Abrantes | Alvega inicia 2019 com dois investimentos vindos de Lisboa

Luís e João Mendes (à direita e à esquerda) com parceiros (ao centro) e a mãe Leonilda Mendes. Créditos: DR

Quando o despovoamento do interior e o abandono das zonas rurais está na ordem do dia, para Alvega o ano de 2019 começou contra a corrente. Dois investimentos comerciais arrancaram na aldeia durante o mês de janeiro: a loja ‘Mais Perto’ de dois empresários de Lisboa com ligações à Ortiga, do outro lado do rio Tejo, e a danceteria Vega Dance, também de dois empresários estabelecidos na capital, que viram nesta freguesia do concelho de Abrantes uma oportunidade de negócio.

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Muito se tem falado nos últimos tempos da importância de reforçar os investimentos no interior. Mas enquanto a prometida estratégia da administração central não representa uma mudança visível, alguns empresários arriscam investir no interior do País. Recentemente aconteceu em Alvega, freguesia do concelho de Abrantes, que durante o primeiro mês de 2019 viu a inauguração de dois espaços comerciais: a loja ‘Mais Perto’, que pretende levar aos alveguenses e vizinhos bens alimentares, de higiene e outros produtos básicos, e o Vega Dance, uma danceteria que anima as sextas e sábados da aldeia com bar, noites temáticas e música de discoteca.

O primeiro negócio criou três postos de trabalho permanentes e o segundo cinco postos de trabalho aos fins-de-semana, que pode alterar com a concretização da ideia de turismo rural que os dois sócios têm para o futuro da Quinta do Nateiro.

Responsáveis pelo supermercado, João e Luís Mendes licenciaram-se e doutoraram-se em Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Cidade onde nasceram, vivem e trabalham na Marcos & Mendes Lda, uma empresa de cariz familiar, com sede na capital, criada em 1988 por Herculano e Leonilda Mendes, pais dos atuais gerentes.

Os sócios fundadores, nascidos nos anos quarenta na freguesia de Ortiga, concelho de Mação, migraram para Lisboa “em busca de melhores condições de vida e de formação” contou ao mediotejo.net Luís Mendes, obtendo formação em Engenharia Civil e Química no Instituto Superior Técnico. Os filhos seguiram-lhes as pegadas.

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Funcionários da loja no dia da inauguração da ‘Mais Perto’ em Alvega. Créditos: DR

“O objeto da empresa estava inicialmente direcionado para as áreas de Projeto e Construção Civil, com projetos e obras em Lisboa e Algarve, tendo ocorrido o desvio do seu âmbito em 1994, para a área de comércio/retalho” aquando da compra do posto de abastecimento de combustíveis e Café Santo António em Alvega, explica o empresário.

Após 20 anos de laboração ininterrupta, o falecimento do pai em 2014 desencadeou a inversão do percurso que os pais fizeram em meados do século passado. Os dois filhos, Luís e João, “com o forte apoio da mãe”, ficam à frente dos destinos da empresa, não permitindo que o projeto do pai se desvanecesse.

“Pondo mãos-à-obra, mantendo o negócio a funcionar e melhorando dia a dia, passo a passo, os pontos a retificar”, destacou Luís Mendes.

Embora “tendo perdido quase por completo os laços” que os ligavam à terra dos seus pais, Ortiga, nunca esqueceram as suas “reais raízes”.

O espaço inaugurado no dia 17 de janeiro de 2019, outrora oficina de apoio ao posto de abastecimento, situado num dos extremos do edifício, “já tinha a sua função planeada” pelos sócios fundadores, Mas a doença e o falecimento de Herculano Mendes “não permitiu terminar a obra mais cedo”, até que foram encontradas “as condições e equilibrado o negócio”.

A nova loja surgiu, assim, para responder a uma necessidade identificada pela comunidade alveguense. “Desde que assumimos a gerência do espaço comercial em 2014, temos mantido uma estreita relação com os nossos clientes. Em diversas conversas de ocasião queixavam-se de terem de se deslocar a Abrantes ou a Gavião para se abastecerem de bens alimentares, de higiene e outros produtos básicos. Pensámos ser uma oportunidade de expansão”, notou.

Tendo identificado essa oportunidade de negócio em Alvega, os dois irmãos concluíram ter “condições singulares” para corresponder a essa necessidade, uma vez que já eram proprietários de um espaço contíguo ao posto de abastecimento com cerca de 150 m2, que se encontrava degradado e sem utilização. Um investimento total de 200 mil euros num projeto de onde resulta “a criação líquida de três postos de trabalho permanentes”. Número considerado “significativo” tendo em conta a realidade local.

O novo estabelecimento integra um projeto de investimento denominado ALVEGAInvest2020 e foi cofinanciado pelo SI2E – Sistema de Incentivos ao Empreendedorismo e ao Emprego.

“Tivemos conhecimento do programa SI2E que oferecia precisamente apoio a este tipo de projeto, ao abrigo do FEDER e do Fundo Social Europeu. Sendo Alvega um território de baixa densidade [populacional] seria possível obter majorações nas taxas de comparticipação muito favoráveis, pelo que submetemos uma candidatura intitulada ALVEGAInvest2020 ao concurso gerido pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, e que felizmente foi aprovada e se encontra em fase de execução”, explica Luís Mendes.

A loja ‘Mais Perto’, o posto de combustível e o café Santo António em Alvega. Créditos: DR

Adicionalmente os dois irmãos recusaram circunscrever o projeto à abertura do supermercado. “Fizemos uma aposta clara na sustentabilidade e na responsabilidade social do nosso negócio, na aposta em ambiente e saúde, através da substituição total da cobertura em fibrocimento existente, da instalação de um sistema fotovoltaico de 20 kW de potência, que nos permitirá ser auto-suficientes em termos de energia elétrica em alguns períodos do dia, e da instalação de um carregador semi-rápido para veículos elétricos” dá conta.

Para João e Luís, a parceria estabelecida com uma marca de referência na área de distribuição de produtos alimentares foi a linha a traçar a pensar na rentabilidade do negócio. “A forma a beneficiar do know-how em logística e das suas economias de escala resultando em competitividade em termos de preço e na diversidade na oferta de produtos”.

Dessa convicção nasceram os contactos com o grupo que lhes apresentou o modelo que “mais se ajustava ao que procurávamos, em particular, em termos de flexibilidade das condições da parceria, tendo-se mostrado muito interessados em apostar no nosso projeto e na localidade de Alvega”.

Reconhecem que o estacionamento “é o calcanhar de Aquiles” do estabelecimento comercial. No entanto, também esse obstáculo pretendem ultrapassar. “Temos obras a decorrer com o objetivo de incrementar significativamente o número de lugares disponíveis e a melhorar as condições de circulação no posto”, esclarece Luís.

Em termos de risco do investimento em Alvega o momento crítico revelou-se “ser a procura e a negociação da parceria com um grupo de distribuição alimentar, uma vez que grande parte desse investimento já tinha sido realizado sendo esses custos irrecuperáveis caso este processo fracassasse. Sendo Alvega uma comunidade pequena, em termos de população a sua atratividade para a instalação de um supermercado não se revelou alta” confessa. Os dois irmãos acreditam que “a abordagem multinegócio [bomba, café, supermercado] foi determinante para levar este projeto para a frente”.

Quanto ao balanço destes primeiros dias caracterizam-no como “encorajador”. “Temos recebido feedback muito favorável dos nossos clientes e foi-nos possível confirmar a existência da necessidade deste tipo de oferta na comunidade local. Os nossos parceiros têm também transmitido a ideia que o negócio se está a desenvolver de forma muito favorável”, revela.

Num futuro próximo, Luís e João Marques Mendes pretendem finalizar o investimento previsto e “melhorar a oferta aos clientes, através do aperfeiçoamento das competências neste novo ramo de negócio, e conhecendo em maior detalhe a suas necessidades”.

Para Luís Mendes, “a nossa região de origem no interior de Portugal, tem-se revelado uma terra de oportunidades e uma alternativa viável à excessiva concentração no litoral”.

A Quinta do Nateiro, junto ao rio Tejo, em Alvega onde se situa a danceteria Vega Dance. Créditos: DR.

Dança junto ao rio e turismo no Tejo

Janeiro foi também o mês em que abriu a danceteria Vega Dance na Quinta do Nateiro, em Alvega. Paulo Pereira, gerente da sociedade Vega Dance, e o seu sócio, ambos empresários com bares em Lisboa na zona do Príncipe Real e Bairro Alto desde 2011, viram como “uma oportunidade” o investimento em Alvega. A danceteria, que no fundo oferece animação com bar e discoteca, representa uma nova aposta, disse Paulo Pereira ao mediotejo.net.

O convite chegou do proprietário da Quinta do Nateiro. “A Quinta, preparada para eventos, estava inativa e o proprietário, nosso conhecido, propôs que dinamizássemos aquele espaço por ser uma boa aposta para a região e para a aldeia”, explicou Paulo.

Após verem a Quinta, os empresários decidiram investir. “Acordámos uma cedência de espaço. Temos animação à sexta-feira e ao sábado. Iniciámos também com matiné ao domingo mas para já não resultou em termos de adesão do público. Mas vamos apostar em matinés ao ar livre, no jardim, durante o verão e se correr bem passamos também para dentro do salão. Pensamos ainda em expandir para turismo rural já que estamos a 40 metros do rio Tejo”, explicou.

O gerente da danceteria Vega Dance, Paulo Pereira, com o artista Marco Morgado, em Alvega. Créditos: DR

A inauguração, no dia 5 de janeiro, contou com duzentas pessoas e na semana passada a Vega Dance apresentou a primeira noite temática. “Estiveram cerca de 255 pessoas, por isso acreditamos que o negócio está no bom caminho”, refere. Um negócio que deu lugar à criação de cinco postos de trabalho embora não permanentes, “três fixos, dois empregados de bar e um segurança. Nas noites temáticas contratamos mais dois funcionários”, dá conta.

O balanço apresenta-se, para já, “positivo” com a danceteria a ser frequentada por um público jovem, até aos 40 anos.

Quanto à aposta no turismo rural, os dois investidores precisam ainda de “amadurecer a ideia” mas apenas relativamente à forma uma vez que o Tejo é ponto de referência. “Não sabemos se vamos ter bungalows ou glamping. É um espaço privilegiado que vimos como uma oportunidade”, concluiu.

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