Abrantes | A aventura da educação no abril de 74

Instalações do Colégio La Salle onde o Liceu se estabeleceu em 1975-1976 Foto: DR

Em 1974, o concelho de Abrantes possuía inúmeras escolas, de vários níveis de ensino, desde o pré-escolar ao secundário. Se o pré-escolar chegava apenas a uma parcela muito reduzida de crianças, na sede do concelho e espaço urbano adjacente, quase todas as localidades dispunham de escolas primárias, algumas das quais ministravam a 5.ª e a 6.ª classe, uma vez que a escolaridade obrigatória passara recentemente para seis anos. Ainda assim, muitas crianças não iam além da 4.ª classe, porquanto não existia qualquer mecanismo que garantisse a matrícula dos que completavam os quatro primeiros anos de escolaridade nos níveis subsequentes. Na escola primária, muitas vezes com salas com quarenta ou mais alunos, os métodos de ensino passavam amiúde pela punição física e pressão psicológica sobre os revelavam mais dificuldades.

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Na cidade de Abrantes, o Ciclo Preparatório D. Miguel de Almeida funcionava no Convento de S. Domingos. As escolas preparatórias, nascidas da Reforma de Veiga Simão, tinham em Abrantes uma referência a nível nacional, uma unidade piloto, tanto ao nível da pedagogia e do ensaio de novos programas como das iniciativas da relação com a comunidade.

Abrantes | A aventura da educação no abril de 74
Liceu de Abrantes – A cerimónia de abertura oficial
(Fotografia cedida por Belmira Bispo)

A Escola Industrial e Comercial de Abrantes (EICA) era a mais representativa para a cidade. Tinha sido a primeira a ter ensino secundário oficial, preparando os alunos para o mundo do trabalho (5.º ano, atual 9.º) ou para dar acesso aos cursos médios dos institutos de Engenharia, Comercial e de Contabilidade. Um bom indicador de como funcionava a escola naquele tempo é o facto de que, no dia 25 de Abril, a grande conquista dos alunos da EICA foi a invasão do pátio das raparigas. A divisão entre rapazes e raparigas não se fazia só nos pátios, mas sobretudo nos cursos: industriais para rapazes e comerciais para raparigas. Nesta altura, para além de Ciclo Preparatório, o Tramagal tinha uma secção da EICA, que se viria a autonomizar e a transformar-se em Escola C + S.

Na cidade de Abrantes existiam dois colégios com ensino secundário, o La Salle, para rapazes, e o Colégio de Nossa Senhora de Fátima, para raparigas. Eram escolas com alunos maioritariamente de fora da cidade e de origem burguesa. Porém, a diversificação de cursos ao nível do ensino secundário impediu que estes colégios dessem resposta aos novos tempos e a grande maioria dos alunos transitou para o liceu. O Liceu Nacional de Abrantes, que começara por ser uma secção do Liceu de Santarém, funcionava, em 1974, no Edifício Carneiro e espaços contíguos. Tratava-se de uma escola que tivera em 1973 os seus primeiros finalistas, onde as relações eram mais informais, nomeadamente com os contínuos. O Liceu e o Colégio La Salle, nesse tempo, faziam um sarau anual no Cine-Teatro S. Pedro, que constituía um acontecimento cultural de relevo para a cidade. Em 1975,  o Liceu passou a funcionar nas instalações do La Salle.

Se há áreas em que o 25 de Abril provocou uma verdadeira revolução, o ensino é sem dúvida uma delas, com as famílias de baixa condição social a perspetivarem a escola como meio de ascensão social. A escolaridade obrigatória de seis anos começou a ser cumprida pela grande maioria e a generalidade das famílias pretendia que os seus jovens cumprissem o ensino secundário. Isto obrigou à edificação de novas escolas e de novas respostas e à formação de mais professores. Em várias freguesias, a telescola foi a solução encontrada para responder à procura do ensino preparatório: Carreira do Mato e Rossio ao Sul do Tejo, ainda em 1974, e Água Travessa, Bicas e Fontes, em 1975. As novas instalações da Escola Preparatória D. Miguel de Almeida foram inauguradas em 1975 e, no mesmo ano, foi publicada a portaria que criou a Escola Preparatória de Alvega.

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A “licealização” das escolas técnicas, timidamente iniciada em 1967, prosseguiu após o 25 de Abril, com a extinção do ensino técnico e a unificação do ensino secundário. Julgava-se que, deste modo, se acabava com a discriminação social no ensino. Em Abrantes, em 1979, assistiu-se ao culminar deste processo, quando a Escola Industrial e Comercial de Abrantes e o Liceu Nacional de Abrantes passam a denominar-se, respetivamente, escolas secundárias n.º  1 e n.º 2.

No final dos anos setenta, início da década de oitenta, com as mulheres a acederem progressivamente ao mercado de trabalho, surgiram creches e jardins de infância, porém a rede pública não respondia às necessidades da população.

A escola democrática passou a prever um maior envolvimento da e com a comunidade. Os pais passaram a participar mais na vida escolar, tanto diretamente como através dos seus representantes. Em abril de 1982, foi constituída a Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Secundária N.º 2 de Abrantes. Quase todos os estabelecimentos de ensino, primeiro no secundário e depois também no ensino básico, começaram a produzir os seus jornais e boletins e deram-se a conhecer, a que não foi estranha a disponibilidade de recursos para reprodução destes meios de comunicação.

Se após o 25 de Abril o leite escolar passou a aquecer o estômago às crianças que frequentavam as escolas primárias, a ação social escolar desempenhou um papel fundamental num ensino massificado, com os bufetes, refeitórios e a concessão de subsídios, tanto a nível alimentar como de materiais e transportes. Em novembro de 1984, o Ministro da Educação, José Augusto Seabra, inaugurou o refeitório do IASE na Escola Secundária n.º 2. Simultaneamente continuaram a surgir novos edifícios escolares no concelho: ainda em 1984, abriu a nova escola de Monte Galego (Alvega) e, já em 1985, foram inauguradas as escolas primárias de Mouriscas.

Em 1986, ano em que o ensino obrigatório passou de 6 para 9 anos, com a formação de professores a ser reconhecida como necessidade premente, começaram a generalizar-se as ações de formação. Em Abrantes, neste ano, organizaram-se, na Escola Secundária n.º 2, as I Jornadas Pedagógicas de Abrantes, promovidas pelo Sindicato de Professores da Grande Lisboa. Em 1993, seria criado o ABRANFOCO – Centro de Formação de Professores da Associação de Escolas dos Concelhos de Abrantes, Constância, Gavião e Sardoal.

Em março de 1990, o Ministro da Educação, Roberto Carneiro e o Ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação, Arlindo Cunha, inauguraram a Escola Profissional de Agricultura de Abrantes (Mouriscas). Estas escolas surgiram um pouco por todo país, neste caso dando continuidade ao trabalho iniciado no âmbito do curso técnico-profissional de agropecuária, na Escola Secundária N.º 2.

As reformas sucessivas, nomeadamente no que concerne às regras de acesso ao ensino superior, provocaram algum desgaste nas escolas. Em Abrantes, no ano de 1992, em que a Escola Secundária N.º 1 e Escola Secundária N.º 2 passaram a denominar-se, respetivamente, Escola Secundária Dr. Solano de Abreu e Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, os seus alunos saíram à rua, em manifestação contra a prova geral de acesso ao ensino superior.

A afirmação das escolas na comunidade fez-se através de eventos com uma dimensão cada vez maior, como foram, em 1993, o II Encontro das Escolas Profissionais Agrícolas, realizado nas Mouriscas, o I Festival de Teatro Escolar, organizado pela Escola C+S Octávio Duarte Ferreira, e a Expo 93, na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu.

Entretanto, em meados dos anos noventa, já se sentia claramente a diminuição da população escolar do concelho, fruto do abaixamento da taxa de natalidade. Tal facto refletiu-se sobretudo nas aldeias de menor dimensão, onde o êxodo rural foi causa determinante para o encerramento de muitas escolas do 1.º ciclo.

O passar dos anos fez com que as escolas, em particular as mais antigas e de maior dimensão, tenham criado culturas muito próprias, que fizeram questão de comemorar nos seus aniversários, como aconteceu quando a Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes completou trinta anos, em 1997, ou quando, em 2003, a Escola Secundária Dr. Solano de Abreu festejou o seu cinquentenário.

Em 2003 foi inaugurada a EB1/JI António Torrado, uma conceção de escola para o século XXI, bem equipada, nomeadamente ao nível da biblioteca e centro de recursos. Ao mesmo tempo, anunciava-se que seria o último ano do ensino básico mediatizado, as famosas telescolas, que desempenharam a sua função durante três décadas. Em 2004/2005 a Câmara Municipal lançou, ao nível do 1.º Ciclo o projeto “Mocho XXI”, revolucionário a nível nacional, colocando, nos anos seguintes, computadores portáteis em todas as salas do concelho. Vivia-se a revolução das TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação. Também no 1.º Ciclo, as atividades extracurriculares, de frequência facultativa, preparavam-se para complementar o horário escolar, dando resposta às necessidades dos pais.

As escolas do 1.º Ciclo e Jardins de Infância começaram a funcionar em agrupamentos, que foram crescendo e que, desde há cerca de um ano são apenas dois, um com sede na Escola Dr. Manuel Fernandes, onde entretanto se passou a lecionar também 2.º Ciclo, e o outro com sede na Escola Dr. Solano de Abreu. A propósito das escolas sedes dos dois agrupamentos, não pode ser ignorado o papel por elas desempenhado em termos de ensino noturno, em diferentes modalidades, que tantas oportunidades facultou a tantos adultos e que hoje já não existe. Ambas as escolas foram contempladas por projetos de renovação, por parte da Parque Escolar, que no caso da Escola Dr. Solano de Abreu foi concluído, enquanto na Escola Dr. Manuel Fernandes foi suspenso a meio.

Também a Câmara Municipal procedeu a uma importante renovação do parque escolar na sua dependência. Procedeu-se à construção/renovação de centros escolares (Carvalhal, Rossio ao Sul do Tejo, Pego, Rio de Moinhos, Tramagal, Chainça, Alferrarede e Bemposta) e à renovação da Escola D. Miguel de Almeida.

Na última década do século XX, Abrantes recebeu o ensino superior, com a instalação da Universidade Internacional, que funcionou no Convento de S. Domingos e no Edifício Carneiro. A Universidade Internacional, a funcionar em regime pós-laboral, abriu a possibilidade a muitos trabalhadores de obterem uma licenciatura. Em 1999, instalou-se a Escola Superior de Tecnologias de Abrantes, do Instituto Politécnico de Tomar, com cursos diversificados, que vão da Engenharia Mecânica à Comunicação Social, cujos estudantes contribuíram para a recuperação da dinâmica no centro histórico da cidade. Mais recentemente, instalou-se em Abrantes um Centro Local de Aprendizagem da Universidade Aberta.

*Especial Passos do Concelho 40 anos do 25 de Abril – 2015

 Texto de José Martinho Gaspar

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