Abrantes | A preservação da essência das tradições de Mouriscas no I Festival do Azeite e do Figo

I Festival do Azeite e do Figo, Mouriscas. Lagar da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA)

Debater as culturas do figo e da azeitona, podendo entrar noutras produções, promover provas e visitas técnicas é o mote para o fim de semana de 24 e 25 de novembro, em Mouriscas naquele que é o I Festival do Azeite e do Figo. Uma iniciativa da Associação de Melhoramentos de Mouriscas que decorre na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), na Herdade da Murteira.

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Mouriscas, no concelho de Abrantes, sempre teve uma ligação forte às culturas da figueira e oliveira e, por isso, ao figo e ao azeite. É dessa tradição que surgiu a ideia de lançar um evento que permita desenvolver essas temáticas rurais numa aldeia que continua a ter nestas culturas, principalmente na oliveira, uma das suas bases económicas. O festival arrancou este sábado.

André Cadete, da Associação de Melhoramentos da Freguesia de Mouriscas (AMM) e um dos promotores do evento, explica que Mouriscas “está ligada intimamente às oliveiras e ao azeite e ao figo e às suas tradições”.

Na ideia de um evento novo, que contou com o apoio do programa FinAbrantes, os elementos da AMM associaram “a essência e tradições” da sua terra considerando Mouriscas “um gigante adormecido” enumerando “o rio Tejo, o património, a A23, uma estação de comboio e uma Escola Agrícola” da qual os mourisquenses sentem particular orgulho, como elementos potenciadores de desenvolvimento para a freguesia.

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Abrantes / I Festival do Azeite e do Figo. André Cadete da Associação de Melhoramentos de Mouriscas fala sobre o evento que pretende preservar as tradições da freguesia de Mouriscas.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 24 de Novembro de 2018

Na abertura oficial do evento, após os habituais cumprimentos e agradecimentos do presidente da Junta de Freguesia, Pedro Matos, o presidente da AMM, Carlos Marques, salientou a vontade de trabalhar. “Esperamos que o dia seja agradável e útil para todos”. Refere que os objetivos do Festival passam por “não deixar que as raízes rurais de Mouriscas desapareçam, dando-lhes vida”, e agradecendo as parcerias estabelecidas com as coletividades de forma a colocarem expositores no certame com os produtos da região.

O diretor da EPDRA, João Quinas, confessou rever-se no Festival de Azeite e Figo, falando na “grande diversidade” de uma extensa freguesia que vai desde o Tejo até Lercas. A Escola, frisou, “desde a primeira hora demonstrou grande interesse neste tipo de eventos”, dando conta da abertura da instituição a visitas às valências da escola que promovam a oferta formativa. “Tradições, hábitos e formação profissional do mundo rural”, acrescentou, mencionando o “desafio” ultrapassado, ao longo dos seus 30 anos de existência.

Por seu lado, o vereador Luís Dias, em representação da Câmara Municipal de Abrantes, enalteceu “o tecido associativo incomparável” da freguesia de Mouriscas e a “dinâmica de parceria. É assim que se constroem projetos de comunidade que devem nortear as políticas públicas”, defendeu.

Sem querer levantar o véu, mesmo depois de questionado pelo mediotejo.net, Luís Dias, no âmbito da renovação de tradições, deu conta que brevemente “será renovada uma arte muito nobre de Mouriscas. Para valorizar o que é de essência e de origem”.

Adiantou, no entanto, ao nosso jornal, tratar-se de um projeto ligado à espartaria (seiras e capachos) no âmbito do protocolo que o Município tem com a Fundação Serralves.

“É dando as mãos que tudo se constrói”, vincou, classificando de “muito importante” a vontade de afirmar e valorizar “as imaterialidades” de Mouriscas. “Pode ser um veículo económico, de criação de emprego e turístico”, notou, considerando ser “um privilégio” ter no território uma escola de desenvolvimento rural.

I Festival do Azeite e do Figo, Mouriscas. (da direita para a esquerda) João Quinas, Luís Dias, Pedro Matos e Carlos Marques

No I Festival do Azeite e do Figo, entre as palestras e visitas técnicas, decorrem provas de produtos locais, animação, uma caminhada pela freguesia com visita à oliveira do Mouchão, a árvore classificado mais antiga do País, e uma mostra de produtores locais (figo, licores, mel, doçaria, artesanato, vinho, cerveja artesanal e outras atividades).

Entre os cerca de 10 expositores, agrupados no pavilhão agro-alimentar da EPDRA, encontramos, por exemplo, a cerveja artesanal Ermida. Rui Reis explicou ao mediotejo.net que a cerveja tem por base água, cevada, trigo maltado, cevada torrada, lúpulo e levedura.

Uma cerveja produzida e comercializada desde maio de 2014, hoje com unidade de produção em Alferrarede mas que na verdade nasceu na Rua da Ermida de Santo André em Abrantes, realidade que esteve na origem da marca. Na mostra do I Festival do Azeite e do Figo pode encontrar-se quatro variedades, embora as receitas já sejam dez: cerveja de centeio, APA, blonde ale e belgian ale.

É ainda possível apreciar os licores caseiros de Fernando Serras, os doces do restaurante Serralves, os morangos de Vitor Martins, o artesanato de Fernanda Clemente, os vinhos da EPDRA, as seiras e capachos da Sifameca, ou comprar um boné ou uma t-shirt na ACROM – Associação Cultural das Rotas de Mouriscas.

A história de Mouriscas e as variedades do olival

O nome de Mouriscas resulta, segundo a lenda, da palavra Mouro. Chamava-se aos mouros convertidos ao cristianismo, mouriscos. Diz-se que a designação da localização deriva de um conjunto de núcleos populacionais que se foram formando. Há também quem conte que foi neste local o sítio onde dois soldados cristãos abusaram da fraqueza de duas donzelas mouras.

E foi sobre a história de Mouriscas que o palestrante Josué Valente inaugurou o ciclo de conversas que durante dois dias trazem à Herdade da Murteira temas ligados às gentes, tradições e cultura da oliveira e da figueira.

A freguesia de Mouriscas terá hoje 1823 habitantes numa área de 35 quilómetros quadrados por onde se espalham as localidades de Casal das Aldeias, Bogalhinha, Cabrais, Camarrão, Canenhos, Casas Pretas, Cascalhos, Casos Vares, Casos Castanhos, Engarnais Cimeiros e Fundeiros. Josué Valente deu conta da sua existência provada arqueologicamente desde o Calcolítico, 2500 a 1800 anos A.C.

“A sua localização privilegiada, tendo o Tejo como principal meio de comunicação e os locais acessíveis para as suas travessias, tomaram apetecíveis estes sítios para outros povos invasores”, referiu Josué Valente.

E por Mouriscas passaram celtas, iberos, fenícios, lusitanos, romanos, visigodos e árabes. Mais tarde também os franceses ali passaram a caminho de Abrantes, aquando da ‘guerra dos sapatos’. “Por todas estas razões a população das Mouriscas terá tido origem na miscigenação de todos estes povos, sendo os seus costumes e a sua cultura a resultante de toda essa mistura”, aludiu.

I Festival do Azeite e do Figo, Mouriscas. Josué Valente mostra a diferença entre uma seira e um capacho

A estrutura fundiária das Mouriscas, em minifúndio, contrasta com a das freguesias da margem esquerda do Tejo onde predomina o latifúndio. Esta disposição, diz-se, teria tido origem na ocupação berbere que era caracterizada por cada família possuir casa própria, com quintal e uma horta. “Mouriscas nunca passou fome!” afirmou, precisamente por cada família possuir terra para cultivar.

Josué Valente abordou o modus vivendi, a riqueza das terras argilosas que deram origem à fabricação de tijolo de burro, a pesca no Tejo e os característicos barcos como os picaretos, o cultivo das terras, as velhas azenhas e moinhos de vento, e os fornos para cozer pão que contrariamente ao que se passava nas aldeias vizinhas com forno comunitário em Mouriscas cada casa tinha o seu próprio forno.

E “se o império romano era conhecido pelo império das oliveiras, as Mouriscas também são um império de oliveiras, maioritariamente de variedade galega” originando um dos melhores azeites do mundo, destacou. Ora para fazer azeite eram necessárias seiras ou capachos o que deu origem às oficinas de espartaria e aos esparteiros.

I Festival do Azeite e do Figo, Mouriscas. Auditório da EPDRA

“A figueira coexistia no terreno de forma alternada com a oliveira”, explicou. A maioria das figueiras produzia pequenos figos pretos que depois de secos eram vendidos, sob manifesto, para a produção industrial de álcool nas destilarias de Torres Novas, e tinha grande importância na economia familiar.

As passas fritas são hoje um das sobremesas mais características do povo mourisquense mas no passado faziam parte dos taleigos do almoço da gente de trabalho.

Por seu lado, Alberto Miranda, licenciado em Agronomia e mestre em Agricultura Sustentável, falou sobre a cultura do olival, as condições agroclimáticas ideais para a oliveira e as condições desfavoráveis. Caracterizou a oliveira galega que existe em mais de 80% do olival português, a cobrançosa, variedade oriunda de Trás-os Montes, e a picual, a variedade mais importante de Espanha. Abordou a alternância e hábitos de frutificação da oliveira e finalizou com as pragas a que a oliveira está sujeita.

I Festival do Azeite e do Figo, Mouriscas. Alberto Miranda orador na palestra Variedades e Doenças do Olival

Após as palestras, no auditório da EPDRA, decorreu uma prova de azeites e visita ao lagar da escola, antecedida de um momento musical pela Banda Filarmónica Mourisquense. Seguiu-se o almoço com migas à moda de Mouriscas com carne de alguidar.

O I Festival do Azeite e do Figo prossegue este domingo, iniciando pela manhã com uma caminhada, organizada pela ACROM, da EPDRA até à Oliveira do Mouchão, em Cascalhos, que conta com mais de 3350 anos.

A organização do evento é da Associação de Melhoramentos de Mouriscas, em parceria com a EPDRA, com a Câmara Municipal de Abrantes e da Junta de Freguesia de Mouriscas, que pretende lançar as bases para a promoção de dois produtos que têm “marca” Mouriscas.

 

PROGRAMA

Domingo – Dia 25 de novembro

08h30 Caminhada EDPRA – Oliveira do Mouchão (Organização da ACROM)
11h00 Palestra: Cultura da Figueira – Engº Rui de Sousa (INIAV)
11h30 Palestra: O figo na vertente empresarial – Michele Rosa (Rosagro)
12h00 Venha aprender a fazer as “Passas Fritas”
13h00 Almoço (Sopa de Pedra e bifanas)
Animação com “Quarteto Nelson Pisco”
15h00 Degustação de doces de figo, passas fritas e licores
Encerramento – Engº João Quinas (diretor EPDRA)
16h30 Visita à Sifameca (fábrica de seiras e capachos)
10h00 / 16h30 Feira mostra produtos ligados ao figo, azeite, mel, licores, doçaria e outras atividades da freguesia – EPDRA

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