Feira de São Matias 2019. Foto: Rita Pedroso

A Feira de São Matias tem muito para contar. Com o passar dos anos, e até de séculos, mudou-se muita coisa. Por várias vezes, a localização. Com um olho na crise e outro na tradição, esta continua a ser a primeira grande feira do ano em Portugal. Este ano, decorre entre os dias 15 de fevereiro e 10 de março, no Rossio.

O Tejo acompanha, por esta altura, uma correnteza de barraquinhas, roulottes, carrosséis e outras diversões. A banca de Sumon Mrida é uma das primeiras da fileira. Simpaticamente, vai fazendo notar, a quem passa, a qualidade dos seus produtos. À semelhança dos feirantes vizinhos, vende quinquilharia diversificada: desde óculos de sol a meias. Mas confessa que “o que sai mais são os brinquedos”.

Tanto o nome como os traços físicos não fazem esconder que é estrangeiro. É natural do Bangladesh. Com um português aceitavelmente fluído e ao som de um kizomba, conta: “Em primeiro emigrei para a Suíça, depois vim para aqui… há oito anos.” Ao longo deste período fez muita coisa, sendo que a última foi trabalhar numa pizzaria, mas as altas temperaturas a que estava sujeito fizeram com que quisesse procurar algo diferente. Anda de feira em feira há três anos, mas em terras abrantinas é a primeira vez.

Meia dúzia de metros adiante, atoalhados e lençóis saltam à vista. É o espaço de Luís Francisco, natural de Alcanena, numa feira em que não é estreante. Aliás, só na Feira de São Matias já conta cerca de 20 anos. Ele, vai nos 61. “Não completei os estudos. Fui trabalhar com 16 anos e tirei a carta de condução. Depois o meu pai pediu-me para trabalhar com ele… mais tarde adoeceu e acabei por ficar eu com o negócio.” Desde então, este homem que nasceu na feira, percorre o país de uma ponta à outra.

“Farturas de Abrantes” é o que se lê na primeira roulotte que compõe o espaço dos comes e bebes. E falando dos mais antigos… esta não fica nada atrás: “Faço esta feira há 50 anos”, sublinha o proprietário Joaquim Galvão. Entre uma insatisfação e outra, começando pelo não fornecimento de eletricidade por parte da Câmara e acabando na falta de artistas para atrair público, desabafa: “Vendo farturas porque foi uma coisa que aprendi a fazer quando era novo e tenho de o fazer até morrer… faço-o com amor.”

Aquela tarde de um dia de semana até correu bem para o Sr. Joaquim das “Farturas de Abrantes”. Primeiro chegou um grupo do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes (CRIA) e depois um grupo do Centro de Dia de Alferrarede. Vendeu dezenas de farturas. D. Albertina deixou-se para o fim da fila, porque preferiu conversar. “Venho desde pequenina. Tinha seis irmãos, eu era a mais velha. Tínhamos um tio muito nosso amigo que nos trazia de carro.” Se a memória não a atraiçoa, foi há 94 anos que aqui nasceu, em Abrantes. Assegura que visitará a feira de São Matias até morrer.

Feira de São Matias 2019. Foto: Rita Pedroso

Irremediavelmente, o cheiro a farturas, pipocas e algodão doce mistura-se com um outro. O do pão com chouriço. Já junto às diversões, todo o processo é feito de frente para os clientes. Prepara-se a massa e o forno. Nesta tarefa está Laurentino, um senhor de poucas palavras que não deverá ter mais de 50 anos. Ao balcão, Tânia Rodrigues explica a atual variedade de produtos, destacando-se o pão com chouriço e queijo. Ela, que não consegue ser precisa, estima que a casa tenha “mais de 25 anos”.

O “Moedinhas” é um dos fãs desta casa. Nascido e criado no Rossio ao Sul do Tejo, já dispensa apresentações. “É uma grande diversão. Aqui, estamos sempre contentes. Bebemos uns copos para aqui, bebemos uns copos para acolá”, diz. O que continua a ser, na sua ótica, a grande atração são os carrinhos de choque. E não há desculpas: “Quando alguém diz que não tem dinheiro, a gente desenrasca-lhe uma ficha.” E a feira é isto mesmo, “para quem venha, quer sejam velhos ou novos, ricos ou pobres”.

*Rita Pedroso/aluna do curso de Comunicação Social da ESTA

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