“A poluição na ribeira da Boa Água: um problema de consciência”, por José Trincão Marques

Fountaine (1917), Marcel Duchamp | © Succession Marcel Duchamp / Adagp, Paris 2007

“Eu sonhava que tinha entrado no corpo de um suíno, do qual me não era fácil sair, e que chafurdava os pêlos nos lodaçais mais imundos. Seria como recompensa? Tal como desejara, já não pertencia à Humanidade! Por mim, entendi assim a interpretação do sonho e senti com isso uma alegria mais que profunda. A metamorfose nunca surgiu a meus olhos senão como a alta e magnânime ressonância de uma felicidade perfeita, que há muito esperava. Tinha chegado finalmente o dia em que eu era um suíno! Experimentava os dentes nas cascas das árvores… O meu focinho: contemplava-o com delícia. Já não me restava a mínima parcela de divindade! Consegui elevar a alma até à excessiva altura desta inefável delícia…
Escutai-me pois, e não coreis, inesgotáveis caricaturas do belo, que levais a sério o ridículo zurrar da vossa alma, soberanamente desprezível. E que não compreendeis por que motivo o Todo-Poderoso, num raro momento de excelente paródia – que decerto não ultrapassa as leis gerais do grotesco –, se deu um dia ao mirífico prazer de fazer habitar um planeta por seres singulares e microscópicos chamados humanos, cuja matéria se assemelha à do coral vermelho. Claro que tendes razão para corar, ossos e gordura, mas escutai-me. Eu não invoco a vossa inteligência. Vós faríeis com que fosse expulsa do sangue pelo horror que ela vos testemunha. Esquecei-a e sê-de consequentes com vós próprios.

Agora, não havia mais constrangimentos. Quando queria matar, matava! E isso até me acontecia muitas vezes e ninguém mo impedia. As leis humanas ainda me perseguiam com a sua vingança, embora eu não atacasse a raça que tinha abandonado com tanta tranquilidade. Mas a minha consciência não me acusava de nada!”

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Conde de Lautréamont (pseudónimo de Isidore Ducasse), O Sonho, in Os Cantos de Maldoror, 1869

 

É inaceitável e inadmissível que os poderes públicos não consigam resolver o grave problema da poluição na Ribeira da Boa Água, no concelho de Torres Novas. À semelhança de um país do terceiro mundo, ignoram-se os danos no ambiente, na saúde pública e na economia local. Não se promoveram até hoje medidas concretas e acertadas para resolver este foco de poluição. Não se sabe se as autoridades públicas com competência nesta matéria já recolheram provas legalmente válidas que identifiquem os infratores. Desconhece-se que medidas se pretendem adotar para resolver eficazmente este problema ambiental.

Estamos perante um exemplo notório de falta de capacidade do Estado para aplicar as leis vigentes que aprovou, para proteger os seus cidadãos, para defender o ambiente e para cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa.

Esta inércia do Estado revela o seu colapso e incapacidade de resposta, transmite insegurança e descrédito às populações, demonstra falta de autoridade e cria alarme social. Será necessário colocar alguns organismos públicos em Tribunal, que estão paralisados e apagados (ou APAgados), para os obrigar a cumprir de forma competente as suas obrigações legais de fiscalização e de defesa do interesse público?

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Esta inércia do Estado revela o seu colapso e incapacidade de resposta, transmite insegurança e descrédito às populações, demonstra falta de autoridade e cria alarme social.

Vivemos tempos perigosos e complicados para a democracia na Europa e no Mundo, onde os cidadãos cada vez mais se sentem distantes dos políticos que têm o dever de os representar, de defender os seus interesses e de resolver os seus problemas mais básicos.
É neste contexto que têm proliferado os populismos e crescido, um pouco por todo o lado, os movimentos anti-democráticos como válvula de escape das sociedades que já não acreditam nos dirigentes políticos que elegeram democraticamente.

Será possível, como no conto “O Sonho”, de Isidore Ducasse, que algumas consciências não se acusem a elas próprias de nada? Será possível aquele sonho ter-se tornado realidade?

Nos “Cantos de Maldoror”, publicados precisamente há 150 anos, o mesmo Isidore Ducasse, num outro conto intitulado “A Porcaria”, escreveu um texto lapidar que nos deveria hoje provocar pelo menos alguma inquietação interior perante a falta de respeito que temos revelado pela defesa do ambiente e conservação da natureza:

“(…) Não faleis da minha coluna vertebral, porque é uma espada. Sim… Sim, não estava a reparar!… A vossa pergunta tem toda a razão de ser! Desejais saber, não é verdade, como é que ela se encontra verticalmente implantada nos meus rins? Nem mesmo eu me lembro muito claramente. No entanto, se me decidir a tomar por recordação o que talvez não passe de um sonho, sabei que o Homem, quando soube que eu tinha feito o voto de viver com a doença e a imobilidade até vencer o Criador, veio por trás de mim, na ponta dos pés… Mas não tão levemente que eu o não ouvisse! Não percebi mais nada durante um instante, que não foi longo. Aquele punhal afiado enterrou-se até ao cabo entre as duas espáduas do touro de morte e a sua ossatura estremeceu como um tremor de terra. A lâmina adere tão fortemente ao corpo que ninguém até agora a conseguiu extrair. Os atletas, os mecânicos, os filósofos, os médicos, tentaram, cada um por si, os meios mais diversos. Não sabiam que o mal feito pelo Homem não pode mais ser desfeito!
Estou sujo. Ruído de piolhos. Os porcos quando olham para mim, vomitam.”

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