Abrantes | Caminhos do Ferro com capachos, tijolos e calor humano das Mouriscas na bagagem

Percurso artístico nas Mouriscas (Abrantes), Caminhos do Ferro 2019. Foto: mediotejo.net

Os primeiros passos dos Caminhos do Ferro, que este ano decorrem entre 12 e 14 de abril, foram dados no concelho de Abrantes durante o percurso artístico que juntou a criatividade do atelier Talkie Walkie e de Manuel Tur. Um desafio que era para se focar na arquitetura contemporânea, mas que acabou por ir ao encontro de outros traços, os do capacho e do tijolo burro que se fazem nas Mouriscas. Metemo-nos a caminho e fomos ao encontro das pessoas e da tradição.

PUB

É numa manhã de sol que nos cruzamos com o grupo que se inscreveu para dar os primeiros passos dos Caminhos do Ferro deste ano, tendo como ponto de encontro o Largo 1º de Maio, junto do Mercado Municipal de Abrantes. O número de pessoas, cerca de 25, é limitado ao número de lugares do autocarro da autarquia que assegurou a viagem até às Mouriscas aos elementos da UTIA (Universidade da Terceira Idade de Abrantes) e os participantes em nome individual.

A noção de ponto de partida associada ao Mercado Municipal de Abrantes tem valor duplo no percurso artístico idealizado pelo atelier Talkie Walkie e o ator e encenador Manuel Tur. Foi a arquitetura contemporânea deste edifício projetado pela ARX Portugal que inspirou o convite feito pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, enquanto entidade organizadora dos Caminhos.

Albertina Caldeira e Filomena Alexandre, da SIFAMECA. Foto: mediotejo.net

No entanto, as histórias e as viagens do processo de preparação, que durou cerca de um mês, acabaram por aguçar a curiosidade e os traços urbanos deram lugar à identidade rural das Mouriscas. A modernidade, por sua vez, cedeu o lugar à tradição e para os Caminhantes do Ferro foi proposto explorar os espaços onde a corda se transforma em capacho e a argila em tijolo burro pelas mãos de quem os trata por “tu”.

Não apenas às matérias-primas, mas também a quem os visita ao longo dos Caminhos do Ferro com vontade de aprender. Quem recebe já conhece as caras de Rita Serra e Silva, da Talkie Walkie, e de Manuel Tur, que chegam com o grupo acompanhados por outra mais conhecida. Além dos criativos, ao longo do percurso também temos como guia Raúl Grilo, habitante das Mouriscas e ligado à terra.

PUB
Marco Cadete, da Cerâmica Tejo. Foto: mediotejo.net

É ele quem partilha as particularidades desta parte do município abrantino com 63 casais / lugares e tocada pelas águas do Rio Tejo, da Ribeira de Arcês e da Ribeira do Rio Frio. Os “olás” sucedem-se quando paramos na SIFAMECA e somos recebidos por Albertina Caldeira e Filomena Alexandre, que dão forma aos capachos há décadas, assim como o gerente Evaristo Valente e Fernanda Pardal que molda a corda em tapeçaria.

No final da visita sobem connosco para o autocarro, tal como vai acontecendo durante o percurso que termina com os sabores locais do pão e azeite caseiros, sem esquecer as azeitonas e as tigeladas, na Antiga Escola Primária, hoje sede do Grupo Etnográfico “Os Esparteiros” de Mouriscas. Até esse momento das despedidas muito se explorou, incluindo as passagens de autocarro, pela Antiga Taberna e a cooperativa Coagriolimo, onde o azeite é extraído a frio, com direito a um poema lido a bordo por Graça Rodrigues.

Até ao “adeus” também ainda houve tempo para os “olás” junto da Cerâmica Tejo. Não na porta do espaço em que a argila se transforma em tijolo burro. Um pouco antes, junto do local que dá à família Cadete a matéria-prima para o negócio. Marco, o neto, leva-nos num passeio pelos barreiros antes de chegarmos junto da mãe Lazinha e do avô Joaquim. Já perto do forno em que se cozem o tijolo e a tijoleira partilham-se técnicas e experiência passada entre gerações.

Momento final no pátio da Antiga Escola Primária. Foto: mediotejo.net

As conversas sobre as Mouriscas sucedem-se na viagem de regresso até ao Mercado Municipal de Abrantes. Os habitantes ficaram por lá, junto das histórias que se podem descobrir até este domingo mediante marcação (cultura@cm-abrantes.pt) e com partida marcada às 10h30. Histórias que partilham o programa dos Caminhos do Ferro dos percursos artísticos com as propostas pelo Coletivo Terceira Pessoa, nos Riachos (Torres Novas).

No caso das “histórias mouriscas” são marcadas pelo calor humano e a pureza das origens. Dois aspetos destacados por Manuel Tur na conversa que tivemos no pátio da antiga escola e durante a qual acrescentou que “a tentativa do percurso é reproduzir os nossos primeiros encontros com estas pessoas”. As mesmas com quem se estabeleceram laços com a robustez do capacho e do tijolo burro sem que o tempo tenha importância pois, na suas palavras, “parece que estamos aqui há 10 anos e somos amigos da casa”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here