Abrantes | Dia dos Centros Históricos e a redescoberta das histórias e dos recantos da cidade

Foto: Hália Santos

Recordar é viver e o centro histórico de Abrantes tem muito que se lhe diga e, ao mesmo tempo, muito para (re)lembrar. Para assinalar o dia dos Centros Históricos em Portugal, a Câmara de Abrantes promoveu um passeio com estórias e fotografias antigas. Várias pessoas reuniram-se para um passeio de memórias dos velhos e bons tempos e de vários “espaços emblemáticos”, pelos recantos do centro da cidade, onde animação não faltou.

PUB

No largo de São João, ou traduzindo para a linguagem antiga, na Rua do Pasteleiro, os cidadãos estão prontos para começar o itinerário. Carlos Marchão, filho da cidade há 89 anos, chega-se à frente. Muitas pessoas que se preparavam para aquele passeio com História se lembravam que a loja “Mi casa” era dantes o edifício “Minerva”, que albergou a redação do jornal de Abrantes.

Numa rápida volta pela praça, vão-se ouvindo estórias sobre que comércio havia em cada edifício e sobre quem morava em cada prédio. Às vezes, como foi acontecendo ao longo do passeio, nem todos estavam de acordo. Talvez porque a memória já atraiçoe, ou simplesmente porque os participantes se referiam a épocas diferentes. Mas numa coisa todos concordaram: de uma antiga pastelaria daquela praça saíam as melhores Palhas de Abrantes.

Foto: Hália Santos

“Ele é como a RTP memória”, ouve-se Luís Pombo, vogal da função educativa e social do centro social de Abrantes, a dizer, referindo-se a Carlos Marchão. “Não podíamos arranjar melhor orientador”, acrescenta. O antigo presidente da Junta de Freguesia é dono, de facto, de uma memória incrível. E sabia bem que naquele grupo havia gente com vontade de saber estórias do antigamente, mas também sabia bem o que faz rir as pessoas.

Uns passinhos mais a cima, e já dado como guia entendido do grupo, o senhor Marchão fez questão de parar e oportunamente desmentir algumas vozes que se ouviam lá atrás a dizer que Carlos namorava muito nos esconderijos. A resposta, provocou risos marotos: “Nas escadas de S. João só se namorava à janela!”

PUB
Foto: Hália Santos

Para visualmente ir situando as pessoas, José Martinho, organizador do passeio e historiador de Abrantes, trouxe consigo fotografias a preto e branco, que nos remetia imediatamente para outrora. Em cada lugar em que se parava para observar, conseguia ver-se um cenário completamente diferente. Cada imagem trazia uma memória às pessoas mais idosas. Via-se pela forma nostálgica de como argumentavam. Boa parte dos participantes eram da Associação Crescer.

Uma perguntinha ali, outra perguntinha acolá, e de memória bem fresca, o senhor Marchão respondia a tudo e com toda a certeza ao que lhe perguntavam: “As casas não tinham água, e a maioria das pessoas vinham aqui ao chafariz buscar. Só se tomava banho de oito em oito dias.” Mas o que mais espanto causou foi a informação de que as necessidades se faziam na entrada das casas, explicava o antigo presidente de Junta, apontando para uma casa que acabou de ser restaurada.

Foto: CM ABT

Já na rua de Santa Isabel, que era famosa pela decoração florida, e que ainda hoje conta com alguns vestígios de flora, Carlos Marchão testemunha que ao longo da rua existia muito tipo de atividade comercial, como “barbearias, mercearias e tabernas”. Aliás, um pouco por todo o passeio, ia-se percebendo que, noutros tempos, não faltavam tabernas. “Aquela rua estava cheia delas”, explicava. Mas também havia, por exemplo, três relojoeiros.

Sentadinha no banco, “a descansar as pernas” e a aproveitar o sol quente, Maria Fernanda, de 78 anos, conta uma das suas memórias de quando era mais jovem: “Até casar, eu saía sempre à rua acompanhada pelos meus pais. À volta da rua Santa Isabel faziam-se concursos das janelas floridas das casas. Quem tivesse a janela mais enfeitada ganhava, e eu vinha ver.”

Casou aos 27 anos, já grávida do seu primeiro filho. Conta que o marido logo a seguir teve que ir para o Ultramar, em Moçambique, um ano e três meses, para poder pagar o casamento: “Eram tempos difíceis, eu passava os dias inteiros a trabalhar no campo, a semear trigo e feijão.” Relativamente à cidade de Abrantes de agora, Maria Fernandes admite que “perdeu a magia, está muito morta, mas ainda assim é bom recordar os tempos antigos”.

Foto: CM ABT

O Rossio deu lugar à atual praça da República, que era “onde todos os soldados aprendiam as marchas”, afirma Carlos Marchão. “Há aqui fotografias de coisas que o senhor não viu”, diz-lhe José Martinho, apontando para o edifício no topo e esclarecendo que no lugar da atual Escola Superior de Tecnologia de Abrantes houve um convento feminino.

À descida da rua e à esquerda está a rua do Cabo, como se chamava no passado. O senhor Marchão volta a surpreender: “As pessoas vinham de propósito a Abrantes para ali comer bacalhau com grão!” E muitos dos que participam no passeio concordam com ele, quando diz que o Pelicano era “a sala de visitas de Abrantes”. Mais à frente, existia a antiga rodoviária, e o local de partida ou chegada dos caixeiros-viajantes. Depois de uma paragem no atual mercado, o grupo volta para trás, em direção ao centro. Vislumbra-se o que seria o muro da vergonha, onde se namorava, e o muro da má-língua onde, como é bom de se perceber, as conversas eram de maledicência.

Já na praça Barão da Batalha, Carlos Marchão volta às explicações sobre o comércio: “Aqui, nesta praça, havia um chapeleiro, hoje já não se vê cá disso.” Recorda que “aqui as praças dantes eram chamadas de praça da palha de cima e praça da palha de baixo, porque havia pessoas a vir buscar palha para ser transportada até Lisboa, e depois iam nos barcos para outros destinos”.

Tempos em que o Tejo era uma espécie de autoestrada até Lisboa. José Martinho Gaspar explica que os barcos eram os “varinos ou barcos de água acima”, com capacidade para transportar até 40 toneladas.

Quase no fim do percurso e já mais desocupado, o senhor Marchão, abrantino de gema, confidencia que jogava muito futebol e que foi passando isso para a sua geração mais jovem. Aliás, a paixão tanto passou que reage com um brilho nos olhos quando alguém diz que é avô de Joana Marchão, que joga no Sporting.

Mesmo só com o 2º ano de escolaridade foi inspetor de vendas da cerveja Sagres, mas é por ter sido presidente de Junta que todos os conhecem e que conhece quase todos. Hoje, tudo é muito diferente do tempo em que contribuiu para o desenvolvimento da terra. “Os centros históricos têm sempre tendência a acabarem muito vazios, porque agora já há tudo noutros sítios maiores, e as pessoas vão mais para a periferia”, disse, manifestando algum desânimo. Mais à frente, haveria de receber um cumprimento especial, do atual presidente de Câmara, Manuel Valamatos.

Foto: CM ABT

Entretanto, a conversa já tinha passado para outros. Carlos Vieira Dias não tem tanta idade como Carlos Marchão, mas também sabe muitas estórias “porque o pai lhe contou”. Agora explica-se a razão de ser da antiga rua do Cano, por onde passavam os esgotos e que agora só se vê quando alguém abre as portas que a ela dão acesso.

Entre outras curiosidades, neste passeio com História não poderia deixar de se referir a estória de José Peres, o abrantino que terá dado origem à figura do Zé Povinho. Num dia em que terá ido a Lisboa, baixinho, redondinho, com as calças e coletes típicos da época, terá sido visto por Rafael Bordalo Pinheiro, que não perdeu a oportunidade de registar, com o seu traço, aquela figura. A primeira caricatura teria sido mais fiel à personagem, porque o retratava tal como era, carregado de correntes de ouro para ostentar a sua riqueza.

Mais tarde, o famoso caricaturista terá retirado este pormenor, para que a imagem tivesse mais a ver com o povo. E assim ficou, um Zé Povinho, inspirado num rico abrantino.

*Texto de Cristiana Bernardino
**Fotos: Hália Costa Santos

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here