“A professora que ensinou uma aldeia a ler”, por Berta Silva Lopes

Foto: DR

Joelhos e cotovelos esfolados, uma subida que batizou um pedaço de estrada (ladeira da escola), amigos para a vida toda e uma professora que foi ao mesmo tempo educadora e cuidadora, higienista oral, polícia de cabeças e enfermeira: é isto que me vem à memória quando penso nos anos da escola primária.

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Na sala, que parecia enorme, cabiam as quatro turmas, uma por cada ano, 20 crianças com nota razoável a comportamento, bom a desatenção e muito bom a recreio, mais o típico quadro de ardósia e uma salamandra.

Empoleirada num dos pontos mais altos da aldeia, a Escola Primária de Queixoperra era húmida e gelada no Inverno, mesmo quando o sol aparecia no cabeço do moinho e se estendia sobre o sobrado. Nesses dias, de pouco nos valiam os kispos, as ceroulas e os collants por debaixo das calças, as pernas enchiam-se sempre de chouriças e nos dedos as frieiras eram aos montes.

Porém, a Professora Helena nunca deixava uma lição por dar. De certa forma, era uma professora à moda antiga. Se não sabíamos a tabuada, não tivéssemos estudado a lição, não fossemos capazes de fazer uma conta, fossemos malcriados ou déssemos erros nas cópias, a reprimenda era certa.

Já nos ditados, quando escrevíamos mal alguma palavra, o mais provável era termos de escrever essa palavra corretamente 20 vezes no quadro, ou no caderno, já em casa. Dedicada e exigente, era assim a saudosa Professora Helena Gueifão.

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Foi uma excelente professora, ninguém contesta, inclusivamente aqueles que acham que dava demasiado uso à temida régua de madeira ou à célebre cana-da-índia guardada num canto da sala. Não tolerava certos comportamentos, como quando nos púnhamos a tentar escutar uma conversa atrás da porta, e ficávamos todos de castigo mesmo se só um de nós lhe tivesse desobedecido.

A Professora Helena partiu muito cedo, infelizmente. Mestre na arte de ensinar, deixou uma marca indelével em várias gerações de crianças da minha aldeia. Há gente que fica na história da história da gente, canta Mariza. Depois dela, outras se lhe seguiram até ao triste fecho da única escola de Queixoperra, mas o seu legado permanece.

Falo das memórias do grupo de cima (o que tinha de atravessar um pequeno riacho e percorrer caminhos de terra batida até chegar à escola) e do de baixo (aquele que era obrigado a subir a famosa ladeira para chegar à escola), bandos de gente pequena, sem rei nem roque, pelas ruas da aldeia afora, na ida e no regresso.

Passaram muitos anos e já não há escola na minha aldeia. A pequenada segue hoje para a vila de Mação onde, como outrora na minha escola, descobre o mundo. Oxalá estejam a criar amigos e memórias para a vida e espero que também brinquem ao elástico, ao pião e ao macaquinho do chinês, isto porque desconfio que nenhum deles saberá alguma vez o quanto dói esfolar as pernas ou os braços a descer a ladeira da escola num carrinho de rolamentos, e é pena, porque naquele tempo até isso era pedagógico.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.
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