“A minha carta para o Pai Natal”, por Berta Silva Lopes

“Querido Pai Natal,
Eu sou a Berta. Este Natal só queria fazer xixi em paz na casa de banho e também dormir na minha cama sem as minhas filhas. E ainda um vestido giro.” 

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Ao fim de quase 40 anos, o Pai Natal recebeu correspondência minha pela primeira vez. A carta foi escrita pela minha filha mais velha há uns dias e os pedidos são inteiramente da sua autoria. Não sei por que raio ela se lembrou destes desejos, mas estão aprovados, claro.

Sossego é coisa que raramente tenho quando estou em casa com as duas, até mesmo quando preciso de ir à casa de banho. Há sempre uma cantiga que têm de partilhar comigo naquele instante, um desenho para ser visto com urgência, uma pintura que vai autodestruir-se em cinco segundos, uma pergunta inadiável.

A minha filha está naquela idade em que começa a duvidar da existência real do Pai Natal. Pragmática, faz perguntas concretas sobre tudo e mais alguma coisa na expectativa de apanhar os pais desprevenidos e comprovar a sua desconfiança.

Como é que vocês sabem que o Pai Natal sabe ler português? Como é que o Pai Natal sabe que estamos na aldeia e não em Lisboa? Como é que ele consegue subir pela chaminé depois de deixar os presentes? Como é que dá a volta ao mundo numa noite? Como é que ele sabe se nos portámos bem durante o ano? E como é que ele está no Colombo se vive na Lapónia?

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O Pai Natal é mágico, filha – responde o pai a todas as perguntas dela. Mas ela já não vai em conversas. Sobra para a mãe, claro, e é por isso que o sossego é muito bem-vindo, Pai Natal. Espero que tenhas tomado nota, afinal assegurei à miúda que sabes ler todas as línguas e ela esmerou-se na letra. Não há desculpas, velhote barbudo.

Na lista da minha filha faltam apenas os livros. Desafortunadamente, é raro receber livros. E não é verdade que já tenha de sobra. Tenho muitos, sim, mas livros nunca são demais. E são presentes que podem abrir-se infinitas vezes.

Na minha opinião, não há presente melhor do que um livro. Digo-o não só porque vivo e trabalho rodeada deles, mas sobretudo porque acredito nas vantagens da leitura, tantas delas já comprovadas pela ciência.

Foto: Kari Shea / Unsplash

Por isso, este ano, gostava que pudéssemos inaugurar por cá a tradição de trocar livros na noite de Natal, tal como acontece na Islândia. Todos os anos, na consoada, o principal presente trocado pelos islandeses é um livro. A tradição nasceu durante a Segunda Guerra Mundial e hoje em dia é levada tão a sério que todas as casas recebem em outubro um calendário com as novidades literárias do ano.

À lareira, famílias inteiras a descobrir novas histórias é o desafio que vos deixo. Por mim, de boa vontade troco o vestido giro, as noites mal dormidas e até o sossego na casa de banho por livros no sapatinho. Jólabókaflóð* para todos, Pai Natal? Boas festas e boas leituras.

*Enchente de livros, em islandês
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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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