Abrantes | Ambrose, o jovem sardoalense que escreve canções sobre a importância do desapego

Ambrose é o nome artístico de Vasco Ambrósio, que aos 17 anos já tem projetos musicais, faz concertos e confessa querer viver da música. Este sardoalense que estuda em Abrantes venceu o prémio Revelação do Ano da Escola Dr. Manuel Fernandes.

Canta sozinho, mas é difícil esquecê-lo depois de um concerto, até porque é curioso perceber o diferente entoar das canções ao vivo das versões apresentadas nas redes sociais. Sem medos, à frente do público, de barba crescente e os sentimentos à flor da pele, com palavras que recebem a força da mensagem que quer passar. O cabelo comprido, em parte amarrado de modo suspenso no cimo da cabeça, não esconde o rosto de Ambrose, o nome artístico de Vasco Ambrósio, 17 anos, um jovem que acredita na sua geração para fazer a diferença no mundo. A vontade de crescer musicalmente é muita e “se possível” no Hip-Hop.

PUB

Até ver, a sua música não possui uma massa sonora agressiva, nem os ritmos disparam galopantes. Pelo contrário há espaço, na voz solitária, para recantos melancólicos dizendo palavras que ficam a pairar nos ouvidos. Talvez por isso, o jovem sardoalense já tenha fãs e seja reconhecido como músico entre os seus pares. Vasco venceu o concurso de talentos 2019, promovido pela Associação de Pais e Associação de Estudantes da Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes, e a coisa tornou-se ainda mais séria.

Na verdade “aconteceu tudo muito rápido” conta ao mediotejo.net, e quem o escuta a falar de trabalhos desatualizados, diferentes do projeto no qual trabalha atualmente e que num piscar de olhos chegará às plataformas digitais, imagina que terá sido noutra vida, mas passaram apenas meses, um ano no máximo, desde que Ambrose publicou as suas músicas no Youtube. Vasco não levantou o véu sobre a sonoridade dos novos projetos, mas percebe-se que encontrou parceiros “fabulosos” e que o plano passa por uma fase crucial.

Antes do concurso de talentos Ambrose já havia cantado na Escola aquando da entrega de diplomas aos alunos que ingressavam na universidade. “Fui convidado e no final recebi muitos elogios. Foi muito bom!” recorda. Um momento de carga emocional que desenhava o início de um sonho que carregava desde criança quando iniciou a cantar no coro da Igreja de Sardoal, onde reside e a terra que traz no coração.

Talvez a música circule pelo sangue e se transfira por herança familiar uma vez que Vasco tem primos fadistas e ele próprio também arrisca cantar o fado.

PUB
Ambrose é o nome artístico de Vasco Ambrósio, que aos 17 anos já tem projetos musicais, faz concertos e confessa querer viver da música. Este sardoalense que estuda em Abrantes venceu o prémio Revelação do Ano da Escola Dr. Manuel Fernandes.

Contudo, o irmão Gonçalo, quatro anos mais velho, que o levava a ver concertos com os amigos e o apresentava às “tendências” do Hip-Hop, é o grande responsável por este risco do poder emocional das canções. “Ia absorvendo o que ouvia, a malta jovem sempre foi muito dada ao Hip-Hop, as influências, as novas escolas que vêm, novos estilos dentro do próprio estilo. Sendo artista cria, e ao criar nunca vai ser igual aos outros. Cada artista tem um cunho e traz um novo vigor à música”, observa.

Dessas influências destaca Slow J, ProfJam “que lançou recentemente um álbum que trouxe uma frescura enorme ao mundo do Hip-Hop nacional”, nota indicando ainda Vipe Mc, Toy Toy T-Rex ou Dillaz, com pontos de ligação e de criação musical podendo abordar ambientes inóspitos, banalidades ou gritos de alerta.

Vasco Ambrósio sempre gostou muito de escrever e como miúdo de uma geração ligada à Internet, do Youtube chegavam sons da América do Norte onde “um produtor muito bom lança um bit, um instrumental e faz daquilo um desafio. Ouvi o instrumental e decidi fazer também o desafio a nível pessoal. Depois partilhei com os amigos. Gostaram bastante e acabei por gravar com um amigo num carro à noite nos moinhos de Entrevinhas. Coloquei no twitter e o feedback foi brutal!” conta.

Daí surgiu a inspiração para escrever sobre “tudo aquilo que está ao meu redor, sobre tudo o que mexe, todo o som que é produzido pela natureza. Gosto de pensar que tudo o que existe transmite energia e é essa energia que motiva o nosso dia a dia. Se me inspirar nela, transmite uma mensagem” explica.

As palavras são fáceis para Vasco embora aplique “bastante esforço no trabalho base”. Gosta de uma composição “estruturada” e por isso dispensa improvisos. Ambiciona que a mensagem da sua música alcance dois objetivos: “A interpretação de quem escuta as palavras e só depois atingir a minha. Que seja uma reflexão pessoal” diz.

Ambrose em concerto no Aquapolis Norte, Abrantes. Créditos: CMA

Concertos, para já, só pelas estradas de Abrantes e Sardoal, apesar dos convites para atuar nas campanhas eleitorais estudantis, nomeadamente em Constância, a sua música, pelo menos ao vivo, terá de esperar para ecoar na vila poema. Os novos projetos ainda em desenvolvimento e logo sem maturidade para voarem sozinhos e sujeitarem-se à avaliação do público fora do espaço de criação de Ambrose também têm de esperar. Tal como qualquer jovem da chamada geração Z, um nativo digital, Vasco é imbuído na rapidez dos dias considerando “antigo” o trabalho desenvolvido há um ano.

Agora conta com parceiros de ideias “cada um chega com uma, resulta num todo e progride, mas ao progredir inspira e traz sempre outras músicas. É uma espécie de atropelamento em bom. Peguei naqueles que sinto mais e quero bem elaborados para trazer cá para fora, mostrar a evolução que houve. Não me reconheço desde há 10 meses, porque as muitas situações que esperava lidar em cinco anos aconteceram em três meses” refere.

Apesar da rapidez dos acontecimentos Ambrose sente como improváveis as gratificações instantâneas, aposta antes num plano estratégico de doseamento de esforço para chegar à meta, embora no meio da calma planeada insista uma sensação de “irrealidade” no meio da felicidade do turbilhão de um sonho “de fazer vida de artista”.

Na música “se a mentalidade muda, mudam as letras, são mais elaboradas, mais maduras” revela Ambrose sobre os novos projetos. Para o rapaz que canta Hip-Hop “não existirem estilos na música. A música é um todo”.

Ambrose é o nome artístico de Vasco Ambrósio, que aos 17 anos já tem projetos musicais, faz concertos e confessa querer viver da música. Este sardoalense que estuda em Abrantes venceu o prémio Revelação do Ano da Escola Dr. Manuel Fernandes.

O discreto Vasco Ambrósio, que nas artes de palco integra o Grupo Experimental de Teatro Amador de Sardoal, diz ter retirado do teatro a facilidade de enfrentar multidões, “uma evolução para estar mais aberto e mais à vontade em frente ao público, ao nível da improvisação. O teatro é o momento para ser o que se quiser… é um poder enorme”.

Nas canções, normalmente com muitos amigos entre o público, canta sem calculismos, esculpindo cada palavra até passar a mensagem primordial: “Não estar preso a nada. As pessoas têm de sentir que não podem estar presas a algo. O mundo não é só o que a sociedade impõe”, defende.

As preocupações de Vasco, enquanto jovem, passam muito pelas questões ambientais mas acredita “bastante” na sua geração para mudar o mundo embora reconheça a existência de muitos jovens presos a mentalidades que acabarão por ser esbatidas no debate de ideias. Pensamentos que se afastam, por exemplo, da política.

“Os jovens nunca foram disciplinados para a política até a nível escolar” reconhece falando de uma sociedade tecnológica onde há muita informação mas poucos jovens informados. Aliás as questões sociais são outro ponto de interesse de Vasco que gostava de se dedicar ao estudo comportamental do ser humano. Não desistiu, contudo a música tocou mais alto.

Quanto a outras inquietações, que também inclui nas letras que escreve, a sua sensibilidade deixa-o preocupado com a atuação das elites, despreocupadas com um futuro que é de todos. “As elites poderiam fazer a diferença, no mínimo que mudassem” reclama.

Quando terminar o ensino secundário talvez ingresse na universidade, mas nada está arrumado definitivamente na sua cabeça. “Logo se vê! Pensar no amanhã mas aproveitar o hoje. Se pensar muito no futuro esqueço o presente”, um erro “crasso” das sociedades atuais. “Quer-se tanto viver o amanhã que se esquece o hoje, sem perceber que o amanhã será tudo o que se levar de hoje”.

Ambrose em concerto no Aquapolis Norte, Abrantes. Créditos: CMA

O lançamento de um disco não está nos seu planos para os próximos anos, embora já tenha temas criados que davam para preencher um álbum, mas concertos, experiências em estúdio onde existe a liberdade de fazer tudo o que a ideia lhe sugere, da espontaneidade da criação não fazendo nada que vá contra a sua natureza e, claro, o uso das redes sociais para crescer, lançar e divulgar o seu trabalho, nomeadamente o próximo projeto que poderá ser o impulso para se fazer à estrada.

“É a partir da partilha que as coisas resultam nas redes sociais e se nelas resultam é um indicador de evolução” de sucesso ou de fracasso.

O que mais gosta de fazer é conviver, partilhar ideias, opinar e debater, e ouvir muita música. “Estando rodeado das pessoas em quem confio não faz mal opinar, podem aceitar ou não. Numa conferência ou debate tenho interesse em perguntar ou fundamentar uma pergunta para sentir que fiz parte” do todo. Ambrose é um ser social.

Até porque um dos seus objetivos é “inspirar as pessoas”, apesar de não ter um público alvo. É um processo que “antes de ser para os outros, tem de estar bom para mim” mas onde muitas pessoas tiveram um papel fundamental para o nascimento do artista.

Uma vida que é apoiada pela família embora com conselhos de dedicação partilhada, com foco na música e “a consciência de que pode correr menos bem”. Por isso Vasco tem um plano B que recusou adiantar por ser “pessoal”.

O que importa neste momento é cruzar mensagens onde vinguem palavras de resistência e insistência. “O sonho não pode ser a vida mas nunca desistam de nada nem parem de sonhar”.

PUB
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here