À Mesa Com… António Matias Coelho

António Matias Coelho. Foto: mediotejo.net

Convidámos António Matias Coelho para se sentar à mesa connosco e o almoço a meio da semana acabou por ter sabor aos de sábado ou domingo, acompanhado pela conversa e as enguias fritas que serviram de mote para uma longa tarde em que se falou da infância, da carreira profissional ligada à História, das suas grandes paixões, da importância do tempo e dos planos futuros. Tema a tema, partilhado em cada momento da ementa que apresentamos de seguida.

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ENTRADAS

À Mesa Com... António Matias Coelho
As entradas. Foto: mediotejo.net

A seleção das entradas foi fácil. Pão, azeitonas e queijo a puxar o vinho tinto da casa. Mais difícil é associar António Matias Coelho a um concelho. Podíamos começar pelo de Salvaterra de Magos, onde nasceu, em 1957, e está associado às origens familiares remontam, que ao século XIX, altura em que as terras da Charneca “estavam a mato” e foram desbravadas pelos “caramelos”, vindos das zonas da Figueira da Foz e de Soure, para criar campos de cultivo. No entanto, ficavam a faltar mais de trinta anos de vida.

Neste caso, a primeira escolha poderia ser o de Constância pela sua associação ao poeta Camões e ao trabalho que desenvolveu na Câmara Municipal de Constância. Outra hipótese ligada a este período temporal seria o da Chamusca, que conheceu, sobretudo, como docente de História desde o ensino Básico ao Secundário e no tempo em que trabalhou para este município.

Para complicar, surge o concelho da Golegã, onde reside há cerca de três décadas, e o do Entroncamento, associado à experiência de atleta do CLAC – Clube de Lazer, Aventura e Competição nas modalidades de atletismo e orientação, para o qual já conquistou troféus. A tarefa acaba por ser simplificada com uma das causas que defende há anos: acima de tudo, é Ribatejano.

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PRATO PRINCIPAL | Arroz de Enguias à moda da D. Guilhermina

À Mesa Com... António Matias Coelho
O almoço decorreu na “Casa das Enguias”, na aldeia do Boquilobo. Foto: mediotejo.net

O ponto de encontro é a “Casa das Enguias”, na aldeia de Boquilobo, freguesia da Brogueira, no concelho de Torres Novas, conhecida pela Reserva Natural do Paul do Boquilobo e onde nasceu Humberto Delgado, o General Sem Medo. No entanto, para António Matias Coelho, o motivo da escolha do restaurante prende-se com o sabor das enguias que aviva as memórias de infância.

O dia é de chuva e obriga a puxar do chapéu, dois elementos que acabam por se revelar adequados para a entrevista pois, segundo Matias Coelho, são fundamentais para a pesca das enguias nas valas de Salvaterra de Magos, que relembra ser feita na companhia do pai, pouco antes de serem transformadas na receita única da mãe. Quando vem acompanhado pela esposa, esta reserva-lhe as enguias mais fininhas por saber que são as que ele prefere. As mais grossas, diz, sabem melhor grelhadas, mas as fritas são as suas favoritas.

Mesmo assim, não existe forma de cozinhar que bata o arroz de enguias cozidas feito pela mãe Guilhermina, que conciliava o trabalho no campo com a lida da casa e a tarefa de criar os filhos. O pai, Manuel, também era agricultor, mas tinha gosto pela arte da pesca, sobretudo a da enguia, que implicava um ritual que “encantava” António Matias Coelho, começando pela “cavadela” com a enxada na terra e a descoberta das minhocas que, unidas por uma linha, passavam a parte dos fios unidos numa bola.

À Mesa Com... António Matias Coelho
Um dos momentos da refeição. Foto: mediotejo.net

Estava criado o isco, o “remolhão”, faltava seguir para a margem e aguardar a enguia mais gulosa. A pesca não era fácil pois o animal é escorregadio e, quando não se soltava da ponta do fio de pesca que era puxada com cuidado depois de se sentir a picada, tinha de se assegurar que havia jantar através do chapéu-de-chuva virado ao contrário onde ela caía de seguida. A partir daí “era o trabalho da minha mãe”, cozinhar uma receita com um sabor que também era único pois “tinha saído do nosso trabalho, do nosso esforço”.

Uma memória entre as muitas, sobretudo ligadas à segunda casa da família que conheceu, em Foros de Salvaterra, a escassos metros da escola primária onde, na quarta classe, conheceu a professora Maria Elisa Lázaro, “a pessoa que me tirou do campo”. A jovem de 18 anos, acabada de formar, foi a responsável por contrariar o rumo previsível de dar continuidade ao trabalho dos pais na agricultura. Deu-lhe uma das lições mais importantes da sua vida ao oferecer-lhe uma gravata, acompanhada da mensagem: “Podes sonhar e usá-la”, como alternativa às lides do campo.

Decidida a levar o “António” mais longe, começou por falar com Guilhermina que lhe disse “faça pelo meu filho o que puder”. O colégio privado em Benavente, cuja mensalidade era o dobro do rendimento do pai, e o Liceu de Santarém, que implicava o gasto extra das deslocações e de um quarto alugado, não eram opções viáveis. O passo seguinte foi falar com o pároco local, que lhe conseguiu lugar num seminário do Norte, em 1968, a cerca de 250 quilómetros de distância.

Se a mãe tinha por hábito acompanhá-lo no primeiro dia de aulas de todos os anos letivos, não o fez no do seminário que António Matias Coelho abandonou a meio do quarto ano devido à quebra do sigilo do sacramento da confissão por parte de um sacerdote que, lá longe, considerava “mais do que o meu pai” e acabou por fazer alusão ao pecado, entretanto penitenciado, na caderneta enviada para os pais juntamente com o jovem António num dos períodos de férias.

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As enguias fritas. Foto: mediotejo.net

A situação foi a gota de água e regressou a casa, onde aborreceu o pai com a decisão. A chegada no domingo ditou a decisão de Manuel para o dia seguinte, informando o filho que teria uma bicicleta na segunda-feira para usar na terça-feira, no primeiro dia do trabalho que lhe arranjaria entretanto. Dito e feito. Na terça-feira, aos 14 anos, começava o percurso profissional numa empresa polivalente que era correspondente bancária, vendia produtos para agricultura e fazia distribuição de gás.

A agricultura não lhe estava, definitivamente, destinada e as primeiras tarefas que desempenhou foi a cobrança de letras e o carregamento das botijas de gás. Cada função tinha o seu peso e sempre com direito a queixas dos clientes. Ou porque os rendimentos dos “sacados” (quem paga) não chegavam para entregar o dinheiro do título de crédito ao “tomador” ou “sacador” (quem cobra), ou porque a subida com a botija às costas para um terceiro andar sem elevador tinha atrasado o almoço da dona de casa.

A aproximação ao campo chegou com o segundo emprego, numa sociedade dedicada à comercialização de produtos para animais e agricultura. Mas foi, curiosamente, aqui que teve a possibilidade de utilizar a gravata pela primeira vez durante o expediente de escritório, conjugado com o apoio nas horas de almoço e folgas do caixeiro. A dissolução da sociedade levou-o a continuar com um dos dois sócios, com quem trabalhou até aos 16 anos. O resto da história faz-se de outros pormenores que são partilhados noutro ponto da ementa.

ACOMPANHAMENTO | Salada de Atleta

À Mesa Com... António Matias Coelho
Nós optámos pelas migas, mas António Matias Coelho preferiu a salada mista. Foto: mediotejo.net

O acompanhamento escolhido por nós são umas migas, pão a juntar ao do cesto com o pano amarelo que vai sendo acompanhado com o queijo. António Matias Coelho prefere uma salada mista para “desenjoar” o sabor da fritura das enguias. Uma opção mais saudável que conduz a conversa para a prática desportiva que já o levou além fronteiras e a subir ao pódio com o equipamento do CLAC – Clube de Lazer, Aventura e Competição, nas modalidades de atletismo e orientação.

Começou a correr na rua por lazer, e ouvia piadas como “olha que o outro já lá vai à frente”…! Em 1992 fez a primeira das cerca de 400 provas de atletismo que realizou até à data. Entre elas contam-se cinco maratonas em Lisboa, duas em Madrid e uma em Paris, acrescidas de mais de cinquenta meias-maratonas. A corrida não pára e este domingo, dia 4 de novembro, estará pronto para o tiro da partida da 8ª Corrida da Água, cujo percurso inclui o Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa.

As provas de orientação começaram em 1994, muitas envolvendo viagens ao estrangeiro com a esposa, que lhe acompanha o gosto – não só, por se meter a caminho, mas também por conquistar bons títulos. Juntos já percorram “centenas de milhares de quilómetros” e o itinerário previsto para o próximo verão inclui paragens em países como França, Eslovénia ou Suíça. E esperam incluir troféus na lista dos souvenirs.

SOBREMESA | Pudim Ribatejano com cobertura Camoniana

À Mesa Com... António Matias Coelho
O Molotof. Foto: mediotejo.net

Uma vez saboreadas as enguias, a próxima questão não consta no guião de entrevista e é-nos feita a ambos: “E para sobremesa, o que vai ser?”. Minutos depois chega à mesa o pudim cujo nome estrangeiro, Molotof, acaba por dar lugar a uma conversa sobre “sabores” genuinamente portugueses: Camões e o Ribatejo, duas causas pelas quais António Matias Coelho se tem batido nos últimos anos.

As claras do Molotof contrastam com o Ribatejano de gema com quem partilhamos a refeição e que perante a pergunta “Ribatejo ou Médio Tejo?”, depressa responde “Ribatejo, claramente! Médio Tejo não sei o que é”. O primeiro conceito é “natureza geográfica e sociocultural” associada a um “universo a que nós sentimos pertencer”. O segundo, juntamente com a Lezíria do Tejo, prende-se “com organizações administrativas artificiais e, fundamentalmente, com a distribuição de fundos comunitários”.

Uma organização territorial que, segundo o historiador, traçou limites territoriais entre concelhos com culturas similares e juntou outros que não as partilham, contribuindo para “ficarmos de costas uns para os outros e irmos perdendo identidade”. A defesa pela História e cultura ribatejanas materializou-se em 2009 com a fundação do Fórum Ribatejo, uma rede informal da qual é coordenador e junta defensores de “uma reorganização administrativa” em que o Ribatejo “possa integrar uma região” como um todo.

À Mesa Com... António Matias Coelho
António Matias Coelho. Foto: mediotejo.net

Um território cuja identidade, diz, não se limita à imagem “criada pelo Estado Novo” e da qual continuamos “prisioneiros”. Para António Matias Coelho, o Ribatejo é mais do que os cavalos, toiros e campinos das “terras da borda-d’água” da Lezíria, às quais se juntam o Bairro, a zona habitada por três quartos dos ribatejanos, e a Charneca, mais ligada à floresta, montado, pinhal e, mais recentemente, a eucaliptos.

Paisagens bucólicas que inspiram poetas, tal como a de Constância inspirou Camões – outras das causas de António Matias Coelho -, o poeta considerado por muitos como o maior da cultura portuguesa, que percorreu as ruas da vila junto às margens dos rios Tejo e Zêzere, numa altura em que muita vida passava pelo(s) castelo(s), condição fundamental para as claras do Molotof que vamos comendo.

À Mesa Com... António Matias Coelho
A relação com Camões foi reforçada pela amizade com a jornalista Manuela de Azevedo. Foto: mediotejo.net

A ligação entre com Camões surgiu através da amizade com a jornalista Manuela de Azevedo, quando trabalhava na Câmara de Constância, em 1991, e por quem percebemos ter profunda admiração. Uma pessoa que descreve como mulher de causas e convicções, “solteira, mas estava verdadeiramente casada com Camões” e que viveu para o poeta “como poucas mulheres vivem para os seus homens”. Neste sentido, acrescenta: “Camões nunca poderia ser meu. Camões pertencia-lhe a ela.”

A primeira mulher portuguesa com carteira profissional de jornalista faleceu aos 105 anos de idade, mas preparada mentalmente para viver “outros 15”, sublinha. Na fase final da sua vida, o corpo não lhe permitiu manter a luta com a mesma paixão e foi o “dever de amizade” que levou António Matias Coelho a assumir a direção da Associação Casa-Memória de Camões em 2016, quando percebeu que a entidade “estava em vias de se dissolver”.

Não quis “permitir” que Manuela de Azevedo “tivesse o desgosto de ver a sua associação morrer antes dela” e recebeu da “guardiã da memória de Camões a Constância” a missão de consolidar esta ligação, muito além do monumento ao poeta da autoria do escultor Lagoa Henriques, do Jardim-Horto Camoniano projetado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles e as paredes da Casa-Memória de Camões, que continuam a albergar um espaço vazio à espera do cumprimento de promessas, nomeadamente as dos responsáveis políticos.

CAFÉ | Aroma “Acasos do Destino”

À Mesa Com... António Matias Coelho
O momento do café. Foto: mediotejo.net

O café chegou com os pratos de sobremesa vazios e, se tivéssemos de escolher um aroma, seria “Acasos do Destino”, de intensidade forte como os momentos que mudam a vida naquele milésimo de segundo em que se dão viragens como as que marcam a vida profissional de António Matias Coelho. A primeira surgiu durante o primeiro emprego, cujo horário laboral, iniciado às sete da manhã, tinha a sua grande pausa com as duas horas de almoço.

Um período que dava tempo para ir comer a casa e ganhar ritmo para a tarde com a cafeína servida nas chávenas do café situado na avenida principal de Salvaterra de Magos, então conhecido por “Ri-te Night”. O ponto de encontro com os amigos era sempre a mesma mesa, até ao dia em que decidiu quebrar a rotina e escolher outra. Uma pequena mudança que viria a revelar-se grande quando encontrou o jornal Diário de Notícias aberto na secção dos Classificados.

À sua frente estava o futuro emprego na anunciada “grande empresa do ramo industrial na zona de Lisboa” que precisava de um empregado de escritório para as instalações de Paço de Arcos. O exame no Liceu Passos Manuel, em Santarém, possibilitou-lhe concluir o antigo 5º ano, um dos requisitos necessários para preencher a vaga. Respondeu ao anúncio e, poucos dias depois, recebia a carta da Autosil, empresa dedicada à produção de baterias e pilhas, para ir a uma entrevista.

Foi um dos dois candidatos escolhidos entre mais de cem, passando a usar a gravata regularmente, que tirava ao final do dia quando chegava à “Casa do Jovem Operário”, partilhada com cerca de 20 jovens. As tarefas eram divididas e o jantar pronto quando chegava era compensado com a lavagem da loiça do grupo, já em contra-relógio para “dormir à pressa”, voltar a colocar a gravata e “picar o ponto” às oito da manhã do dia seguinte.

A viagem para a capital permitiu-lhe concluir o secundário no Externato Acrópole e dirigir-se ao Campo Grande para se inscrever na Faculdade de Direito, em 1976. Sim, na de Direito e não na de Letras, como esperávamos ouvir. Mais uma viragem do destino que, num “país em ebulição”, lhe colocou o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP) no caminho e o levou a optar pelo outro lado da rua, onde o ambiente lhe pareceu mais estudantil e menos político.

O gosto pela História, em que destaca o “imaginário” a que ela apela com todas os episódios que a constroem, já vinha de longe. Um desafio intelectual e uma possibilidade de “viajarmos no tempo” que, naquele preciso momento, fez a História passar de segunda para primeira opção. Para António Matias Coelho, o mais interessante “são as histórias que dão vida à História” e foi, de facto, da escolha pela História que surgiram outras na sua vida, nomeadamente o encontro com Maria de São João, a colega de curso com quem viria a casar mais tarde e com quem teve a filha Ana.

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António Matias Coelho. Foto: mediotejo.net

Defende que “o conhecimento da História pela História não tem interesse nenhum”, acrescentando que “o facto de darmos importância às pequenas histórias da História não lhe retira a grandeza que a História tem, antes pelo contrário”. Acrescenta que a História, ao contrário dos dias de hoje, era valorizada nos seus tempos de estudante, em que não usou o traje académico (e a respetiva gravata) por não se rever nas praxes que chegam a ser “degradantes e humilhantes”.

O mesmo se passava com a carreira de docente, considerada “nobre” na altura e que abraçou por “vocação”, deixando para trás uma de escriturário em ascensão na Autosil. Começou por partilhar as histórias da História na Madeira, onde esteve dois anos, antes de começar a fazê-lo com os alunos da Escola Básica e Secundária da Chamusca, até se reformar em 2013. Período em que viveu “encantado” com o que o fazia, intercalando as aulas em que procurou formar os estudantes, sobretudo, enquanto pessoas, com o chamado “separador do meio-dia”, no qual não abdicava de almoçar em casa ou na escola da Golegã, onde a esposa era docente e a filha aluna.

O desencanto pela profissão que diz ter sido desvirtualizada por diversos fatores chegou próximo do final da carreira, que foi conciliando com os trabalhos desenvolvidos nas Câmaras da Chamusca e de Constância, a organização de eventos culturais e a publicação de obras literárias e artigos. As marcas que deixou em ambos os concelhos são muitas. Se no primeiro esteve na génese da Biblioteca Municipal, para o segundo criou a assinatura “Vila Poema” e recuperou a tradição das Festas de Nossa Senhora da Boa Viagem.

DIGESTIVO | Licor Tempo

À Mesa Com... António Matias Coelho
António Matias Coelho. Foto: mediotejo.net

O relógio marcava quase a hora do lanche quando o café desapareceu da chávena e digestivo… não houve. No entanto, se tivesse havido, a escolha seria, certamente, o “Licor Tempo”. O mesmo tempo que António Matias Coelho considera mais escorregadio do que as enguias que aprendeu a pescar com o pai nos tempos de infância e que fizeram parte da ementa numa tarde chuvosa e sobre o qual começou a refletir quando estava pela capital, numa das muitas noites em que, após um dia de trabalho e uma noite de aulas, apanhava o comboio que partia à meia-noite no Cais do Sodré.

Na altura, a pontualidade era cumprida e as portas chegaram a fechar-se à sua frente, deixando tempo para pensar. Foi naquela estação ferroviária, da qual recorda o “grande relógio”, que percebeu como o ritmo da vida não iguala a cadência dos ponteiros. O tempo, afirma, “é diferente de pessoa para pessoa e conforme as circunstâncias da nossa vida”, e quando questionado sobre o que ainda não teve tempo para fazer até à data responde depressa: “Muitas coisas.”

Entre elas está a pausa que vai iniciar em breve para se “libertar” de “todas as responsabilidades, a todos os níveis, durante os próximos meses”. Uma decisão tomada e anunciada que lhe permitirá dedicar-se às suas quatro “paixões”: a família, o desporto, as viagens e a escrita.

À Mesa Com... António Matias Coelho
António Matias Coelho. Foto: mediotejo.net

Já falámos das primeiras três, falta a última, sobre a qual ficamos a saber que começou com umas “tentativas” nas áreas da poesia e da prosa (contos) que ficaram guardadas nas memórias dos seus vinte anos. No presente, a “vontade” leva-o até à ficção, que será uma estreia depois de se ter dedicado a escrever sobre histórias da História ao serviço das câmaras municipais da Chamusca e de Constância e participado como júri em concursos literários, como o Prémio Literário do Médio Tejo, organizado pela editora Médio Tejo Edições em 2017 e 2018.

O desafio não passa pelas competições, surge como uma “oportunidade” para se conhecer a si próprio e “procurar através da ficção esse reencontro”. Para “contar a História como ela é já chegaram estes anos todos”, refere, não descartando que uma das fontes de inspiração sejam reminiscências da sua vida. Fala com a calma que quer imprimir ao tempo que se aproxima quando diz que o tema ainda não está definido. Será pensado com vagar. “Depois logo se vê, como a coisa anda, se resulta ou não resulta.”

BRINDE FINAL

À Mesa Com... António Matias Coelho
António Matias Coelho. Foto: mediotejo.net

As nossas entrevistas “À Mesa Com” terminam sempre com um brinde. Pouco vinho restou nos copos e o “Licor do Tempo” foi simbólico. Mesmo assim, bebem-se as últimas gotas de tinto depois de termos a resposta de António Matias Coelho sobre a que quer dedicar o toque do vidro dos copos de pé alto. As palavras faltam-lhe pela primeira vez nesta tarde. “Essa é pergunta mais difícil de todas, sabe porquê? Porque há tantas coisas a que vai a pena brindar.”

A resposta chega depois de alguma reflexão. Acaba por eleger “o privilégio de estarmos vivos”. Fazemos “um brinde à vida e à partilha da vida com os outros”, a mesma vida que lhe ensinou “que é um acaso” e, por isso, devemos ter consciência da “felicidade de termos nascido, sobrevivido, de termos chegado aqui e de, pelo menos em teoria, termos algum tempo para viver”.

O mesmo tempo que espera saborear com o seu próprio ritmo no futuro, fazendo jus à condição que a Natureza na sua perfeição nos deu ao dotar-nos, nas suas palavras, de pés para caminhar com calma e apreciar a paisagem – e não asas para chegarmos mais depressa. Nos casos em que os trilhos não se possam fazer andando, então que se encontrem os melhores meios para assegurar “que se faça o mais devagar possível, dentro da razoabilidade”.

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