Abrantes | Manuel Lopes, uma voz pela liberdade do Santa Maria ao 1º de Maio

Manuel Lopes

Num concurso para a Função Pública acusou o sistema de privilegiar um candidato, fez queixa consagrada em papel azul e branco. Foi aconselhado a reconhecer que se tinha enganado. Recusou e voltou a afrontar o regime ao reivindicar um salário igual como definia a lei. Tudo por causa do seu coração, que o levou ao encontro do Capitão Henrique Galvão no Hospital de Santa Maria. Por amor à democracia, a partir desse dia Manuel Lopes nunca mais foi o mesmo.

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Manuel Lopes tropeçou na história. Quando aos 18 anos, depois de um problema no coração, escolheu ser operado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, pelo médico José Granado, um dos três cirurgiões de referência do Estado Novo, não imaginava despertar para a contestação ao regime ao encontrar no quarto em frente ao seu, igualmente enfermo, o Capitão Henrique Galvão. Detido que fora encontrava-se ladeado pela PIDE, sempre presente mesmo quando as conversas entre Manuel e o Capitão se desenrolavam no terraço do Hospital.

“As conversas eram permitidas” explica Manuel Lopes. E o Capitão aproveitava para avançar com algumas palavras proferidas entre os dentes e quase ao som do silêncio, perigosas mas esclarecedoras, sobre a repressão latente num regime ditatorial, fervoroso anti-salazarista que era. Ficaria mundialmente conhecido, três anos depois, quando em 1961 organizou e comandou o assalto ao paquete Santa Maria numa tentativa de provocar uma crise política contra o regime de António de Oliveira Salazar.

Manuel acabou por presenciar a sua fuga do Hospital Santa Maria sem perceber naquele momento tratar-se de tal, ao ver da varanda sair o Capitão escoltado por policias e entrar num veículo carimbado com a sigla EP, pensando tratar-se de uma transferência prisional. Só quando de volta à sua terra, em Vale de Açor, Bemposta, no concelho de Abrantes, contou a história na barbearia. Aí percebeu que afinal a história era outra e que ficaria escrita: o Capitão havia fugido.

Henrique Galvão, após a fuga do Hospital, refugiou-se na embaixada da Argentina, tendo conseguido exílio político na Venezuela. O Capitão era, com Humberto Delgado, uma figura extremamente popular nos meios oposicionistas não afetos ao Partido Comunista Português. Para o PCP, Portugal ainda não estava pronto para a revolução, enquanto Galvão achava que não havia tempo a perder. Esta parte da história aclarou-se na mente de Manuel mais tarde quando leu o livro “O assalto ao Santa Maria” da autoria de Henrique Galvão.

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O mal de coração foi ainda parceiro involuntário noutra fuga, a de Manuel Lopes à Guerra Colonial. E se é verdade que o 25 de Abril aconteceu de noite para a madrugada, a verdade é que nada acontece de geração espontânea sendo necessária mais de uma década para cair o Carmo, ainda que a Trindade pertença a outra parte mais remota da história de Portugal.

No dia 24 de abril de 1974 Manuel estava em Lisboa a acertar um contrato de trabalho com uma companhia de seguros. Fez-se à estrada até Abrantes já de noite, parou no Vale de Santarém sem se cruzar com os revolucionários que viriam a derrubar o regime.

Cartão de Manuel Lopes quando era vereador da Câmara Municipal de Abrantes

“Não vimos movimento nenhum, nem Salgueiro Maia nem os carros que foram para Lisboa”, recorda. Chegou a casa já passava da meia-noite, sem muita vontade de ligar a telefonia. Na manhã seguinte foi alertado pela mulher que estranhou uma rádio muda de notícias, “passava a Grândola Vila Morena. Mas isso não era proibido pela censura?”, questionava a mulher.

Manuel deu um salto da cama, desconfiado depois do fracasso do 16 de março na ‘Revolta das Caldas’. Zeca era e foi durante muitos anos censurado, uma das razões de tomada de consciência, senão política, pelo menos dos direitos, ou a falta deles, dos mais pobres e particularmente das mulheres.

O pai de Manuel Lopes era um agricultor de Vale de Açor, e apesar da máquina propagandista do regime, tinha noção de viver numa sociedade autoritária e fechada. Ele próprio era um homem avesso, em certa medida, ao progresso, uma vez que estudar dizia ser para “a malandragem”, por isso os planos para o filho passavam por abraçar uma profissão de barbeiro ou alfaiate.

“Nada disso aconteceu”, explica Manuel, hoje com 79 anos. Aos 21 matriculou-se na Escola Industrial e Comercial de Abrantes, ao mesmo tempo que trabalhava como recepcionista no Hotel Turismo.

Aluno do pós laboral “era o único homem que tinha autorização para entrar pela porta principal”, entrada destinada às raparigas, que as misturas e os ajuntamentos eram proibidos.

As aulas começavam às 19h00, hora em que saía do Hotel a correr até à escola que hoje é a Secundária Dr. Solano de Abreu. “Chegava 5, 6 minutos atrasado todos os dias, menos à quinta-feira” atraso que lhe custava 5 centavos por cada justificação de faltas.

“Tive sorte porque a professora, devido à minha condição, passou a fazer a chamada só no final das aulas”, contudo sem direito a participar, assumindo a qualidade de “aluno assistente por me atrasar 5 minutos”, conta.

Em 1967 chegou-lhe um convite para trabalhar como eventual na Função Pública. “Fui ocupar o lugar de um rapaz mobilizado para a Guerra do Ultramar”. Dessa forma começou a trabalhar na secretaria da Escola Industrial.

Quando abriu concurso para entrar para o quadro, Manuel viajou até Santarém para prestar provas onde presenciou uma “canalhice”: um dos candidatos claramente favorecido em detrimento dos demais. Apresentou queixa no próprio dia.

Apesar de aconselhado a desistir da participação, recusou até porque não suportava desonestidade e não tolerava o tratamento dado no feminino. “As mulheres, mesmo que tivessem melhores notas eram excluídas perante um homem. Ela poderia ter 19 e ele 10, passava o homem”, conta. Tal querela valeu-lhe a demissão da Escola “por dizer a verdade”.

Mais tarde, no tempo em que o presidente da Câmara de Abrantes era Agostinho Baptista, volta a ser convidado para trabalhar como eventual nos Serviços Municipalizados “a ganhar 40 escudos por dia, embora fosse de lei ganhar o mesmo salário que um funcionário efetivo”.

Tal não acontecia e Manuel abria a voz para reclamar esse direito, e fazia-o publicamente. Essa “injustiça social”, em conjunto com a recusa em realizar o exame logo à partida inquinado, valeu-lhe um agente da PIDE à perna, ainda que o Estado Novo obrigasse o funcionalismo público a repudiar o comunismo e todas as ideias subversivas.

“Seguiram-se tempos maus, com um estranho constantemente a seguir-me. Espiava-me, sentava-se no mesmo café que eu a ler o jornal” recorda. A personagem perseguidora desapareceu após uma conversa que teve com o Dr. Estrela, chefe da secretaria da Câmara Municipal, também correspondente do jornal ‘O Século’ em Abrantes e seu “amigo” dos tempos em que Manuel trabalhava no Hospital de Abrantes e lhe passava notícias.

“Dizia-se que era da PIDE. Contei-lhe que tinha feito queixa por causa do exame e que tinha sido demitido da Escola” e o certo é que a figura sinistra deixou de o seguir. “Nessa altura nunca pensei em meter-me na política”, garante.

Involuntariamente já o fazia na secretaria da Escola Industrial. “O Camões, chefe da secretaria, pedia-me que dactilografasse em stencil panfletos, papéis sindicais de apelo à luta e indignação dos trabalhadores. Depois de dactilografado e impresso, os stencil eram queimados. Os panfletos, colocados em envelopes, eram depois entregues por ele a alguém não identificado que viria num carro com uma determinada matricula”, num trabalho na clandestinidade de resistência ao regime.

Manuel voltou à Função Pública, em 1968, apresentou-se como o primeiro funcionário do ciclo preparatório a inaugurar no Convento de São Domingos, só possível graças à insistência do diretor Vitor Marques e porque a sua demissão da Escola Industrial não tinha resultado de um processo disciplinar, uma vez que era um trabalhador eventual.

No dia da Revolução dos Cravos trabalhava na escola de Tramagal.

Cartão de Manuel Lopes enquanto dirigente sindical

Já em democracia, corria o ano de 1979, integrou as listas da APU (Aliança Povo Unido), em terceiro lugar da lista. Eleitos foram dois comunistas, mas Manuel Valente faleceu por altura de um congresso do PCP no Porto e Manuel Lopes, como independente, ocupou o seu lugar.

Na Câmara Municipal de Abrantes permaneceu 15 anos com vários pelouros atribuídos: Jardins e Miradouros, Ambiente, Transportes, Trânsito e Mercados. Em 1984 relançou a iniciativa Janelas Floridas e assegura ter “muito orgulho de dizer aos netos as árvores que plantou” como as palmeiras da Avenida da Escola Dom Miguel de Almeida, em Abrantes.

Durante 25 anos Manuel assumiu também funções de formador do Ministério de Educação. Só mais tarde, depois de abandonar as funções de vereador, é que abraçou o movimento sindical. De 1994 a 2003 integrou a direção da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública. Discursou em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, a convite da CDU, onde falou sobre temas que o preocupam como a eucaliptização.

“Sempre fui um feroz opositor ao eucalipto, a central termoeletrica e o assoreamento do rio Tejo”, frisa.

Considera “a vida sindical muito difícil!”, mas orgulha-se de conseguir aumentar a sindicalização dos funcionários do Liceu.

“Quando lá cheguei dois ou três eram sindicalizados, quando saí eram quase todos”, afirma. Embora no seu local de trabalho nunca tenha realizado atividade sindical. Essa foi uma das condições para integrar o movimento. A partir daí embrenhou-se em lutas, discussões e reivindicações, sem nunca deixar de ter tempo para o futebol e para o Sport Lisboa e Benfica do qual é “adepto incondicional”.

Abandonou o sindicalismo aquando da reforma para “ter a vida” que não teve na juventude. Mas atualmente, arrepende-se de não ter seguido a vida sindical, muito pela “sensação de permanecer um sentimento de que o sindicato não faz nada”.

Nas várias frentes de luta disse muitas vezes: “o sindicato somos nós!”. Ainda assim fá-lo feliz ter conseguido a alteração dos Estatutos do Pessoal Não Docente das Escolas que datava de 1973, e entristece-o os “muitos direitos” perdidos, e a “regressão” social”.

“Os trabalhadores estão muito mal. Congelaram-se carreiras, tempo de serviço, salários”, observa.

Durante o Estado Novo, recorda a existência de sindicatos nas grandes empresas, “semi-clandestinos onde o PCP tinha células do movimento sindical, estavam organizados” muito antes das principais vertentes da chamada ‘primavera marcelista’ como a alteração da legislação sobre sindicatos, trabalho e contratação coletiva.

Em Abrantes, “como por todo o País, a grande manifestação de povo na rua aconteceu no 1º de Maio. Marcou-me. Um dia memorável”, lembra.

Um ano depois integrava a Comissão de Moradores de Abrantes, que “procurava habitação para as pessoas. Ocupamos uma casa devoluta junto da Escola Solano de Abreu para um professor de Timor. A pagar renda à dona da casa que era a senhora Julieta Farinha Pereira. De resto foi pacífico”, diz.

“Era o povo e o MFA. No 1º de Maio viu-se que estava consolidada a revolução de Abril”.

Na memória também a ocupação “que não chegou a ser” do colégio La Salle após a retirada dos frades. Nos primeiros dias de setembro de 1975 “soubemos que dois mil retornados iriam ser colocados nas instalações. Ora o Liceu estava a rebentar pelas costuras e pensámos: cabe lá é dois mil alunos. Falámos com os administradores do Colégio no sentido de arrendar ao Estado se não concordassem seria pela força. Estava preparado um piquete militar para ocupar” o Colégio.

Não foi necessário. O contrato de arrendamento aconteceu em 1979, a revolução foi tomando outro rumo e encerrou-se a ditadura. “Esperemos que não volte”.

 

*Entrevista publicada a 1 de maio de 2018, republicada em abril de 2019

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