“Abacaxi”, por Armando Fernandes

Há largos anos, uns trinta (a Internet informa e deforma), apareceu no Panamá o general Noriega, dito abacaxi. Meteu-se no narcotráfico, a DEA apanhou-o e o patético ditador acabou numa penitenciária americana. E, porque detinha a alcunha de abacaxi? Porque tendo sido acometido por virulento ataque de varíola, o seu rosto foi picado e sulcado pelas bexigas (o mesmo aconteceu a Camilo Castelo Branco) ficando a sua pele rugosa a imitar um abacaxi.

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Lembrei-me da semelhança por via de em recente entrada num supermercado ter visto um mostruário repleto desta fruta originária do Peru, também país da batata e de canções dolentes eivadas de sons soprados pelas flautas e os altaneiros condores a passar. Lembram-se?

Pois bem, este fruto também conhecido em Portugal como ananás (dulcíssimos os cultivados em S. Miguel), prestam-se a refrescar gargantas, dar satisfação a palatos esquisitos, a alegrar e acolitar outros produtos comestíveis, sendo assinalável o seu contributo em vários segmentos culinários destacando-se tal contributo no domínio da confeitaria e pastelaria.

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Embora o meu gosto não simpatize com a adição de rodelas ou bocados de abacaxi a enchidos e presuntos, esta combinação pulula um pouco por toda a parte integrando menus provindos de cozinheiros da escola clássica, porque no referente à escola experimental tudo é possível neste reino de deslumbramentos.

Os meninos das escolas de hotelaria não ousam dizer «o rei vai nu», converteram-se ao cânone da «Maria vai com as outras». Não se esqueçam o servido no final de um curso ocorrido em Mação. Foram servidas especialidades da cozinha francesa!

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O abacaxi leva-me aos tempos de adolescência. De ler compulsivamente livros de evasão, entenda-se de aventuras, os autores empenhavam-se em descrever as qualidades dos frutos tropicais, por isso mesmo referiam as folhas dos abacaxis, das quais jorravam e jorram água deliciosa (já a degustei), fresca, sempre fresca, mesmo quando os raios solares incidem sobre o fruto. Se o leitor for a S. Miguel visite uma estufa de ananases e experimente.

Uma receita refrescante e fácil de elaborar: Para uma taça corte tiras de abacaxi, mergulhe-as em água ou vinho (de qualidade) junte açúcar quanto baste, refresque (não congele) e deguste à hora que lhe der jeito e, acima de tudo, bom proveito.

Escuso-me a enunciar outras receitas, os programas televisivos poupam-me o gasto de energias. No entanto, atrevo-me a, nos dias de calor, apaziguarem o afogueamento a comerem uma sopa fria de abacaxi polvilhada com pimenta branca ou sementes de malagueta.

PS. A despropositada temperatura neste início de Março justifica pedir-se socorro aos abacaxis! Está um calor de ananases!

 

 

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