Abrantes | Distrito de Santarém com 26% das farmácias em dificuldades, diz ANF

Visita do presidente da Associação Nacional de Farmácias, Paulo Cleto Duarte, à Farmácia Baptista Rei, no Carvalhal. Créditos: mediotejo.net

O presidente da Associação Nacional de Farmácias (ANF) esteve esta segunda-feira, em Carvalhal, na farmácia Baptista Rei, a única da zona Norte do concelho de Abrantes e que abastece de medicamentos os utentes de mais de 30 aldeias, quer do próprio concelho quer do vizinho Sardoal. Paulo Cleto Duarte deu conta que 26% de farmácias do distrito de Santarém estão em dificuldades, e falou sobre a petição da ANF “Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS”.

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A petição para “salvar as farmácias” em situação mais frágil já foi assinada por 56 mil portugueses e entregue na Assembleia da República, mas o presidente da ANF acredita que atualmente o número ronde as 100 mil assinaturas, tornando obrigatória a sua discussão no plenário da Assembleia da República. Esta segunda-feira, esteve na farmácia Baptista Rei, em Carvalhal. A segunda entrega de assinaturas será realizada após o fim da campanha a 30 de março de 2019.

Com os objetivos de dinamizar a recolha de assinaturas para a petição em curso, bem como conhecer as farmácias em situação mais precária, Paulo Cleto Duarte tem percorrido as farmácias de Portugal mais vulneráveis e, na Farmácia Baptista Rei, em Carvalhal, falou com o mediotejo.net sobre o quadro atual da rede de farmácias no distrito de Santarém.

Abrantes | Distrito de Santarém com 26% das farmácias em dificuldades, diz ANF
Visita do presidente da Associação Nacional de Farmácias, Paulo Cleto Duarte, à Farmácia Baptista Rei, no Carvalhal. Créditos: mediotejo.net

“Não quer dizer que sejam apenas farmácias em dificuldades. O que escolhemos são farmácias que simbolizam a farmácia que queremos todos proteger como cidadãos. Localizada em meios rurais, normalmente com poucos habitantes, às vezes não têm acesso a cuidados de saúde de forma fácil. Para que o País veja o valor da rede e a forma como se distribui de forma homogénea garantindo a universalidade e equidade no acesso em qualquer ponto” de Portugal, explica.

A Farmácia Baptista Rei revela uma situação diferente das visitadas. Um dos proprietários, José Baptista Rei, admitiu ao mediotejo.net que a situação da farmácia do Carvalhal “já sofreu dificuldades, encontrando-se em risco” mas sofreu uma reestruturação e neste momento apresenta “um ótimo resultado”, não engrossando a percentagem em risco de fechar portas, no distrito de Santarém.

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Apesar do bom exemplo, o presidente da ANF nota um menor número de recursos neste tipo de farmácias, “mais dependentes do medicamento” devido à população envelhecida e implementadas em territórios de baixa densidade populacional para conseguirem ser “competitivas”.

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Visita do presidente da Associação Nacional de Farmácias, Paulo Cleto Duarte, à Farmácia Baptista Rei, no Carvalhal. Créditos: mediotejo.net

Com esta petição, os portugueses pedem aos deputados um pacote de medidas para evitar a falência de 25% das farmácias e para garantir a igualdade do direito à Saúde em qualquer ponto do território”, disse Paulo Cleto Duarte. No distrito de Santarém “a situação é ligeiramente pior do que a média nacional”, afirmou, dando conta da existência de distritos com situações mais complexas, mas o distrito de Santarém conta com 26% de farmácias em dificuldades.

No final de fevereiro, 679 farmácias enfrentavam processos de penhora e insolvência, mais quatro do que no início do ano, adianta a ANF, que representa 2.750 farmácias. São três as situações que determinam uma farmácia em risco. “Ou enfrentam processos de insolvência ou processos especiais de revitalização ou penhoras sobre os seus ativos que estão a ser executadas”, explicou.

Entre as principais razões das dificuldades vividas por 25% das farmácias está “o preço dos medicamentos e a forma como as farmácias são remuneradas”, afirma Paulo Cleto Duarte. “As farmácias portuguesas passaram a ter as margens mais baixas da Europa“, indicou.

Lançada pela Associação Nacional das Farmácias (ANF), a petição “Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS”, que já ultrapassou largamente as necessárias quatro mil assinaturas para debate parlamentar, defende um programa legislativo dirigido ao setor farmacêutico, para evitar o fecho de farmácias em situação mais frágil.

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Visita do presidente da Associação Nacional de Farmácias, Paulo Cleto Duarte, à Farmácia Baptista Rei, no Carvalhal. Fernanda Duarte. Créditos: mediotejo.net

Propõe o reconhecimento de “um problema” e apresentaram “um conjunto de soluções que passa pelo “melhor aproveitamento da capacidade instalada” de técnicos e farmacêuticos evitando “idas desnecessárias às urgências, trazer para as farmácias os medicamentos que algumas pessoas têm obrigatoriamente de ir buscar os hospital sem nenhuma necessidade. Sem mais integração, se não alargamos o âmbito das farmácias no SNS, vão ficando com menos atividade e dessa forma inviáveis”.

Na prática, Paulo Cleto Duarte defende que o Estado deve desconcentrar. “Fala-se muito na deshospitalização do sistema e as farmácias são uma forma”.

Citando o “pai” do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaut, Paulo Cleto Duarte lembra que as farmácias são a mão longa do SNS.

Nas aldeias rurais do Interior do País “são ainda mais importantes do que noutros locais porque servem como polo agregador de um conjunto de serviços, não só na área da saúde. Às vezes quase de apoio emocional de resolução de outro tipo de problemas das pessoas, e isso é um ativo que não se pode perder. Aqui tenho o mesmo, ou melhor, serviço farmacêutico que em Lisboa ou no Porto” tendo em conta “a proximidade, a disponibilidade de serviços e do tempo. Há mais tempo para cuidar das pessoas”, defendeu.

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Visita do presidente da Associação Nacional de Farmácias, Paulo Cleto Duarte, à Farmácia Baptista Rei, no Carvalhal. José Nazaré Machado. Créditos: mediotejo.net

Fala em coesão territorial, tema que “entra muito no discurso dos políticos mas depois na prática se não reinvestimos” no interior “as pessoas que praticamente já perderam tudo sentem-se abandonadas”. Cumprir o SNS porque “tem a lógica da universalidade e da equidade e isso é algo que as farmácias hoje ainda garantem, noutras áreas da saúde já não acontece, tal como não acontece no Ensino, na Justiça ou nos CTT ”.

Em Carvalhal, José da Nazaré Machado foi um dos utentes que assinou a petição da ANF. Reside em Portela das Fontes, o que implica uma viagem de quase 30 quilómetros (ida e volta) para ir à Baptista Rei. “É a farmácia mais próxima, e assinei para que possa continuar. Quando não tinha motorizada deixava a receita no café das Fontes e depois a farmácia deixava lá o medicamento. Esta farmácia faz muita falta à população”, assegura.

Também Fernanda Duarte assinou a petição no sentido de “preservar a farmácia. É a única do norte do concelho de Abrantes”, nota. Doente com problemas “nos ossos e na vista, desde que abriu a farmácia no Carvalhal sempre comprei aqui os medicamentos. E temos uma população envelhecida, muitos não têm transporte e a farmácia entrega os medicamentos em casa há mais de 30 anos”, observa.

Abrantes | Distrito de Santarém com 26% das farmácias em dificuldades, diz ANF
Visita do presidente da Associação Nacional de Farmácias, Paulo Cleto Duarte, à Farmácia Baptista Rei, no Carvalhal. Créditos: mediotejo.net

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, foi um dos primeiros subscritores, justificando à agência Lusa que “o acesso dos doentes aos medicamentos está mais uma vez em risco. As farmácias estão em grandes dificuldades”.

A recolha de assinaturas iniciou-se no dia 11 de fevereiro e segundo dados da associação, Portalegre, Guarda, Santarém e Setúbal são os distritos com mais farmácias em risco.

A petição adianta que foram reportadas 64 milhões de embalagens de medicamentos em falta nas farmácias só no ano passado, afirmando que “a austeridade sobre o setor do medicamento não pode ser eterna”.

“É urgente salvar a rede de farmácias”, pede o texto da petição, que, segundo a ANF, supera a última petição nacional das farmácias realizada em 2014.

Abrantes | Distrito de Santarém com 26% das farmácias em dificuldades, diz ANF
Farmácia Baptista Rei, no Carvalhal. José Baptista Rei mostra o certificado Ouro recebido há duas semanas. Créditos: mediotejo.net

A Farmácia Baptista Rei, cujo o diretor técnico é também José Baptista Rei, abriu em março de 1986 em Carvalhal. Professor de Física e Química e também licenciado em Farmácia lembra ao mediotejo.net que o desafio chegou do então presidente da Junta de Freguesia do Souto e atualmente sente-se “uma pessoa extremamente feliz. Sinto que pertenço a toda esta família, com quem lido, com quem estou por causa do serviço, com valores de lealdade, entreajuda. Valeu a pena!”, afirma.

Em setembro de 2010 “alteram-se as regras do jogo. Alteração das percentagens e da introdução dos genéricos que originou uma enorme quebra de receita” Na Baptista Rei “passamos a ter menos 4 mil euros por mês. Tinha oito funcionários e agora tenho cinco. Associar-nos a um grupo de farmácias trouxe-nos grandes vantagens e conseguimos recuperar. Hoje é uma farmácia com pujança. Há duas semanas recebeu certificado de Ouro em Castelo Branco”, conta.

José Baptista Rei garante que se não fosse a ANF “metade das farmácias já tinham fechado portas”. Também por esse motivo a Farmácia Baptista Rei “apadrinhou a petição. Até porque as regras do jogo podem ser de novo alteradas ainda mais num territórios de baixa densidade” populacional, alertou.

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