Abrantes | O adeus ao “Oficial da Ordem da Criatividade”, por José Martinho Gaspar

Manuel Lopes de Sousa na sua oficina | Foto: José Martinho Gaspar

Manuel Lopes de Sousa nasceu em Abrantes, na Rua da Barca, há 95 anos. Em 2004 foi galardoado, pelo então Presidente da República, como Oficial da Ordem de Mérito Agrícola. Na região muitos desconhecem o seu percurso de criatividade, apesar de ter alcançado inúmeros prémios nacionais e internacionais. Aqui ficam alguns momentos de uma vida cheia, que não cabe nos limites do que se pode contar. Paz à sua alma.

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Aos 15 anos criou o seu primeiro invento para aplicação em larga escala. Os telhados eram feitos com telha de canudo e, para maior segurança, as telhas eram presas por pequenos arames dobrados em “S”, Lopes de Sousa concebeu uma máquina que cortava e dobrava rapidamente os ditos arames, vendendo-os a pedreiros e lojas.

Aos 21 anos estabeleceu-se por conta própria como serralheiro, numa altura em que qualquer rapaz queria ser mecânico. Mas, segundo conta, ser mecânico era mexer naquilo que os outros faziam e ser serralheiro era poder fazer aquilo que a ideia pedia.

Em 1951 registou a patente de invenção n.º 28890 – máquina de cortar legumes, frutos e tubérculos – e no ano seguinte concebeu e construiu o primeiro descarolador de milho com limpeza total feito em Portugal. Dois anos depois lançou um descarolador motorizado em carro próprio rebocável.

Máquina de cortar legumes, frutos e tubérculos | Foto: José Martinho Gaspar

No ano de 1964, registou a patente de invenção n.º 42302 – máquina para fender, em contínuo, chumbo esférico usado na pesca à linha –, que foi medalha de prata no 13.º Salão Internacional de Inventores, em Bruxelas.

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No início da década de 70, registou a patente de invenção n.º 56089 – aperfeiçoamentos em máquina para limpeza de cereais, leguminosas e outros produtos – que se expandiu sobretudo para o Baixo Mondego e Alentejo, mas também Angola, durante algum tempo comercializada pela Metalúrgica Duarte Ferreira. Esta invenção foi galardoada com a medalha de prata no 21.º Salão Internacional de Inventores, de Bruxelas, em 1972. Havia sido anteriormente premiada na Feira Internacional de Lisboa, em 1971, vindo a ser também laureada na Feira Nacional de Agricultura, Santarém, em 1980.

Em 1978 registou a patente de invenção nº. 65838 (espanhola nº. 464082 e italiana nº. 2935A77) – máquina para limpeza de azeitona. Pela mesma altura, a pedido dos técnicos da Estação de Olivicultura de Elvas, desenvolveu um novo modelo para trabalho no campo, que conquistou a medalha de ouro no Salão Internacional de Invenção e Técnicas Novas, de Genebra (1977) e o prémio na Feira Internacional de Agricultura, de Santarém (1979).

Descamisador/Descarolador | Foto: José Martinho Gaspar

No começo dos anos oitenta, registou a patente de invenção nº. 75907 (francesa nº. 831904) para aparelho respiratório de proteção para aplicação nasal – medalha de ouro no Salão Mundial de Invenção, Pesquisa e Inovação Industrial, de Bruxelas. Foi-lhe então atribuída a medalha de honra da cidade de Bruxelas.

Depois deste extraordinário percurso, em 1995, foi atribuída a Manuel Lopes de Sousa a medalha municipal de mérito industrial da cidade de Abrantes.

O Engenheiro Fausto Briosa afirmou que Manuel Lopes de Sousa é «o homem que, em Portugal, melhor domina o vento», particularmente ao nível das máquinas de limpeza. Apesar dos muitos inventos e dos múltiplos prémios, Manuel Lopes de Sousa deixou sempre um lamento: «Os apoios que tenho tido são quase nulos. A minha vida resume-se a isto, produzir nas horas de trabalho para poder investigar fora delas».

A Palha de Abrantes produziu há alguns anos um documentário intitulado “Manuel Lopes de Sousa – Um inventor com histórias”, que por vontade de Lopes de Sousa, desde que tal trabalho foi pensado, tinha como principal público as escolas. Quando quer reinventar-se, a escola (e toda a sociedade) apenas poderá dar passo consistentes se buscar a luz da criatividade, como sempre aconteceu com Manuel Lopes de Sousa.

Manuel Lopes de Sousa, figura incontornável como industrial e inventor abrantino, morreu este sabado, com 95 anos de idade. O velório terá lugar na Igreja da Misericórdia a partir das 17:30, realizando-se o funeral este domingo, às 14:30.

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