“Abrantes no Ranking dos Municípios”, por José Rafael Nascimento

Foto: José Rafael Nascimento

Abrantes constitui um ecossistema municipal, composto por uma comunidade humana diversa e evolutiva, pertencente ou com referências num território administrativa e culturalmente localizado, integrando infraestruturas, património, estratégias e governança, os quais têm por finalidade satisfazer necessidades e melhorar o bem-estar da população. Nesta perspectiva, é suposto que Abrantes tenha objectivos e metas bem definidos e que os monitorize e avalie com regularidade. Não são simples nem facilmente acessíveis os indicadores que permitem avaliar, de forma agregada e integrada, o desempenho das estratégias e políticas autárquicas, mas alguma coisa existe e está disponível no espaço público, como é o caso do estudo Portugal City Brand Ranking (PCBR©), da Bloom Consulting. Anualmente, esta consultora internacional – colaboradora da OCDE e da European Travel Commission, e citada pela BBC, Economist, Forbes e CNN – publica uma classificação dos municípios portugueses, baseada “na performance de marca dos 308 municípios portugueses, nas áreas do Turismo, Negócios e Talento, a partir da análise de dados quantitativos estatísticos e digitais”.

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A metodologia do PCBR© compreende três indicadores compósitos – Negócios (Investimento), Visitar (Turismo) e Viver (Talento) – e recorre a três fontes de informação – Dados Estatísticos, Procura Online e Desempenho Online –, sendo os dados estatísticos de natureza Económica (número de empresas, variação do número de empresas, % de novas empresas/total e rácio de empresas/número de habitantes), Turística (número de dormidas, crescimento de dormidas, taxa de ocupação hoteleira e número de dormidas/habitante) e Social (população, taxa de crescimento da população, taxa de desemprego, poder de compra, taxa de criminalidade e estabelecimentos de ensino superior/10.000 habitantes).

Figura 1 – Indicadores de Procura Online, sendo o Desempenho avaliado pelo portal e redes sociais utilizadas pelo município (Fonte: Bloom Consulting)

Esta descrição relativamente detalhada da metodologia justifica-se pelo facto de, não existindo metodologias completas e perfeitas, ser essencial tê-la em conta para uma análise séria dos resultados obtidos, i.e., os rankings apurados neste estudo devem ser interpretados com base e nos limites da metodologia utilizada, sem os enviesar para qualquer tipo de aproveitamento (político ou outro), a favor ou contra. Assim, recuperando todos os seis estudos publicados desde 2014, a posição de Abrantes no ranking dos municípios portugueses – da região Centro e de todo o País – evoluiu da seguinte forma:

Figura 2 – Evolução de Abrantes no Ranking Municipal Regional (Fonte: Bloom Consulting)

Como se observa, a posição de Abrantes no ranking regional do Centro – composto por 100 municípios – pode ser considerada estável, sendo esta estabilidade apreciada por quem se conforma, temendo pior ou esperando “poucochinho”, e rejeitada (enquanto estagnação) por quem ambiciona desenvolver o território e posicioná-lo entre os melhores concelhos da região. De qualquer modo, Abrantes posiciona-se no primeiro quarto do ranking, fazendo jus à sua tradicional importância no âmbito regional. Alargando agora a classificação a todos os 308 municípios, a posição de Abrantes no ranking nacional teve a seguinte evolução, situando-se no primeiro terço deste ranking:

Figura 3 – Evolução de Abrantes no Ranking Municipal Nacional (Fonte: Bloom Consulting)

Não sendo grande a diferença em relação ao ranking regional, nota-se aqui, contudo, uma ligeira tendência de declínio, contrariada de alguma forma no último ano em análise. Ver-se-á, no futuro, se esta pequena melhoria é temporária e conjuntural, ou se indicia uma inversão de tendência. A informação que se recolhe no terreno não nos tranquiliza, mas é preciso esperar para ver o que dirão os números no próximo ano. Entretanto, importa perceber como se explica a evolução da posição de Abrantes no ranking, a partir da análise da evolução das três dimensões que servem de base para o seu apuramento – Negócios, Visitar e Viver – estando o município na primeira metade do ranking em todas elas:

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Figura 4 – Evolução de Abrantes nas 3 Dimensões do Ranking Municipal (Fonte: Bloom Consulting)

Verifica-se, por este gráfico, que Abrantes teve uma evolução muito positiva na dimensão Negócios nos últimos 5 anos, sobretudo no ano (2015) de recuperação da crise económico-financeira que Portugal enfrentou em finais de 2008, agravada com o pedido internacional de resgate da dívida, em 2011. Há que verificar, contudo, até que ponto esta evolução pode estar influenciada pela grande produção automatizada (ex. Mitsubishi e Bosch), escondendo a realidade das PME e do emprego, ou mesmo por compromissos de investimento não concretizados. Já na dimensão Viver, o percurso foi de estabilidade, mantendo sensivelmente a mesma posição no ranking regional. Todavia, na dimensão Visitar, a evolução tem sido claramente negativa, estando Abrantes a perder consecutivamente terreno em relação aos demais municípios da região Centro de Portugal. Este resultado não surpreende, infelizmente, quem conhece a realidade turística de Abrantes, explicada numa crónica que publiquei há poucos meses neste jornal digital (ver “Abrantes e o Médio Tejo: Que Estratégia para o Turismo?”). Atenta a evolução de Abrantes em si própria, parece-me útil compará-la com a evolução dos outros dois municípios da sub-região do Médio Tejo com dimensão populacional semelhante, designadamente Tomar e Torres Novas:

Figura 5 – Evolução de Abrantes, Tomar e T. Novas no Ranking Municipal Regional (Fonte: Bloom Consulting)

No ranking regional, a evolução da posição de Abrantes – que acima caracterizei como de estabilidade – contrasta com a verificada nos outros dois concelhos. De facto, Tomar e Torres Novas recuperam da crise e disparam em 2017 para posições mais cimeiras, enquanto Abrantes vai andando a “marcar passo”, embora no primeiro quarto do ranking. Torres Novas tem, contudo, um sobressalto no último ano, enquanto Abrantes mostra uma ligeira recuperação. Falta saber se estas pequenas variações são circunstanciais ou sintomáticas de alguma inflexão. A realidade do ranking nacional não é, obviamente, muito diferente, confirmando a descolagem de Tomar e a disputa de Torres Novas por uma melhor posição no ranking, face a Abrantes:

Figura 6 – Evolução de Abrantes, Tomar e T. Novas no Ranking Municipal Nacional (Fonte: Bloom Consulting)

Será interessante, então, ver o que se passa comparativamente em cada uma das três dimensões que compõem o ranking. Assim, na dimensão Negócios os três concelhos caminham muito a par na metade superior do ranking, depois de uma recuperação de Abrantes em 2015. Torres Novas é o município que menos positivamente evolui, mantendo-se estável em relação à média, enquanto Abrantes e Tomar disputam uma melhor posição nesta dimensão do ranking.

Figura 7 – Evolução de Abrantes, Tomar e T. Novas na dimensão Negócios do Ranking Municipal (Fonte: Bloom Consulting)

Na dimensão Visitar, a realidade turística dos três municípios é bem distinta. Assim, enquanto Tomar consolida a sua posição elevada nesta dimensão do ranking, porventura aproveitando e beneficiando do turismo religioso no concelho vizinho de Ourém, Torres Novas enceta uma recuperação surpreendente, ultrapassando no último ano (a meio do ranking) Abrantes que, para desconsolo dos abrantinos que amam e se preocupam com a sua terra, continua a negligenciar a actividade turística e as imensas e excelentes oportunidades económicas e sociais que esta lhe poderia proporcionar, se outra fosse a ambição, a estratégia e o marketing territorial do município (ver “Marketing dos Territórios e as lições de Lewis Carrol”).

Figura 8 – Evolução de Abrantes, Tomar e T. Novas na dimensão Visitar do Ranking Municipal (Fonte: Bloom Consulting)

Relativamente à dimensão Viver, os três municípios considerados seguem muito a par e em posições cimeiras, com uma tendência de subida de Tomar e de descida de Torres Novas. Abrantes, pelo meio, segue ronceiramente o seu percurso, o que não admira quando uma autarca dá mais importância à imagem pessoal e à agenda de viagens do que ao trabalho de equipa e à definição de boas políticas para o concelho. A recente substituição verificada na presidência da autarquia constitui pois, para Abrantes, uma oportunidade que tardava e que não deverá ser desperdiçada pelo edil que lhe sucedeu.

Figura 9 – Evolução de Abrantes, Tomar e T. Novas na dimensão Viver do Ranking Municipal (Fonte: Bloom Consulting)

Os resultados apurados pelo PCBR©, acima apresentados, merecem ser discutidos com detalhe e profundidade, confrontando-os com outras fontes, incluindo o conhecimento e a experiência que se tem da realidade concreta no terreno. Importa reflectir sobre as particularidades e causas da evolução verificada nos últimos cinco anos para, a partir desse diagnóstico, serem redefinidas as estratégias e tomadas as medidas que coloquem Abrantes na senda do desenvolvimento económico e progresso social. É preciso não esquecer que os demais municípios da região e do país têm também as suas estratégias e dinâmicas de desenvolvimento, estando todos em competição aberta pela atracção de investimentos, visitantes e novos habitantes. Há muito, e sobretudo diferente, a fazer no concelho, tanto ao nível da cidade como das esquecidas freguesias rurais e periféricas, vítimas de dupla interioridade, a que é imposta ao interior do país pelo governo central e a que lhes é imposta pelo próprio município. A desertificada e empobrecida União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós é disso um caso paradigmático, tendo perdido quase todos os serviços essenciais e sido praticamente apagada do mapa autárquico nas últimas décadas (estará o seu futuro ligado à emergente economia de Ponte de Sor?).

A prometida atenção a dar às freguesias pelo edil recém-empossado vai estar sob atento escrutínio, sabendo a população distinguir com clareza entre uma política desenvolvimentista, séria e bem pensada, e uma política cosmética e de relações públicas, vulgarmente conhecida por “pão e circo” ou “papas e bolos”. A haver uma nova e credível política autárquica, ela terá necessariamente de passar pela tomada de medidas sustentáveis e estruturantes de desenvolvimento económico, social e cultural que beneficiem, de forma harmoniosa e equilibrada, todo o município. Entre outras medidas, veremos se o obsoleto programa Abrantes Invest é ou não substituído por uma política eficaz de promoção do empreendedorismo e captação de investimento, se é apoiada a pequena produção e comercialização agrícola e artesanal, definida uma política integrada de turismo e lazer, recuperado o degradado espaço público e património imobiliário (incluindo o edifício histórico do Mercado), alargada a rede de drenagem e tratamento de águas residuais (quando será cumprida a promessa feita a Vale de Zebrinho?) e exigida às operadoras de telecomunicações uma melhor cobertura da rede móvel e de dados.

Figura 10 – O edifício histórico do Mercado, devidamente requalificado e posto ao serviço de Abrantes, tem uma soberba e única qualidade vintage e de marketing territorial.

No domínio social, espera-se ver assegurada uma cobertura médica e assistencial compatível com a condição social e económica da população (o regresso do serviço médico à freguesia de S. Miguel do Rio Torto corresponde a uma nova política de saúde de proximidade, extensível a todas as freguesias rurais e periféricas?), apoiado o estudo acompanhado e diminuído o insucesso escolar (ver crónica), dada maior atenção ao ensino superior e atraídos mais estudantes nacionais e estrangeiros e, por último, mas nem por isso menos importante, demonstrada total isenção e justeza na promoção da inclusão e participação social (ver crónica), com a imprensa local a assumir um papel mais escrutinador. Abrantes está há demasiados anos a declinar, perdendo mais de 1% da sua população em cada ano, quebra superior à de Tomar ou Torres Novas. A errância das políticas autárquicas, ora centralizadoras ora descentralizadoras, ao sabor de caprichos pessoais e, sobretudo, de muita ignorância e arrogância, obviamente não têm ajudado. Abrantes merece melhor, que seja definido um rumo correcto e mobilizada a sua população, para que todos se sintam cidadãos de primeira e protagonistas do seu destino colectivo.

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