“A parada de Montalvo”, por António Matias Coelho

(Foto: Arquivo Histórico Militar – coleção Arnaldo Garcez)

Há 100 anos Portugal preparava as suas tropas para participar na frente europeia da Grande Guerra.

PUB

A instrução decorreu no Campo de Manobras de Tancos. Lutando contra o tempo, porque a decisão de entrar na Guerra tardou a ser tomada, visava-se aprontar cerca de 20 000 homens para enviar para as trincheiras do norte da França. A operação fez-se em apenas três meses e ficou conhecida como o Milagre de Tancos.

No final, uma grande parada militar procurou mostrar ao país e à Europa a nossa capacidade de realização, apresentada como extraordinária. Foi a célebre parada de Montalvo, em 22 de julho de 1916, fez agora um século.

PUB

A Grande Guerra começou em meados de 1914, numa altura em que a nossa jovem República, que nem quatro anos tinha, se procurava afirmar no contexto europeu, maioritariamente monárquico, e se digladiava num mar de conflitos internos. Era fundamental garantir a defesa das colónias em África e a continuidade dos nossos direitos sobre elas e para isso conviria que Portugal participasse na Guerra para poder tomar parte na conferência de paz que desenharia o futuro do mundo quando o conflito acabasse. Os partidos republicanos, contudo, nunca se entenderam sobre esta questão crucial para o novo regime e o tempo foi-se arrastando, como se arrastavam as dissensões entre guerristas e não-guerristas.

Portugal acabou por entrar na Guerra na sequência do apresamento, a pedido da Inglaterra, dos navios alemães ancorados em portos portugueses. Reagindo a este episódio, a Alemanha, que mantinha há muito tempo combates com tropas portuguesas na frente africana, declarou finalmente guerra a Portugal, em 9 de março de 1916. Ora acontece que o país, a bem dizer, não tinha exército, e mesmo as poucas forças de que dispunha estavam mal equipadas, mal preparadas, mal dirigidas, desmoralizadas e minadas pela indisciplina.

PUB

Foi necessário, por isso, um esforço notável de organização para, em apenas três meses, de abril a julho de 1916, aprontar cerca de 20 000 homens, na sua grande maioria jovens camponeses arrancados das suas aldeias, para enviar para o cenário, para eles completamente novo e tremendamente hostil, das trincheiras da Flandres. O Campo de Manobras de Tancos, onde em menos de nada se ergueu uma verdadeira cidade de barracas de madeira e de tendas – imediatamente batizada Paulona – foi o local escolhido para se operar o verdadeiro milagre de preparar, em tempo recorde, o que viria a ser o Corpo Expedicionário Português. Foi esse o Milagre de Tancos.

Para coroar a operação, os responsáveis políticos e o estado-maior prepararam uma grande parada militar destinada, sobretudo, a mostrar aos portugueses e, muito especialmente, aos Aliados, a capacidade organizativa do país. Foi a parada de Montalvo, realizada em 22 de julho de 1916.

 

am
O Presidente da República Bernardino Machado e a ilustre comitiva na parada de Montalvo (Foto: Arquivo Histórico Militar – coleção Arnaldo Garcez

Num grande terreno plano junto à aldeia, da estrada para a banda do Tejo, montou-se uma tribuna, decorada com as bandeiras de Portugal, do Reino Unido e de outros países aliados, em que tomaram assento as altas personalidades para assistir ao acontecimento. Presidida pelo chefe do estado, Bernardino Machado, a cerimónia teve a presença das mais importantes figuras do regime – o presidente do Senado Correia Barreto, o presidente do Governo António José de Almeida, o ministro da Guerra Norton de Matos, o presidente da Câmara dos Deputados Manuel Monteiro, vários ministros e os oficiais da guarnição. Entre os convidados, destacavam-se relevantes figuras do corpo diplomático, como os ministros (embaixadores) da Bélgica, do Reino Unido e da Rússia.

Desfilaram perante a tribuna presidencial, em separado e ordeiramente, a infantaria, a cavalaria e a artilharia e a todas as forças, que lhe apresentaram armas, o Presidente da República passou revista.

A grande tribuna montada em Montalvo para a parada militar (Foto: Arquivo Histórico Militar – coleção Arnaldo Garcez)
A grande tribuna montada em Montalvo para a parada militar
(Foto: Arquivo Histórico Militar – coleção Arnaldo Garcez)

A Ilustração Portugueza, revista semanal do jornal O Seculo que então se editava, publicou uma extensa reportagem, profusamente ilustrada com fotografias do célebre fotógrafo de guerra Arnaldo Garcez, em que descrevia com pormenor a parada de Montalvo e tecia uma série de considerações imbuídas do espírito patriótico e beligerante em que o governo procurava envolver o país. Afirmava, por exemplo, que a grande parada de Montalvo, em que entraram todas as forças concentradas em Tancos, é talvez o facto mais brilhante da nossa história militar dos últimos anos. E ia ao ponto de sentenciar: sentia-se que, se toda aquela gente tivesse, em seguida à parada, de se lançar contra o inimigo, não haveria muralha de aço que lhe aguentasse o primeiro embate.

Infelizmente, a propaganda do regime e da imprensa que lhe era afeta nada pôde fazer contra a crueza da realidade que os nossos soldados – esses soldados que desfilaram em Montalvo – haveriam de encontrar nas trincheiras da frente ocidental, dos imensos sofrimentos que lá passaram e da pesada derrota que lhes foi imposta na batalha de La Lys.

Entre esses soldados havia umas largas dezenas de rapazes do concelho de Constância, onde a parada se realizou. Também eles tomaram parte nesse grande esforço que há 100 anos foi exigido ao país para participar numa guerra para a qual o Milagre de Tancos os preparou tão mal… Um deles, chamado Manoel Rodrigues Silva, soldado servente que depois seria promovido a 1.º cabo apontador de artilharia – certamente um dos poucos da sua terra que sabia ler e escrever – deu-se ao trabalho de registar meticulosamente, dia após dia, na sua agenda de algibeira, o que lhe ia acontecendo nas terras de França para onde o mandaram combater. Esse diário vai ser publicado, no final deste mês de outubro, quando, a propósito do centenário da entrada de Portugal na Grande Guerra, se realizar, em Montalvo, um colóquio sobre O Ribatejo e a Grande Guerra, organizado pelo Fórum Ribatejo e pela Câmara Municipal de Constância.

Um século depois, as manobras militares de preparação para a guerra e a parada de Montalvo continuam bem vivas na memória coletiva da gente da aldeia e acabaram mesmo consagradas na toponímia. Ali perto, do lado de lá da A23, há uma colina onde se faziam treinos e a que o povo chama o cabeço da Manobra. Era lá que, vivendo-se tempos de fome severa, as pessoas iam, nessa primavera de 1916, buscar alguns restos de comida dos soldados para minorar as suas precisões. E do outro lado de Montalvo, passando a estrada para o lado do Tejo, lá está, agora povoado de eucaliptos, o terreno plano onde, há um século, 20 000 homens desfilaram perante altas figuras políticas e militares antes de seguirem para o gelo das trincheiras e, muitos deles, para a morte. A esse chão chama o povo Arneiro da Parada.

PUB
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here