Abrantes | A doce mistura da tradição com a inovação e a pastelaria saudável da 2000

Na cozinha da pastelaria 2000, Cátia Pereira segura uma travessa com as tradicionais tigeladas de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Por Abrantes, chega aquela altura do ano em que os gulosos mais afoitos vão à Feira de Doçaria à procura de novidades. Os doces tradicionais e conventuais são residentes mas também há quem inove não fugindo da tradição. A aposta prevalece nos produtos de qualidade e segue a tendência da alimentação mais equilibrada. É o caso da abrantina Pastelaria 2000 que na edição de 2018 apresentou as bolas de Berlim de spirulina, milho e girassol, beterraba e alfarroba. Este ano a grande novidade é a saudável tigelada de baixas calorias. O mediotejo.net esteve na cozinha para conhecer os processos e ainda provou o bolo xadrez de menta e chocolate e o pastel de frutos vermelhos, as outras duas novidades este ano na Feira Nacional de Doçaria Tradicional de Abrantes.

A cozinha da Pastelaria 2000 na Chainça, Abrantes, é um mundo de cheiros adocicados e cores vivas. Do forno elétrico, ainda que o pasteleiro José Pereira prefira fornos a lenha, sai um arco-íris comestível. E sem corantes alimentares que por lá são recusados tal como os conservantes. Os ingredientes mágicos que lançam o perfume no ar e as cores nos bolos são mais saudáveis, a pensar nos gulosos com intolerância ao gluten ou à lactose e com menor teor de açúcar do que têm, por exemplo, as bolas de Berlim tradicionais. O pão também se veste das mesmas cores e sabores a beterraba, alfarroba, milho e girassol e spirulina, uma alga que tal como a beterraba é transformada em farinha dando novas tonalidades à comida.

José Pereira começou a trabalhar como padeiro aos 14 anos, aos fins-de-semana para ganhar uns trocos, no concelho de Vila de Rei. Em Chão de Codes aprendeu alguns segredos da doçaria, nos tempos em que se amassava o pão à mão e perdia-se horas a meter lenha no forno até ganhar temperatura ideal para a cozedura.

 

José Pereira ao lado do pastel de tigelada, um produto próprio da Pastelaria 2000, em Abrantes, com marca registada. Créditos: mediotejo.net

Atualmente a vida continua de sacrifício, com o dia a iniciar à 01h00 prolongando-se madrugada fora, embora as máquinas aliviem a dureza do trabalho de padeiro/pasteleiro. Tarefa que divide com a mulher Ana Paula, responsável pela parte decorativa dos bolos da Pastelaria 2000, contando com a gestão da filha Cátia.

A casa que abriram na Chainça precisamente em 2000 celebra 20 anos em abril do próximo ano e nasceu “do sonho” de José, padeiro de profissão, com vontade de produzir os seus próprio produtos no seu estabelecimento comercial. Emigrou para a Suíça, onde permaneceu 15 anos. Regressado a Portugal estabeleceu-se em Abrantes num local inicialmente pensado para funcionar apenas como padaria.

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A pastelaria veio logo a seguir. “Houve essa necessidade. Tivemos alguns pasteleiros mas a curiosidade dos meus pais levou-os a criarem os seus próprios produtos. Foram aprendendo e tornaram-se autónomos, até porque era muito difícil encontrar pessoas especializadas na área da pastelaria e da padaria, uma das nossas maiores lacunas na época”, conta Cátia ao mediotejo.net.

José Pereira na preparação do pastel de tigelada, um produto próprio da Pastelaria 2000, em Abrantes, com marca registada. Créditos: mediotejo.net

Neste negócio familiar, Ana Paula tem essencialmente a missão da decoração. “Enfeito os bolos de aniversário e outros, preparo algumas massas, vou ajudando…. faço um pouco de tudo. Há 20 anos que trabalho nesta área. Tive bons professores, pasteleiros profissionais que vinham cá e nos ensinaram. Gosto muito do que faço … mas é duro e, por vezes, as pessoas não percebem o sacrifício que fazemos na cozinha para vender ao balcão”, desabafa.

Cátia é gestora internacional numa empresa de Construção Civil mas tem na empresa da família um papel que vai além da gestão e do marketing. “Lanço os desafios e as ideias e eles executam”, conta a rir. Coloca uma pose mais séria para falar da “herança do negócio” mas sem pensar muito nisso. “É um dia de cada vez”, diz.

No entanto, tem ideias sobre o futuro deste negócio cujo ingrediente principal é altamente calórico. Defende que “o futuro da doçaria passa pela redução do açúcar e pela preocupação com as intolerâncias alimentares. Penso que a pastelaria tem de se especializar. Se calhar daqui a 20 anos temos pastelarias que só produzem produtos sem lactose outras sem glúten porque as pessoas preocupam-se cada vez mais com aquilo que comem”.

As bolas de Berlim alternativas às tradicionais são uma aposta da Pastelaria 2000 em Abrantes. A vermelha de beterraba, a azul de spirulina, a castanha de alfarroba e a amarela de milho e girassol. Créditos: mediotejo.net

A casa dispõe de várias especialidades, nomeadamente o pão que recentemente ganhou novas cores tal como as bolas de Berlim, uma estreia na XVII Feira Nacional de Doçaria Tradicional de Abrantes a repetir este ano com bolos de beterraba – com recheio de frutos vermelhos e iogurte -, spirulina, milho e girassol e alfarroba. Este ano a grande novidade 100% saudável é a tigelada de baixas calorias, confecionada com açúcar mascavado, leite de arroz e farinha coloridas mais saudáveis.

“Com o passar dos anos vamos criando novos produtos e adaptando às necessidades das pessoas porque os clientes já não querem os mesmo produtos que comiam há 20 anos, por exemplo bolos grandes com muito creme. Atualmente as pessoas procuram um bolo com menos açúcar, pelas novas tendências e pelas preocupações com a saúde com o exercício físico. A tigelada é uma referência mas no ano passado lançamos a tigelada de milho e girassol e este ano vamos lançar uma tigelada de baixas calorias, com menos açúcar sendo mascavado, com farinha de beterraba ou de spirulina, de calorias zero e leite sem lactose”, explica Cátia.

A jovem gestora fala-nos sobre a alga responsável pela tonalidade esverdeada na tigelada, devido à conjugação do azul com o amarelo dos ovos, ou azul nos bolos e no pão. “Muito boa para quem tem problemas respiratórios, cardiovasculares, anemias. Tanto a beterraba como a spirulina são desidratadas antes de serem transformadas em farinha”, destaca.

Pastel de frutos vermelhos, uma estreia em 2019 da Pastelaria 2000, de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Quanto à participação da Pastelaria 2000 na Feira, funciona como montra de divulgação dos produtos. “Ao levarmos produtos novos à Feira possibilita a procura dos mesmo pelos clientes. É uma forma de divulgação muito maior, o que é bom para a região”, considera.

No ano passado as inovadoras bolas de Berlim mereceram da parte do consumidor “uma boa adesão e este ano voltamos a levá-las. Na Pastelaria não é diário, é um produto novo não podemos tê-lo todos os dias, é uma forma do cliente ter vontade de comprar. O cliente habitual não arrisca muito. Por isso gostamos de lançar os novos produtos na Feira”, refere.

Quanto a outras feiras, a equipa de pasteleiros da 2000 lamenta a falta de disponibilidade para percorrer o País a mostrar os doces tradicionais da região. “Fizemos os Mercados de Natal de Sardoal e Constância em 2018, este ano fizemos a mostra no Trail de Abrantes mas não nos aventuramos. Com falta de pessoal não é fácil irmos a feiras divulgar o produto da forma como gostaríamos”, revela Cátia.

Pastel de tigelada, um produto próprio da Pastelaria 2000, em Abrantes, com marca registada, apresentado pela primeira vez em 2018 na Feira de Doçaria. Créditos: mediotejo.net

Depois mostra-nos o bolo exclusivo da casa: o pastel de tigelada. “Um produto que está na fase final de um processo de registo no Instituto de Propriedade Industrial, o segredo mais precioso da 2000. Foi na Feira da Doçaria que o divulgámos e teve tão boa adesão que nos levou a querer registá-lo como produto nosso”. Um exemplo de inovação sem esquecer a tradição.

Entre as novidades a apresenta na Feira em 2019 conta-se o pastel crocante de frutos vermelhos, para além do bolo xadrez de menta com chocolate e da tigelada de baixas calorias.

“Quem gosta de pastel de nata e de frutos vermelhos vai adorar a combinação!” garante Cátia que enaltece a massa folhada feita pelo pai. “Extremamente estaladiça, muito apreciada pelo cliente que procura os nossos produtos. Temos de valorizar aquilo que as pessoas gostam e tentamos inovar mas ir ao encontro destes produtos sem nunca esquecer a tradição e a nossa condição de abrantinos”, frisa.

Os famosos suspiros da Pastelaria 2000 em Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Além da inovação, a Pastelaria 2000 vai levar à Feira, as rosas de natal, as broas de mel, os alsacianos, os suspiros simples e com amêndoa e a laranjinha folhada, uma criação de 2018. “Um pastel que deriva da nossa torta de laranja, com um intenso sabor frutado que chega dos nossos laranjas, e massa folhada. O nosso interesse é criar e não ficar pela monotonia”, vinca.

O brilho das tigeladas tradicionais de José Pereira também é famoso. Um segredo que o pasteleiro aprendeu aos 16 anos. “Fiz muitas tigeladas quando era novo e ia vender para a praça de Vila de Rei ao sábado de manhã. A minha mãe tinha um forno a lenha… essas é que eram espetaculares”, recorda. José batia as tigeladas à mão que esperavam enquanto aquecia o forno e então percebeu que saiam do forno sempre brilhantes. Mantém esse saber fazer até hoje.

José garante que o sucesso está “na vaidade” que aplica no trabalho de pasteleiro e nos tropeções dados ao longo do caminho. E conta que o segredo da sua massa folhada nasceu de um erro. “Deram-me a receita e fui treinando, certa vez enganei-me, dei-lhe menos uma volta e pensei que tinha estragado a massa mas na verdade resultou melhor. Não basta uma matéria prima de qualidade é preciso gosto e fundamentalmente experiência!”, afirma.

A Pastelaria 2000 não tem a dimensão de uma fábrica de chocolate, é mais uma pequena loja onde se pode beber um café, comprar pão e bolos preparados pelas mãos de José e Ana Paula que mantém o fabrico artesanal.

Sendo certo que a idade e uma vida de trabalho já pesam, mas o casal continua a arregaçar as mangas diariamente e não volta as costas ao sonho. Os tabuleiros estão cheios para ir ao forno… ou meio cheios com a outra metade completa com tigelas de barro vazias. Mais um truque “para o tabuleiro não inclinar com o calor”. José está atento quer ao forno, quer à fritadeira das bolas de Berlim. “O tempo passou num instante. Uns 15 minutos e os bolos estão prontos”. Vamos à prova?

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