Abrantes | Água das Casas como topónimo único em território nacional

Água das Casas, em Fontes, Abrantes. Foto: mediotejo.net

Na predominância das cores da região de Abrantes domina o verde devido ao arvoredo e o azul por causa das águas do rio Tejo a Sul e do rio Zêzere a Norte. Água das Casas localiza-se na freguesia de Fontes na margem do rio Zêzere, razão pela qual mereceu um topónimo a condizer que, segundo o ‘Dicionário Toponímico e Etimológico do concelho de Abrantes’ dos autores Eduardo Campos e Joaquim Candeias Silva “não tem paralelo nacional”. O topónimo referenciado desde 1396, “traduz a boa situação geográfica deste povoado”, um dia servido por um importante afluente do Zêzere – a ribeira de Codes – lá bem no Norte do concelho.

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Haja alguém que saiba como se chama um habitante de Água da Casas. Aquense? Será uma hipótese. Melhor: Haja alguém que, não sendo nativo, conheça a beleza perdida, entre serras, de tal povoação com um topónimo que, não sendo esdrúxulo, é único em Portugal.

Abrantes | Água das Casas como topónimo único em território nacional
Água das Casas, na freguesia de Fontes, concelho de Abrantes

A solução passa por fazer-se ao caminho, em direção ao extremo Norte do concelho de Abrantes, para chegar a pequena aldeia situada num vale onde (praticamente) não há casa que não tenha um tanque cheio de água até ao topo. É sempre a descer! Depois de passar Carvalhal e serpentear quilómetros de estrada ladeada de pinheiros e eucaliptos, pelo meio atravessamos São Domingos, finalmente encontramos uma placa indicativa onde se lê Água das Casas.

No que diz respeito ao topónimo Água das Casa “é possível encontrá-lo em documentos do século XIV. A Carta Arqueológica do Concelho de Abrantes diz-nos que, em 1396, quando foi feito o levantamento daquele que é tido como o primeiro Tombo da Estremadura, o Maxial constituía uma ‘comarca coutada’ que agregava ao todo 28 herdades ou casais, dos quais apenas 13 estavam povoados” incluindo Água das Casas, escreve José Martinho Gaspar no seu livro ‘Água das Casas – Memórias de uma Comunidade”.

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Água das Casas, concelho de Abrantes

Trata-se de uma pequena povoação localizada na freguesia de Fontes, junto à albufeira da Barragem de Castelo de Bode, “num dos braços que se estendeu pelo vale onde, em tempos, correu a ribeira de Codes”, lê-se na mesma publicação.

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A atual povoação “terá raízes no século XIX” explica Marinho Gaspar ao mediotejo.net, porque a versão popular dá conta de aldeia ser inicialmente noutro local, numa zona designada Casalinho, a caminho de Vale de Açor, tendo em conta as ruínas que ainda por lá permanecem. Mais recentemente, uma família ter-se-á instalado na Esteveira, localizada a duas centenas de metros do atual povoado.

Nas Memórias Paroquias de 1758, aquando do reinado de D. José, a seguir ao terramoto de 1755, o Marquês de Pombal ordenou aos padres de todas as paróquias do reino que respondessem a um inquérito. “Ora o padre João Manuel preencheu as Memórias Paroquiais respeitantes à freguesia do Souto, em que Água das Casas se integrava”, pois a freguesia das Fontes criou-se apenas em 1985.

O documento revela que “Água das Casas era um dos 32 lugares que pertenciam à freguesia, integrando a Província da Estremadura e surgindo na dependência do Bispado da Guarda, da Comarca de Tomar, Termo e Ouvidoria de Abrantes. A freguesia, nessa altura, tinha 312 fogos, 868 pessoas maiores, 176 menores e 300 inocentes”, dá conta também José Martinho Gaspar.

O historiador explica que “o núcleo populacional atual formou-se com a chegada de três famílias: ‘Crespos’ (Dias/Alves), Baptistas provenientes do Mógão concelho de Sardoal e ‘Mouros’ oriundos dos Estevais, concelho de Vila de Rei, cujo apelido é atualmente Moura. A partilha das águas de rega ainda hoje se faz tendo como ponto de partida a divisão em três quinhões por esta trindade”.

Vítima da desertificação característica dos espaços rurais do interior, Água das Casas possui atualmente uma população a residir em permanência inferior a 40 pessoas. Já ali não existe qualquer jovem em idade escolar e mais de 90% da população tem mais de 50 anos.

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Água das Casas, concelho de Abrantes

Quem percorre a pequena povoação observa habitações em recuperação, filhos da terra que vivendo nas cidades regressam aos fins-de-semana e nas férias. Alguns mesmo depois de reformados dividem-se entre a capital e a aldeia, como Abílio proprietário de casa em Lisboa, neste momento arrendada por falta de familiar que nela queira habitar.

“Apesar do envelhecimento dos residentes, a aldeia tem podido sobreviver – com algumas das suas tradições e uma parte dos seus campos cultivados – graças a uma geração que nela nasceu e nela passa muitos fins-de-semana a conviver e trabalhar. Será, porém, a última com tais características”, acrescenta José Martinho Gaspar.

A povoação “chegou a ter perto de 200 habitantes, conta ao mediotejo.net Abílio Dias Alves quase a fazer 88 anos. Os jovens não ficam por lá. “Vêm nos fins-de-semana” como recentemente pelo feriado do Dia de Todos os Santos. “Estava tudo cheio de malta. As pessoas estão em Lisboa mas nas festas vem à terra”.

Água das Casas foi avançado como topónimo único em território nacional, sendo então expressão significativa quanto à imagem identitária do povoado. Com efeito, um conjunto de cursos de água trespassa este espaço, indo, em tempos, desaguar à ribeira de Codes, afluente do rio Zêzere.

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Água das Casas, concelho de Abrantes

Em 1951 a paisagem foi transformada. A albufeira dilatou a ribeira e o rio, submergindo os terrenos mais férteis. Porém, Água das Casas conservou a água enquanto elemento emblemático, mas com uma nova fisionomia. Hoje assemelha-se a um braço de terra que entra no lago artificial.

Antigamente era ainda “mais bonito” considera Abílio, talvez motivado pela nostalgia da juventude. “Ao longo da ribeira de Codes, vinda do Penedo Furado, estendiam-se hortas e choupos e semeava-se o milho, era fresco com água todo o ano”, recorda.

Aliás, o espaço de lazer do Penedo Furado, em Vila de Rei, inaugurado em 1964 pela família Prior da Matagosa “tornou-se um lugar de culto entre a juventude de Água das Casas. Várias gerações frequentavam-no especialmente aos domingos, apesar da distância (percorrida de barco ou a pé) para usufruir das condições de beleza do espaço e para conviver com jovens de outras localidades”, escreve igualmente José Martinho Gaspar.

Antes da construção da hidroelétrica a rede hidrográfica do território de Fontes – uma vez que a freguesia nasceu décadas mais tarde – compreendia vários cursos de água que confluíam para o Zêzere, abrindo vales e motivando a fixação de gente.

As técnicas adotadas para canalizar a água designavam-se de levadas. O sistema consistia na condução da dita de nascentes ou ribeiras, situadas em cotas mais elevadas, para os campos.

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Água das Casas, concelho de Abrantes

Primeiramente, os canais era apenas sulcos cavados com enxada, havendo também aqui e ali algumas covas feitas na terra para reserva da água. Esta antiga forma de irrigação, vulgarmente conhecida por rega de pé, exigia limpeza e cuidados constantes. Daí, os caminhos formados ao longo do trajeto das levadas por força dos inúmeros passos e preocupações que os percorreram.

Em Água das Casas “a água é dividida à hora, chegada por levadas. A certa altura, as pessoas para não andarem a regar de noite construiram tanques” com função de reservatório explica Abílio, os mesmos que abastecem as bocas de incêndio do sistema de combate aos fogos, criado pela população.

Atualmente as levadas foram otimizadas com canos subterrâneos e tanques de alvenaria para reserva. A água mantém-se coletiva, através de um regulamento informal, que todos cumprem, calendarizado e de interajuda. Testemunhando um sentimento comunitário, que o isolamento da povoação favoreceu e conservou.

E se a povoação, durante a semana, fica entregue aos mais idosos, com o Centro Social Cultural Recreativo e Desportivo (CSCRD) de Água das Casas não é diferente. Por norma “abre aos fins-de-semana e durante o verão, nas férias, se tiver gente nova” que deixe o sol entrar portas adentro.

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Água das Casas, concelho de Abrantes. Abílio Dias Alves segura entre as mãos uma fotografia da terra onde nasceu que hoje tem cerca de 40 habitantes.

Comércio só ambulante. “Passa à quarta-feira o vendedor de carne e enchidos, o peixeiro à quarta e sábado, padeiros são dois, um diariamente e outro três dias por semana” fazendo o circuito de Matagosa até Maxial. Até posto médico Água das Casas já teve “logo a seguir ao 25 de Abril” indica Abílio. Atualmente, o médico de família está em Carvalhal ou em Abrantes. Numa urgência “chama-se o INEM e corre para o hospital” de Abrantes. “A solução é essa. Não há outra!”, garante.

Duarte é um dos padeiros com passagem diária por Água das Casas na venda de pão e derivados. Tem uma visão diferente da maioria dominante. Discorda que o êxodo da juventude decorra da “falta de emprego”. No interior do País, observa dificuldades em contratar um ladrilhador, pedreiro, eletricista, padeiro, madeireiro e até empregado de balcão. “Não há jovens para fazer estes trabalhos, e com salários acima da média”, garante ao mediotejo.net.

Os jovens “querem ir todos para a cidade, andar pelos centro comerciais. Ganham mais dinheiro aqui, mas é mais fino vir para casa na sexta-feira à noite” opina, assegurando emprego a quem quiser confecionar ou distribuir pão. “É já amanhã!”, diz.

Ainda assim, sem a dinâmica própria da juventude, e apesar do isolamento, “há muita convivência, faz de conta que é uma família. Quase todos têm uma adega e de vez em quanto corremos uma a uma, não há divisão”, nota Abílio.

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Água das Casas, concelho de Abrantes. Abílio Dias Alves compra o pão na carrinha de venda ambulante uma vez que a povoação já não tem comércio local.

Natural de Água das Casas, Abílio Dias Alves viveu na povoação até ir para a tropa. O pai ganhava a vida no negócio da cortiça onde Abílio trabalhou até aos 17 anos. “Não dava e fui para Lisboa, arranjei emprego na Carris” onde trabalhou como motorista até 1990. Depois da reforma regressou às origens onde se sente bem. “Aqui tenho uma horta, vou andando distraído, com atividade. Em Lisboa, para estar empregado é bom mas não estando a trabalhar, não acho jeito nenhum andar por lá a olhar para as paredes” confessa.

Após a barragem, a albufeira passou a ser “o sítio onde as mulheres iam lavar a roupa e onde os mais novos, durante o verão, se banhavam e aproveitavam para tomar banhos higiénicos, munidos de sabão azul. As mulheres transportavam a roupa à cabeça. Em cochos de cortiça, e lavavam-na em lajes de xisto, que estabilizavam sobre várias pedras […] Antes da subida das águas, era nos ribeiros que se lavava a roupa, a mais escura com sabão e a branca com recurso à barrela”, escreve também o historiador José Martinho Gaspar no livro “Água das Casas – Memórias de uma Comunidade’.

Da sua juventude Abílio recorda “uma terra onde todos sempre conviveram unidos. Havia a matança juntavam-se todos para matar o porco, os novos faziam os bailes e assim se vivia. Chegou a haver uns 50 jovens”. Ainda há dias Abílio falava com os vizinhos sobre a problemática da natalidade. Lembra-se que “num ano chegaram a nascer 8 bebés” numa pequena povoação onde um dia existiu “uma mercearia e duas tabernas” e casas onde era comum morar um casal e cinco filhos.

E se no começo do século XX quase ninguém aprendia a ler e escrever, a partir da década de 30/40 os rapazes passaram a frequentar o ensino até à 4ª classe, enquanto as raparigas se ficavam pela 3ª.

Água das Casas nunca teve escola primária. Nos anos 40 já existia escola em Matagosinha para onde iam os alunos de Matagosa e Água das Casas, frequentada por Abílio “até à 3ª classe, a 4ª tive de a ir fazer ao Maxial. Éramos mais de 30 alunos, a sala era grande e estava cheia”, recorda.

Como a regente escolar, não sendo professora não podia lecionar a 4ª classe, Abílio viu-se obrigado a concluir a instrução primária longe de casa. “Andei um ano a caminhar a pé até ao Maxial”, por certo uns 10 quilómetros. Com sol ou a chover, “passávamos um dia inteiro na escola molhados, não havia aquecimento nem fogueira nem nada. Aguentávamos tudo!”, conta.

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A antiga escola primária de Abílio Dias Alves em Matagosinha, já pertencente à freguesia de Carvalhal no concelho de Abrantes

O caminho para a escola era feito em grupo, e como uns era mais pobres que outros, muitas crianças andavam descalças. Abílio tinha mais sorte, caminhava calçado por uns sapatos… pelo menos durante alguns metros, até que a vista do pai alcançasse. “O meu pai mandou-me fazer uns sapatos mas eu queria umas botas. Obrigava-me a calçar os sapatos” contudo, a meio do caminho Abílio contrariado, metia os ditos atrás das costas para caminhar descalço. “Queria umas botas, queria ser homem”, ri.

A nova escola da Matagosinha foi inaugurada em 1963, porém, e apesar de ser importante aprender a ler e a escrever, “só no pós-25 de Abril a aprendizagem escolar começou a ser perspetivada pelos pais como um meio para a melhoria das condições de vida. Também foram, contudo, as perspetivas abertas pela escolarização que contribuíram para que os mais jovens abandonassem as aldeias, que em Água das Casas deixasse de nascer crianças e que, em 1980 a escola da Matagosinha encerrasse”, observa José Martinho Gaspar no seu livro sobre uma comunidade à beira rio.

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Água das Casas, concelho de Abrantes. Rio Zêzere, Albufeira de Castelo de Bode

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