, mencionando que a mão-de-obra que ali é especializada, tendo 4 colaboradoras a tempo inteiro até ao momento, e que a aposta na formação é muito grande. “É uma necessidade, para que saibam colher bem, para terem uma boa velocidade de colheita e que a façam com qualidade, pois tudo isto vai influenciar o valor final que o empresário vai ter – o lucro”, esclareceu.

“Tudo o que está aqui e tudo aquilo que eu fiz é resultado do meu esforço e do esforço da minha família. Estamos em terreno sagrado”, diz, com um sorriso luminoso, de orelha a orelha, como quem abre os braços e convida a conhecer o seu pedaço de paraíso na terra.

E recorda, de regresso à terra, às origens, e revelando que o que mais a fascina são “as memórias”. “ Dá-me um gosto extraordinário imaginar que o meu avô teria um orgulho muito grande em ver aquilo que estou a fazer em terras nossas, deles,…”, prosseguiu, dando as referências históricas do lugar, terrenos onde teria estado instalada uma antiga cidade romana, chamada Aritium.

“Estou a aproveitar e a tirar partido daquilo que outros viram antes de mim”, pois “desde sempre estes solos foram aproveitados agricolamente”, e de imediato recorda o bom pêssego, as hortícolas frescas, entre outros produtos endógenos.

Por outro lado, e ainda que o mundo agrícola seja “fascinante e motivador”, exige uma base sólida e muito amor ‘à camisola’.

Foto: mediotejo.net

Esta é uma empresa “completamente familiar” onde “toda a gente ajuda”, desde a mãe Camila, que prepara o almoço, ao pai António que ajuda em tudo o que lhe é pedido. Fala ainda do tio Arlindo Ruivo como referência e inspiração. Professor primário aposentado, lançou-se com a esposa por herança na produção de vinho da talha e é detentor de uma exímia adega no Alentejo, em Vila de Frades, Vidigueira, contou-nos, visivelmente orgulhosa.

“Aqui toda a gente colabora. Sem retaguardas fortes, sem apoio familiar, é muito difícil conseguir determinadas dinâmicas de vida e a vida agrícola não tem horas”, sublinhou.

Manuela lembrou ainda que conta com a engenheira Rita, que além de ter feito ali estágio profissional, ali tem ficado para controlo de qualidade e acompanhamento de campo.

“É o meu braço direito e a pessoa mais importante na exploração”, afirmou, convicta. “Eu estou muito presente, mas é ela quem está cá no dia-a-dia (…) Somos primas, com o mesmo gosto pela terra e batemos muito certo”, deu conta, indicando que Rita Bexiga foi “uma surpresa”.

E o futuro? Com a expansão do ano passado e a introdução de uma segunda cultura… “O céu é o limite!…”, remata, com um sorriso rasgado, e com cara de quem tem sonhado muito com este projeto e sempre há procura de novos desafios.

“Eu gostava de ter o campo todo de Alvega com pequenos frutos ou quem sabe outra cultura…”, disse, com ar sereno e de quem, por momentos, conseguira tempo para ponderar as suas aspirações. “Estou aqui com fins empresariais, querendo eu conseguir tirar daqui rentabilidade”, mas outras culturas não estão fora de questão, estão “na manga”.

Foto: mediotejo.net

Quanto ao sonho, exige expansão, e a “grande contrariedade” é a terra disponível. “Preciso de mais terra para aumentar áreas, mas por questões de mentalidade, tradição ou ligação sentimental/familiar, o perímetro de rega de Alvega ou está utilizado (e bem) na ótica da cultura familiar ou então tem terrenos ao abandono”, a par de alguns empresários que “já olham com outros olhos para a produção agrícola”.

A variedade de culturas, assegura Manuela, é vasta e há probabilidade de muitas poderem vingar na freguesia.

“Eu gosto de produzir pequenos frutos porque, tecnicamente, é desafiante”, vai indicando, mas a demonstrar que também se interessa em espécies que, a pouco e pouco, vingam no Ribatejo, caso das nogueiras, aveleiras, pistacheiros, amendoeiras.

Crê que “podem ser culturas a implementar na região e na freguesia”, e não descura a romã e a preservação do olival, onde a comunidade poderá ponderar o regime semi-intensivo com recurso a mecanização… E, instantaneamente, está a dar consultoria agrícola numa mostra de clareza e a deixa fluir os saberes técnicos.

Agora há que voltar ao trabalho, faça chuva, ou faça sol, pois há muita fruta para apanhar e plantas para podar e cuidar, sem deixar comprometer a produção deste ano. Algures junto à Estrada Nacional 118, em Alvega, esta Courela é, nada mais, nada menos, que um admirável mundo novo, comandado pelos pequenos frutos. Quem por ali passa provavelmente não saberá que ali se produzem os reis da exportação nacional.

Fotogaleria:

*Publicada em junho de 2018, republicada em dezembro do mesmo ano

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