Abrantes | A prece inglesa que perpetuou nas Mouriscas uma capela a Nossa Senhora dos Matos

Procissão em honra de Nossa Senhora dos Matos. Foto: mediotejo.net

Já não se viaja mais de uma hora em cima de um burro ou numa carroça para chegar antes de almoço à capela de Nossa Senhora dos Matos, em Mouriscas, Abrantes, em todos os dias 15 do mês de agosto. Na verdade, aquele templo católico é uma ermida, situada que está num ermo, longe de tudo e de todos, envolta em silêncio, eucaliptos e matos. Outrora, conta o povo, a paisagem era diferente. Imperavam os sobreiros, reis da sombra nos idos de agosto com romarias de outra dimensão, em que os piqueniques reuniam famílias e amigos sentados em mantas de trapos tecidas pelas mulheres, partilhando comida e bebida em dia de festa.

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*Reportagem originalmente publicada a 15 de agosto de 2018, republicada por ocasião da romaria de 15 de agosto de 2019. Sendo um dos pontos altos dos festejos, a edição de 2019 insere-se na XXVII Feira Mostra de Artesanato de Gastronomia de Mouriscas, a decorrer a partir de quinta-feira, dia 15, no Campo das Aldeias (campo de futebol) e até 18 de agosto, no âmbito das tradicionais festas populares com divulgação de artesanato, gastronomia e animação musical.

Dormia-se a sesta depois do repasto, jogava-se às cartas tal como hoje, esperava-se pela hora da missa, seguida de procissão e da venda de fogaças. Também essa tradição mudou: perderam-se as fogaças, os romeiros contam-se em menor número, ainda que a devoção do povo mourisquense não tenha esmorecido, e os insistentes em piquenicar no feriado de Nossa Senhora da Assunção, também.

“Talvez pela falta de sombras”, sugere ao mediotejo.net Rossine Alves Lareira, de 81 anos, natural do Casal das Casas Pretas, Mouriscas, devoto de Nossa Senhora dos Matos, “desde pequeno” que se lembra da romaria.

Mais jovem, com 59 anos, Maria Alice Timóteo é igualmente peregrina assídua. Vive na freguesia, em Entre Serras, por certo meia dezena de quilómetros do local da ermida, mas não falha à romaria anual do 15 de agosto, apesar da lonjura e dos acessos difíceis em estrada de terra batida a partir da Rua da Fonte dos Pinheiros, logo à direita da Fonte dos Amores.

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“Antigamente era mais bonito”, recorda Alice. Agora não há burros, nem carroças e muito menos sobreiros, queimados que foram pelos incêndios e substituídos depois pelas árvores plantadas paras as fábricas de pasta de papel.

Por isso, os mourisquenses improvisam sombras colocando chapéus de sol, panos e redes a servir de toldos. Debaixo da sombra artificial, as mantas deram lugar a mesas e cadeiras de plástico, porventura mais confortáveis do que um pano estendido nos socalcos da terra e a salvo de eventuais formigas gulosas.

Quem não desiste são as vespas que esperam recolher algumas migalhas naquele dia de repasto farto. “Não picam”, tranquiliza Rossine que conhece aqueles montes e os seus bichos como as palmas das suas mãos. Desde miúdo que por ali andava “com as cabritas” e a “cavar milho”, nos tempos em que a agricultura dominava a economia local.

Romaria a Nossa Senhora do Matos, Mouriscas. Rossine Alves Lareira e Maria Celeste Lopes. Foto: mediotejo.net

A capela aponta-se como do século XVII e o povo não tem a exatidão da data histórica nem dos factos na ponta da língua, mas sabe que terá sido edificada naquele local por ingleses. Aliás, são três as capelas com “Senhoras que tinham de se avistar: a dos Matos, a da Guia (Alvega) e a da Lapa (Sardoal)”, conta Rossine.

Certo é que “alguém desejou construir a capela” naquele local, explica o padre Francisco Valente, expressando o “interesse” da ermida no “voto de um povo a Nossa Senhora”.

O pároco dá conta do pensamento comum: “Pensa-se que os fundadores da capela eram uma família inglesa que teve de fugir à perseguição religiosa protestante, anglicana, quando Inglaterra deixou de ser católica”. Eventualmente o templo foi construído pedindo a reconversão religiosa de Inglaterra num desejo daquela família regressar ao seu país, acrescenta Francisco Valente.

“Provavelmente já existiria ali algum lugar de culto antes da remodelação e da fisionomia que chegou até nós, sobretudo na capela mor a partir do século XVII. A capela terá sido beneficiada e objeto de uma intervenção mais cuidada nessa época”, notou.

De facto, a legenda inscrita no painel de azulejos do frontal do altar da capela— – “dña intercede pró Anglia ut convertatr” (Senhora, intercede pela Inglaterra para que se converta) – mostra a intenção religiosa dos fundadores.

A capela abre a 15 de agosto, mas também noutros dias do ano para orações habituais ou esporádicas, “por ser um local muito querido pelos mourisquenses”. Aliás, “os meninos não vinham de Paris, vinham das arcas da capela da Nossa Senhora dos Matos, era isso que se dizia às crianças”, refere o padre, que confirma ser “muito antiga” a romaria e o convívio dos piqueniques neste feriado religioso.

Imagem de Nossa Senhora dos Matos dentro da capela. Foto: mediotejo.net

“Teve uma grande expressão em meados do século XX. Nos últimos anos, na década de 80/90, regrediu um pouco mas hoje parece que as pessoas não querem perder estas raízes, esta tradição humana e popular”.

Nossa Senhora dos Matos “é mais uma forma de olhar para Maria e de criar uma ligação com ela. “Dos Matos” por estar no meio do mato sem nenhuma habitação à volta, num lugar muito especial. Para os católicos de Mouriscas “é incontornável a vida com esta ligação afetiva àquela que espiritualmente é a Mãe”, diz Francisco Valente.

Também Rossine Alves Lareira admite que a tradição se perdeu um bocadinho, “mas está a recuperar”. Traz à conversa a rivalidade outrora existente, mas atualmente pouco latente, entre Mouriscas de baixo e Mouriscas de cima, para justificar a pacificação conseguida pela santa. Naquele território junto à capela “não havia rivais nem zangas… era a Senhora dos Matos!”.

Na capela, antes da missa das 16h00 e da habitual procissão à volta da mesma levando o andor com a imagem da Senhora em braços, os fiéis acendem velas em agradecimento à esperança, dificuldades superadas, à alegria dos peregrinos e aos milagres atribuídos ao culto a Nossa Senhora dos Matos.

Maria Alice Timóteo é devota e há cerca de oito anos, aquando de uma doença grave de um filho, rogou pela cura e a cura deu-se. “Já fui ouvida. Correu tudo bem”, assegurou.

Promessa igualmente cumprida tal como tantas outras, algumas ainda na época da Guerra Colonial. “Tempos em que havia muita fé na Senhora e promessas cumpridas a pé até à capela. Oferecia-se tudo pelos soldados”, recorda Rossine.

Maria Alice Timóteo, uma das muitas devotas que acreditam na intervenção divina de Nossa Senhora dos Matos. Foto: mediotejo.net

Sobre a Guerra do Ultramar, Maria Celeste Lopes, de Alcaravela (Sardoal), também tem memórias. Ainda jovem, antes de casar há 56 anos, foi trabalhar para a indústria dos capachos, na Sifameca.

“Quando rebentou a Guerra Colonial quem casasse antes do alistamento não era convocado para Angola”. Foi por isso que Mário Ladeira, o namorado de Mouriscas, lhe pediu que casassem e assim ficou a viver na terra do marido, agarrando a devoção a Nossa Senhora dos Matos.

Como habitualmente, Celeste e as outras mulheres acordaram cedo este ano para cozinhar os petiscos. Na mesa não faltou arroz de pato, cabrito, leitão, presunto, tarte de amêndoa, pão-de-ló e “aguardente da boa para aquecer a alma”, se o calor da espiritualidade e irmandade presente não for suficiente, comenta Mário Ladeira.

Na romaria, a doçaria tradicional de Mouriscas aparece também a quatro mãos de Júlia e Sandra Rodrigues. Vendem habitualmente no Mercado Semanal da freguesia mas aproveitaram a data para tentar os fiéis com o pecado da gula. Bolos levedos, bolos de coco, tigeladas, broas de mel, torta de laranja, torta de coco e biscoitos apresentam-se à porta da capela, também eles envoltos na tradição, em panos de linho bordados à mão com aplicações de renda.

E a festa em honra da mãe de Jesus prossegue com a missa no adro da capela, a própria que já sofreu várias obras de restauro, a última à cerca de quatro anos. José Carreira esteve, esta quarta-feira, na celebração como peregrino, mas foi um dos homens que trabalhou nas obras de recuperação da última intervenção da responsabilidade de uma empresa de Braga.

Para a reconstrução da fachada a pedra “até veio de Vila Nova de Foz Coa”, sublinha Rossine.

Capela de Nossa Senhora dos Matos, Mouriscas. Foto: mediotejo.net

Já José Carreira lamenta que a capela, apesar de intervencionada, continue a apresentar fissuras e rachas nas paredes interiores e exteriores. “Estava em péssimo estado. A capela não caiu por milagre”, admite, dizendo que na obra fizeram “o melhor” que podiam. E teve cobertura nova, pavimentos e trabalhos de recuperação de paredes e fachadas.

Agora talvez merecesse um novo olhar para reparar o que “ficou mal feito”. Até porque o culto a Nossa Senhora dos Matos tem raízes profundas na alma do povo de Mouriscas, que já mostrou não estar disposto a abandonar nem a santa nem a ermida.

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