“A vida numa taça de berlindes”, por José Rafael Nascimento

Foto: DR

Qual é o sentido da vida? Ou, não se sabendo o seu sentido, que sentido dar à vida? Se ela existe, e é social, ela tem (ou merece ter) um sentido, uma utilidade, um aproveitamento, para si próprio e para os outros. “É preciso viver a vida”, diz-se, com o significado de saber vivê-la com qualidade e não apenas de se manter vivo. Para logo se acrescentar que “viver é fácil, difícil é saber viver”, o que releva a importância da vontade e da capacidade para se ter uma vida dita “feliz”, ou seja, útil, agradável e realizada. Nem todos os indivíduos possuem, em cada momento, o mesmo poder volitivo (força de vontade) e a capacidade para lidar com a vida depende de quanto se procurou desenvolver as múltiplas inteligências – lógico-matemática, linguística, musical, visual-espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal, naturalista e, não menos importante, a existencial-espiritual – sendo esta, talvez, a mais importante para o tema desta crónica.

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Definida por Howard Gardner como a “capacidade de pensar, ponderar e elaborar sobre questões fundamentais da existência”, a inteligência existencial-espiritual é exibida por filósofos, religiosos, artistas e outros talentos que contemplam e reflectem em “fluxo” (imersão) sobre os aspectos essenciais da vida. Ken O’Donnell, um autor na área da espiritualidade, caracteriza-a em oito dimensões:

  1. Sensatez das decisões;
  2. Respeito nos relacionamentos;
  3. Tranquilidade face às dificuldades;
  4. Estabilidade revelada em situações frustrantes;
  5. Transparência e fair play na relação com os outros;
  6. Dignidade que se retém quando se respeita a dignidade dos outros;
  7. Facilidade em observar as virtudes e não apenas os defeitos dos outros;
  8. Tempo, dinheiro, energia e pensamentos necessários para obter um resultado desejado.

Outros autores, como Robert Emmons, propõem dimensões mais transcendentais como a capacidade de superar a realidade física e material, experienciar estados elevados de consciência, santificar a experiência quotidiana e utilizar recursos espirituais para resolver problemas.

As inteligências são múltiplas e podem ser desenvolvidas tanto em crianças como em adultos | Foto: Kodo Kids

Há uns anos, na primeira visita de trabalho que fiz a um empresário ribatejano no âmbito de um projecto de consultoria que orientei, reparei que ele tinha em cima da secretária uma taça de berlindes. Ao notar a minha expressão de surpresa, explicou-me que aquela taça continha tantos berlindes quantos os dias que previa ainda viver. Todos os dias, o empresário retirava um berlinde da taça, mantendo-se assim consciente de que a vida é efémera e de que todos os dias que nos restam merecem ser bem aproveitados. Achei curiosa esta atitude, ao mesmo tempo que sentia algum desconforto com a ideia de contar os dias que me restam, até porque a prática societal é de contar (e celebrar) anualmente os dias que já vivemos. Este hiper-realismo pode ser chocante, mas ele reflecte a pura das verdades: a vida é efémera e, apesar de ainda não se conhecer o sentido da sua existência, é preciso dar-lhe um sentido (na relação intra e interpessoal) a que geralmente se chama “felicidade”.

Na era digital, a Internet oferece-nos vários sites com calculadores de longevidade ou esperança de vida, os quais satisfazem não apenas a mera curiosidade do cidadão comum, mas também a necessidade de quem pretende cuidar com antecipação da sua reforma, designadamente em termos de planeamento financeiro. Um dos mais conhecidos calculadores de longevidade foi criado pelo Prof. Dean Foster da Escola de Negócios Wharton, na Universidade da Pensilvânia, e baseia-se em 14 variáveis (testadas para a realidade americana): género, idade, peso, altura, etnia, educação, estado civil, actividade laboral, rendimento, actividade física, estado de saúde, diabetes, consumo de álcool e de tabaco. Por esta estimativa, à qual deve ser acrescentado um bónus por felicidade no casamento (ou nos relacionamentos próximos, equivalente a não fumar), fica-se a saber a idade ou a data estatisticamente provável do falecimento. Descontando a idade que já tem e multiplicando por 365,25, tem o número de berlindes que precisa de pôr na taça. Parece-lhe uma boa ideia, ou prefere não pensar no assunto e confiá-lo à divina providência?

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A ampulheta é geralmente usada para contar o tempo que falta quando a duração é curta | Foto: Freepik

Mas a vida não é apenas uma adição ou subtracção de anos, é também vivê-la com abrangência, equilíbrio, qualidade e proveito. O que nos conduz à segunda taça de berlindes, não para jogarmos com a metáfora dos anos que nos restam, mas das prioridades que nos falta estabelecer. O exercício é conhecido por quem já participou em workshops sobre gestão do tempo e organização pessoal: se enchermos uma taça com água (representando esse espaço a capacidade ou disponibilidade máxima de tempo e realização), não conseguiremos lá colocar berlindes ou areia sem que a água transborde, por evidente falta de espaço. Mas, se começarmos por encher a taça com berlindes, encontraremos espaço para continuar a encher e acomodar sucessivamente areia e água na mesma taça, por esta ordem. Ou seja, os berlindes representam as tarefas ou actividades mais importantes e prioritárias, enquanto a água representa as menos importantes e não prioritárias. Se gastarmos todo o tempo a “meter água” e a “semear na areia”, não nos sobrará espaço para os berlindes.

O tempo é um bem (um valor, uma capacidade) igualmente distribuído por ricos e pobres, que se renova na mesma dose a cada dia, mas que se perde definitivamente quando não (ou mal) utilizado. Quando bem empregado, o tempo é um aliado, quando mal aproveitado um inimigo. E não, o tempo não voa, passa sempre ao mesmo ritmo, embora não seja essa a percepção de cada um, em dada circunstância. Podemos, então, voltar a uma taça de berlindes (a terceira), agora para contar tempo de actividade e não de vida. Se os berlindes tiverem diferentes cores, representando cada uma delas uma actividade diferente – p.e. tempo de trabalho, de lazer, de família e de descanso –, podemos calcular quantas horas queremos investir em cada uma delas (por semana, mês ou ano) e, consequentemente, encher a taça com o respectivo número de berlindes. O objectivo é alcançar o melhor equilíbrio de vida possível. Essas horas serão depois contadas e os berlindes retirados da taça, consoante as actividades realizadas. As cores que restarem representam as actividades que negligenciámos, com ou sem bons motivos, geralmente a penalizar a família e o descanso.

“No ‘jarro da vida’, há sempre espaço para tomar uma cerveja com os amigos!” | Fonte: Philipp Schneider

A quarta taça de berlindes foi utilizada por uma mãe para explicar aos seus filhos pequenos a doença de que padecia: fibromialgia ou síndrome de fadiga crónica (CFS/ME), uma doença cuja causa ainda se desconhece, mas que pode envolver factores biológicos, genéticos, infecciosos e psicológicos (mais informação aqui). Não sendo a fadiga devida a um esforço continuado ou intenso, nem deveras aliviada com descanso ou medicação, tornava-se difícil àquela mãe explicar aos filhos a sua limitação, até porque as crianças possuem um nível extraordinário de energia e não compreendem que um adulto aparentemente normal possa não tê-la. Colocou então, sobre a mesa, uma taça de berlindes e disse-lhes que cada berlinde representava um pedaço de energia que uma pessoa com fibromialgia (ou outra doença extenuante) possuía. Assim, os dias podiam começar com mais ou menos berlindes na taça, enquanto as tarefas podiam representar o consumo de mais ou menos berlindes. Com esta explicação, a mãe não precisou mais de lembrar os filhos da sua doença, quando se sentia sem forças e sem paciência, dizendo-lhes apenas que se lhe tinham acabado os berlindes.

Este pode ser também um jogo a adaptar a outras circunstâncias, na relação com os outros ou consigo próprio, em que a ajuda de um contador pode ser preciosa. É o caso das dietas, por exemplo, em que um contador pode dar uma ajuda preciosa à força de vontade e disciplina que faltam para se conseguir reduzir o peso. Assim, sugere-se a colocação sobre a mesa de uma taça (a quinta) com tantos berlindes quantos os quilos que se pretende perder, os quais vão sendo retirados à medida que se vai perdendo peso (podendo ser passados para outro recipiente). É essencial que cada um se conheça razoavelmente e tenha consciência das suas capacidades ou limites emocionais, assim como das suas forças e das suas fraquezas. Tendo essa consciência e autoconhecimento, a taça de berlindes pode ajudar a auto-regular a sua disposição e comportamento, melhorando a conscienciosidade, autodomínio, inspiração de confiança, adaptabilidade e inovação. Em suma, uma simples taça de berlindes pode auxiliar bastante o esforço de incremento da inteligência emocional e social de um indivíduo, com todas as vantagens e benefícios que isso pode representar para quem decide investir no seu desenvolvimento pessoal.

“Don’t lose your marbles” é uma expressão popular anglo-saxónica, significando “não percas a cabeça”. No cartaz à direita, ela é usada para denominar um evento comunitário sobre saúde mental.

Temos, agora, a sexta taça e ela só tem um berlinde, o suficiente para uma psicoterapeuta explicar a um paciente que sofria de stress o impacto das pequenas preocupações. “Acha que consegue suportar o peso deste berlinde?”, perguntou ela, mostrando um pequeno berlinde de algumas gramas. “Claro que sim!”, respondeu ele surpreendido e pegando no berlinde com o braço esticado. “Então veja quanto tempo consegue segurar assim o berlinde”, desafiou a psicoterapeuta. Ao fim de algum tempo o paciente já tinha dores no braço e, à medida que o tempo passava, o braço parecia que ficava cada vez mais pesado, acabando por desistir de segurar o berlinde. “Vê? Você foi vencido por um berlinde!”, concluiu a clínica para, de imediato, acrescentar: “As pequenas preocupações da vida geradoras de stress são como esse berlinde, pensamos nelas quanto baste e não nos pesam mas, se nos fixarmos demasiado tempo nelas, começam a pesar-nos e a tornarem-se insuportáveis”.

O stress de que falamos é o mau stress, tecnicamente designado por distress. Mau porque produz efeitos negativos, a nível emocional, físico, cognitivo e social. Mas existe também um stress bom, o eustress, gerador de motivação (gana, pica). É tudo uma questão de intensidade e percepção. Intensidade da pressão exercida sobre o (e sentida pelo) indivíduo e dos recursos que este possui (ou julga possuir), i.e., a percepção que se tem da pressão e dos recursos pode variar de indivíduo para indivíduo, e de circunstância para circunstância. O que fazer, então, para gerir o stress? Desde logo, criar o bom e evitar o mau, regulando a intensidade da pressão e dos recursos, mas também ajudando as pessoas a percepcioná-los de forma realista, ou conveniente para a manutenção do stress dentro de limites aceitáveis e positivos.

Durante quanto tempo consegue segurar um berlinde com a mão esticada?

E chegamos à sétima taça de berlindes, aquela que foi proposta por um professor do ensino básico aos seus jovens alunos (contado aqui). Preocupado com o facto de grande parte deles valorizar mais as coisas más do que as coisas boas que lhes iam acontecendo, decidiu colocar na sala de aulas uma taça vazia. Instruiu depois os alunos para colocarem na taça um berlinde colorido (as cores eram diversas) sempre que escutassem ou observassem coisas boas, como palavras e actos de empatia, amabilidade, generosidade, solidariedade ou compaixão. E para retirarem da taça um berlinde sempre que notassem coisas más (uma variante deste jogo consiste em colocar ou retirar berlindes com diferentes tamanhos, consoante a importância atribuída à atitude avaliada). Os alunos aceitaram o desafio e passaram a estar mais atentos às coisas boas, não valorizando apenas as coisas más. O resultado foi que, ao fim de algum tempo a taça de berlindes estava cheia de reluzentes berlindes multicoloridos e os jovens alunos demonstravam maior capacidade de escuta e observação, mais actos de partilha e cooperação, e um grau mais elevado de satisfação pessoal e social.

Verificou-se, então, que não só a percepção da realidade passou a ser mais objectiva, como se produziu um fenómeno de “profecia auto-realizadora”, também conhecido por “Efeito Pigmaleão”: um prognóstico que, ao tornar-se crença, influencia o comportamento do próprio e dos outros, provocando a sua concretização, ou seja, quando se espera ou acredita que algo acontecerá, age-se inconscientemente como se a profecia fosse uma realidade e, em consequência, a previsão acaba efectivamente por se confirmar, reforçando a respectiva crença. E os alunos aprenderam que a criação de um espírito positivo e construtivo, e de um ambiente social solidário e de confiança, geralmente se alcança berlinde a berlinde, isto é, com pequenos mas persistentes e resilientes passos. A não ser que estejamos a saltar sobre um precipício, caso em que não convém fazê-lo com pequenos passos.

LOVE

LOVE, instalação do artista e cineasta ucraniano Alexander Milov, no festival Burning Man 2015 (Black Rock, EUA). Pode jogar aqui um puzzle com esta imagem.

Sabemos bem que a vida com qualidade e felicidade não é fácil e que a realidade está sempre a colocar-nos novos e complexos desafios, mas fica aqui demonstrado o poder de auto-ajuda de uma singela taça de berlindes. Contudo, se lhe faltar paciência para os jogos que sugeri, pegue já nalguns berlindes, convide alguém para jogar ao “mata” ou às “três covinhas”, liberte a criança que há em si e crie um momento feliz e memorável na sua vida. Sabe porquê? Porque envelhece quem deixa de brincar e, como disse um dia o famoso “beatle” John Lenon, a vida é o que acontece enquanto gastamos tempo a pensar no que fazer com ela.

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